cigarra

Eu ODEIO trabalhar. O-D-E-I-O. Detesto. Tenho pavor. Alergia, coceira, comichao, pesadelos. ODEIOOOOOOOOOOOOOO.

(e devo ter algum cromossomo alemao em algum lugar que nao se manifestou, digamos, capilarmente, mas me deixou completamente desprovida de qualquer coisa que lembre jogo de cintura e capacidade de improvisaçao.)

Mudando de assunto pra eu nao me irritar mais ainda, porque hoje FeRnanda e Fabiao vem jantar e nao quero estar de mau humor: vou fazer a receita de torta de frango da Marcinha, pao de queijo, pizza de cebola com salvia e de alecrim com azeite, e de sobremesa tabajara uns cookies de café com gotinhas de chocolate que se ficarem bons eu boto aqui. (se nao ficarem eu nao toco mais no assunto, e todo mundo vai fingir que esse assunto nem rolou, tah? ;)

Cineminha

Ontem à tardinha fomos ver The Butterfly Effect. Apesar do protagonista ser o namorado da papa-anjo Demi Moore e da direção deixar um pouco a desejar, o conceito geral do filme é bem interessante. The Butterfly Effect é aquela história da borboleta que bate asas no México e pode causar um tornado do outro lado do mundo, através de uma série de eventos aparentemente não relacionados entre si.

O personagem do bobão do That 70’s Show é um garoto que volta e meia tem blackouts de memória que resolve escrever diários pra tentar tapar os buracos. Só que ele descobre que relendo esses diários, em particular os trechos não terminados, porque relativos a pedaços perdidos de memória, ele consegue voltar ao passado. Como a história toda é cheia de pequenas tragédias, ele resolve mudar o passado pra tentar evitá-las, bastando pra isso pequenos atos, como uma frase, um objeto dado a um amigo. Voltando ao presente, que obviamente muda de acordo com o passado que ele alterou, ele descobre que esses mesmos pequenos atos são capazes de mudar totalmente a vida das pessoas. Ele acaba ficando num vai-e-vem passado/presente, achando que consertou coisas no passado mas caindo em presentes horrorosos, até resolver parar com a brincadeira, do melhor jeito possível.

Bom, no final das contas gostamos do filme. E voltamos no carro conjecturando sobre as nossas vidas ultimamente. É meio apavorante pensar que, se o telefone do Mirco tivesse tocado quando ele estava pra sair de casa naquele dia de novembro em 2001, e ele tivesse voltado pra responder, provavelmente não teríamos nos conhecido, porque ele teria passado na estrada quando eu e Valéria já teríamos chegado ao albergue. Ou se a gente tivesse pego o trem pra Assis que tinha acabado de sair da estação de Perugia; eu e Valéria teríamos chegado em Assis uma hora antes e assim eu e o lanternerio não teríