batman

Vimos Batman Begins ontem. Eu gosto do ator galês, comé que se chama mesmo. Tem horas que acho o menino horroroso, tem horas que acho interessante. Liam Nisson, de quem normalmente gosto muito, está ridículo. Os ninjas todos são ridículos. Aquela garota torta de Dawson’s Creek é absolutamente odiosa – no mesmo patamar que ela, só aquela insuportável bochechuda da Renée Zellwegger.

O filme é muito… estranho. Eu gostei, porque gosto do Batman, gostei do visual favelão-futurista de Gotham City, gosto do clima sombrio do filme. Mas achei muito estranho, achei muitas coisas forçadérrimas, muitas coisas inexplicadas, muitas coisas nada a ver. Mas no bojo, como já dizia aquele, vale a pena ver, porque Batman é Batman.

O detalhe engraçado é que morcego, em italiano, é pipistrello, palavra que eu acho de uma comicidade ímpar.

salames

De tanto eu falar que meus alunos são ótimos, simpáticos, engraçados, espertos, estudiosos, pronto, me deram de presente uma turma de salames.

São dois, macho e fêmea, cujo nível de relação interpessoal ainda não identificamos e está corroendo todo mundo de curiosidade na escola. Ele trabalha na TV, mas é todo misterioso e nunca diz exatamente o que faz. Ela é comerciante, self-made woman, tem uma espécie de estrabismo à esquerda que possivelmente é conseqüência de um acidente, e usa óculos de grau com lentes esverdeadas. Quarentona enxutona, lourona, mas nada perua, graças aos céus.

Ela é mais espertinha, interessante, gosta de viajar. Ele é um salame daqueles assim, sabe, embalados a vácuo. Do tipo que vive pro trabalho, e conseqüentemente passa o dia inteiro assistindo à TV, mas quando falo de um artista qualquer ele nunca ouviu falar. Não se interessa por mais nada além do trabalho. Fica difícil dar exemplos práticos pra uma pessoa que olha pra uma foto da Julia Roberts e depois olha pra mim, como se fosse uma 3 x 4 de uma maricota qualquer que ninguém conhece. Salame, salame.

Olha, eu sei que inglês é uma língua esquisita, cheia de mumunhas, de phrasal verbs, de pronúncias malucas que não fazem sentido, de regras que botam exceções pelo ladrão, de modos de dizer, de expressões idiomáticas. Sei que o italiano é cabeça-dura pacas quando se trata de língua estrangeira. Mas caraca, se o cara leva 8 horas pra ENTENDER o verbo to be – convenhamos, não tem o que entender, se conjuga assim e pronto, joga o verbo pra lá pra fazer a pergunta e vamos nessa, junta um not, come uma vogal, tasca um apóstrofo e vambora, não tem explicação, é assim porque é e pronto – tem alguma coisa errada. A Salama sopra todas as respostas pra ele, porque ele não é capaz de fazer um exercício que é todo igual – TODO igual, só substituindo they por mike and susan, you and I, the girls, my brothers, etc. Veja bem, um exercício com oito questões, TODAS elas com uma lacuna pra preencher com o MESMO verbo are, e o cara não acertou NENHUMA. Tudo bem que ele também é todo pessimistão, saca o tipo?, aquele que fica balançando a cabeça o tempo todo e fazendo tsc tsc e resmungando nunca vou aprender isso, caraca, como é difícil, que língua maluca, nunca vou conseguir entender, não compreendi o mecanismo. QUAL MECANISMOOOOOOOO, pergunto, arrancando os cabelos. Não tem mecanismo, não chegamos ainda na fase do mecanismo, você só tem que decorar a porra da conjugação de um verbo ridiculamente fácil, e decorar que é pra jogar o verbo antes do sujeito na pergunta, e decorar que is + not = isn’t, e are + not = aren’t! Caralho, exclamou a princesinha!

Além disso é lento. Ele não sabe uma resposta, eu e a Salama dizemos qual é, ele leva uns dez segundos pra começar a escrever. Quando achamos que ele já terminou de escrever e tocamos pra frente, de repente vejo o Salame olhando ainda pro exercício de antes, uma palavra escrita pela metade, a caneta da RAI na mão, parada no ar. Morte aos lentos. Odeio-os todos.

Volto da aula rouca, frustrada e com dor de cabeça. Pra não dizer completamente exausta.

cousas

Apesar do cansaço, de ter chegado tarde ontem da última aula, de ter ficado acordada até meia-noite pra ver o finalzinho de Contact na TV, não consigo dormir até tarde e às oito da manhã já tinha voltado da corrida matinal. Limpei a casa toda meio correndo porque tinha aula mais tarde, preparei o molho de tomate pro almoço do Mirco, botei roupa pra lavar, estendi roupa no varal, tomei banho e lavei o cabelo, comi minha salada de trigo e tava botando a chave na fechadura pra sair quando me liga o Paulo Cintura, o aluno de sábado, dizendo que tava em Arezzo e muito provavelmente não conseguiria chegar em tempo pra aula. Até quarta-feira, se despediu.

E então, tudo já arrumado, limpo, preparado, organizado, só um pouco de roupa pra passar mas foda-se, resolvi fazer uma coisa que até hoje nunca tinha tido tempo de experimentar: botei uma cadeira na varanda e fiquei lendo, aproveitando o vento fresco e a claridade sem o sol escaldante, que estava a caminho da varanda do quarto. No inverno a varanda é infreqüentável por motivos óbvios. De qualquer maneira, normalmente não tenho tempo nem pra me coçar, e quando boto os pés lá fora ou é pra estender roupa ou pra cuidar rapidinho das plantas. Aaaaaaaah que maravilha, eu sentadinha na minha cadeira hedionda de plástico, rodeada de cravos rosa-choque, ervinhas cheirosas, plantas bizarras, os pés estendidos sobre uma outra cadeira, o celular e o telefone sem fio à mão, cabelinhos lavados, só curtindo o ventinho e vendo as árvores balançarem lá nos jardins públicos.

Pena que o Godfather não engrena nunca. Fosse um outro livro melhorzim a coisa toda teria sido melhor ainda.

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Hoje à tarde Gianni, Chiara e Roberta vêm aqui pra fazer as reservas da viagem de agosto, que vai ser Paris e Normandia. Eu preferiria ir a outro lugar, porque estou obcecada com essa idéia de voltar à França só quando estiver falando francês e com dinheiro no bolso pra gastar, mas como sempre sou voto vencido. Gianni achou um vôo barato que sai aqui do Aeroporto Internacionalmente Tabajara de Perugia, ou seja, maior mão na roda. Então vai ser França mesmo, again. Não tem problema; Valerio ontem me deu mais uma aula de francês e disse que vou aprender rapidinho. Xeroquei um monte de exercícios e vou tentar estudar entre um aluno atrasado e outro, ou quando estiver de bobeira na oficina.

E mais tarde vamos jantar na festa do tartufo em Ripa, com FeRnanda e Fabião. Uhu!

o poderoso chefão

Depois de The No. 1 Ladies’ Detective Agency, ataquei de The Godfather (Mario Puzo). Mas o que é que há com os escritores americanos modernos que não têm a menor intimidade com a língua? A trama é interessante, os personagens são claramente definidos, mas caramba, estilo literário zero. Que porre. Fora que tudo parece ter sido escrito já tendo em mente o futuro filme-baseado-no-livro. Não gosto de livros obviamente cinematográficos. Acho a maior forçação de barra. Vou terminar de ler, mas não estou feliz da vida não. Decepções literárias me irritam deveras.

uai é uai, uai

A mãe do Aluno Endocrinologista me ama, por algum motivo que não consigo identificar. Nas poucas vezes em que nos encontramos na garagem do prédio (ela mora no apartamento ao lado), faz uma tal festa que parece que sou a rainha da cocada branca.

Hoje quando cheguei no Aluno pra dar aula vi duas sacolas IMENSAS de supermercado, cheias abarrotadas de verdura, na cadeira da cozinha. Em cima, um bilhetinho: x la sig.ra Letizia (aqui usa-se “x” como nós usamos “p/”). Eles têm uma casa de campo grande na periferia de Perugia, e ela me mandou esse monte de insalata de presente.

Uma vez um cliente do Mirco, que tem um trailer que vende porchetta, queijos locais, salames, pagou uma parte da conta em dinheiro e a outra em comida. Ganhamos três formas de queijo (uma de pecorino fresco e duas de pecorino maturado, que fácil fácil chega a € 15/kg), dois salames (um de porco e um de ganso) e mais uma outra coisa comestível que não lembro o que era.

Chico Bento perde.

;)

Now constipation was quite a different matter. It would be dreadful for the whole world to know about troubles of that nature. She felt terribly sorry for people who suffered from constipation, and she knew that there were many who did. There were probably enough of them to form a political party – with a chance of government perhaps – but what would such a party do if it was in power? Nothing, she imagined. It would try to pass legislation, but would fail.

The No. 1 LadiesÂ’ Detective Agency, Alexander McCall Smith

fofocas

. Ontem à noite, chegando do trabalho, Mirco encontrou a velhinha aqui de frente, a mãe da Foca Monaca, lembram? Nossa vizinha gorda, fofoqueira, que dorme com os velhinhos da vizinhança pra ganhar uns trocados porque o marido não lhe dá dinheiro nenhum. Pois a velhinha tava lá do outro lado da praça, e ela é velha pra cacete e não conseguia voltar sozinha. Mirco se ofereceu pra trazê-la pra casa e a velha começou a resmungar: aquela prostituta da minha nora me deixou ali no meio da rua, aquela vaca, ela quer me convencer de que vai buscar água [não me perguntem onde, não sei], mas eu sei bem onde ela foi e o que anda fazendo!

Caramba.

. Suely Maria mudou de carro. Deu tchau ao Escort conversível branco com a Arbre Magique tigrada pendurada no espelho, e agora tem uma Smart com um gato de pelúcia no painel. Smart é carro de cocota, vocês sabem. Em cidades onde estacionar é um problema eu até posso entender, embora o preço seja salgado demais pra pouco espaço, mas aqui na roça, na Umbria despopulada, não faz o menorrrrrrrrr sentido, e só tem mesmo quem gosta de se exibir e anda de óculos-vespa e todas aquelas coisas que a Simone descreveu brilhantemente aqui.

. O companheiro de Suely Maria sumiu, não vejo há uma semana, maravilha. Joguei tanto rato morto nele que é capaz dele ter caído num buraco qualquer em conexão direta com o mármore do inferno, ele, seu cigarro, seu Porsche ridículo, seus óculos escuros e todo o conjunto da obra. Já vai tarde.

. Suely Maria trabalha num bar. FeRnanda uma vez entrou num bar, que ela nem lembra qual era, pra comprar sei lá o quê, e a ouviu falando em português no celular, ou com uma amiga, não sei direito. FeRnanda, desprovida do instinto anti-suelymaria com o qual aparentemente nasci, tentou puxar conversa, perguntando, em italiano, usando até a forma de cortesia, vejam só: Lei è brasiliana? Como resposta ouviu um Sì grunhido, uma carranca e um olhar esnobe. Hohohoho.

. Um amigo da Roberta, irmã do Gianni, mora no prédio gêmeo do nosso. Uma vez, conversando, Roberta disse que tem uma amiga brasileira (eu) morando no prédio ao lado. O cara fez uma cara de nojo e ela se apressou em dizer “não é essa que você tá pensando, é outra!!!” e ele fez ah, bom. Vejam, meus amigos, que não sou eu que sou biased. Vulgaridade é reconhecível a quilômetros por qualquer pessoa normal.

. Mudando de assunto, a Bota deu mais uma vez um show de atraso mental e egocentrismo dos botenses no plebiscito do último fim de semana sobre as ridículas leis atuais de fecundação artificial (riproduzione medicamente assistita, diz-se aqui). Só um quarto do povo apareceu pra votar, e com isso tudo ficou na mesma, e a Itália continua com as leis mais atrasadas do mundo sobre o assunto. O Vaticano achou o máximo. Atualmente os embriões não implantados são jogados foraaaaaaaaaaa porque a lei proíbe pesquisas de células-tronco nesses embriões. Então vão todos pro lixo, e as poucas instituições de pesquisa do ramo têm que importar embriões de outros países. O Papa fala de proteger a vida e coisa e tal, que o embrião é vivo e humano desde o momento da fecundação e blah blah blah. Mas então eu é que devo ter entendido mal: entre o direito de ser jogado no ralo e o direito de ser usado pra estudos que podem salvar e melhorar a vida de zilhões de pessoas, a igreja prefere o direito de ser jogado no ralo? Então tá.

. Demos mole, não compramos logo as passagens em oferta com a Aerolineas e perdemos a promoção. Dançou a Argentina, e vai ser Escandinávia mesmo em agosto, então. Estou tristíssima, olhem só minhas rugas. :)))))))))))))))

. Hunka, se você não vier esse ano eu te encho de porrada.

Tuco e Carol, idem.

. Beijos e saudações flamenguistas à Carol do Werther e à sua tia Dita, que pelo que ouvir dizer é gente boa pacas :)

de línguas

Hoje foi um dia pesado. Saí de casa cedo e toquei pra Perugia, onde fiz a prova do CELI – o certificado de língua italiana mais ou menos equivalente aos de Cambridge pro inglês, por exemplo. Não sei por que cargas d’água não fiz assim que terminei o curso na Stranieri em 2002, até porque os exames são organizados por eles, mas enfim.

Sei que passei, mas o teste foi chato pra cacete. Cada texto chato, cada múltipla escolha safada. Pra variar, acabei rápido a primeira parte e fui catar alguma coisa pra comer, já prevendo que não voltaria pra casa antes das nove e meia da noite – minha última aula começa às sete e meia, em Perugia mesmo, e não valia a pena voltar pra casa, nem pelo tempo e nem pela gasolina. A prova foi num hotel de nome ridículo (Etruscan ChocoHotel. CHOCOHOTEL. Quequeísso, gente. E La Spo’ ainda me pergunta se a culpa do clima maluco é do homem na lua. O clima maluco é culpa de gente que funda um hotel e lhe dá o nome de ChocoHotel. Não há Eurochocolate no mundo que justifique. Estamos falando de um nome do nível de Suely Maria, vejam bem.), bem perto de onde mora o Aluno Endocrinologista. Bom, porque amanhã de manhã volto pra prova oral, e às onze vou dali direto dar aula.

A segunda parte da prova foi a mais fácil. Tudo gramática, aquelas coisinhas bobas de completar um texto com as palavras corretas, de achar erros bestas nas frases (tipo “al ponte di” em vez de “al punto di”), de completar com os verbos no tempo correto. Fiz em 7 minutos, contados no relógio. O tempo da prova era de uma hora e quarenta e cinco minutos. Na boa, não é pra esnobar, mas puta que pariu, estamos falando do último nível de italiano; se uma criatura leva mais que meia hora pra botar uma dúzia de verbos no passado, ela está no nível errado. Não lembro direito das provas do Proficiency, mas lembro perfeitamente que era gramática das mais cascudas, sentence transformation, uns negócios barra pesada. A gramática dessa prova me surpreendeu. Nem um condicional! Nem um subjuntivo esquisito! Nem um passato remoto, minha única dificuldade com o italiano! Nada. Tudo facílimo. Levei mais dois minutos pra preencher os quadradinhos da ficha de respostas e fui lá pra fora continuar lendo The Bookseller of Kabul – delicioso, by the way.

A última parte de hoje foi o listening, também chatérrimo. A compreensão do que diziam os fulanos não era difícil, muito pelo contrário, até fácil demais, já que eles claramente se esforçavam pra falar devagaaaaaaaaar e tão pausadamente que parecia que estavam falando com retardados. Só que as perguntas eram terríveis, mal-feitas. Gosto mais daqueles listenings cheios de números e horários que te confundem, e você tem que se concentrar de verdade pra ouvir o que a mulherzinha fala com o barulho da estação de trem no fundo, sabe, coisas assim.

A mulherada – porque é só mulher que estuda línguas, impressionante – estava toda nervosíssima, principalmente o pessoal que faz o mestrado da Stranieri sobre didática da língua italiana pra estrangeiros. Se não passam no teste, não ganham o certificado do mestrado. Pra facilitar as coisas, quem queria podia escolher fazer o teste no nível 3. Não sei pra vocês, mas pra mim parece a história do inglês não mais obrigatório pro Rio Branco. Se você vai dar aula de italiano e está inclusive freqüentando um mestrado sobre o assunto, acho mais que razoável que você fale a língua PELO MENOS muito bem. Quem não vai além do nível 3 não fala nem razoavelmente bem, fala assim assim. E eu não gostaria de ter aulas de uma língua com alguém que a fala assim assim. Mas o mundo é estranho e poucas coisas me surpreendem.

Depois da chatice dos testes fui pra Ponte San Giovanni matar um par de horas até as seis, hora marcada pra minha aula de francês com o Valerio. Estacionei na sombra, no estacionamento da Coop, àquela hora vazio, escancarei as portas do carro, respirei o cheiro resinoso de pinheiro que acho que vinha da cerca-viva da casa limitante com o estacionamento, e ataquei o Bookseller of Kabul. E depois fiz minha aulinha de francês, fui cumprimentada pela minha pronúncia, voltei a Perugia, dei minha aula capenga de inglês porque tinha esquecido o livro e as fitas, e agora estou aqui em casa escrevendo pra vocês em vez de tomar banho e ir dormir, porque eu é que não tenho mais saco de dirigir até a casa do Gianni e da Chiara pra discutir uma viagem à Argentina que eu não estou nem um pouco disposta a repetir.

Boa noite.

uia

O dia tava bem gostosinho hoje. Sol forte compensado por nuvens passageiras, empurradas por uma brisa fresca. Depois de uma boa arrumada na garagem, que tava o samba do crioulo doido, fomos cedo pra Arianna e ficamos horas brincando com a bicharada. As filhotas da Priscilla já tão saindo da casinha delas e tocando o maior rebu no jardim, subindo em árvores, provocando os gansos através da grade, brincando com penas de peru que acham caídas pelos cantos. Quando der vontade subo as fotos. Subi pra ajudar a botar a mesa enquanto o Mirco ficou lá embaixo vigiando a lasagna no forno a lenha.

Comecei a bater papo com a avó do Mirco, a Lucia (lutchía), em família carinhosamente chamada de Laspo’ (de La Sposa, A Esposa, como a chamava o falecido marido). Ela é uma bonequinha, miúda e calada, foférrima, e sempre preocupada em depilar o buço antes de fazer suas poucas aparições em público. Pois então: falávamos de amenidades, de como o tempo anda estranho, de como não se entende mais nada de coisa nenhuma, se vai chover, se não vai, se o calor vai durar, se a neve vai cair em junho no Abruzzo, enfim, essas coisas. Ela perguntou, meio ressabiada, se eu não achava que a lua tinha alguma coisa a ver com esse clima doido. Hmmmmmmm como assim? Ela perguntou se eu acreditava que o homem tinha mesmo pisado na lua, e se isso tinha alguma coisa a ver com o clima. Achei tão bonitinha a pergunta, parecia coisa de criança mesmo! Expliquei com o máximo da simplicidade o efeito estufa, e ela fez oooooh. Não é uma coisinha fofa? :)

***

Ontem à tarde aconteceu uma coisa bizarra. Finalmente terminei a tradução que estava sugando meu sangue há tempos (não porque não tenha sido legal, é que faltou tempo pra me dedicar comme il faut), tomei banho, fui lá fora ligar a máquina de lavar roupa, e quando voltei pra dentro estava espirrando sem parar. A narina esquerda coçava terrivelmente. Impossível ser alergia, pensei. Me recuso a virar alérgica. Não tenho paciência pra ser alérgica. Minha pele é sensível demais, se eu tiver que viver assoando o nariz em lenço de papel meu nariz vai cair de tanto atrito com o papel. Não posso virar alérgica porque alergia é uma das coisas mais chatas do mundo.

Mas mesmo depois do jantar de peixe com Mirco e Stefania a narina esquerda continuava coçando. E hoje acordou coçando de novo. No final da tarde me irritei; depois de ver Meet the Fokkers (que filme chato, benza deus!), tomei um Fenergan que tenho vergonha de dizer de onde veio, e nos mandamos pra festa da cereja em Capodacqua, uma frazione de Assis. O tempo foi passando e comecei a sentir os efeitos do Fenergan, que até hoje eu só tinha tomado pra dormir quando tinha insônia (sim, tenho meus momentos McGyver-improvisativos). Fui ficando boba, boba. Não entendia nada. As pessoas falavam comigo e eu levava horas pra entender. Não consegui nem curtir as lindas casas da zona, o belo galpão de madeira, a delícia dos ravioli com nozes e formaggio di fossa (don’t ask). A cabeça pesava e tudo parecia tãaaaao longe, tão sem importância, tão esquisito. Acabamos vindo embora mais cedo, porque eu já tava quase rindo sozinha de tão boba. Eu, hein.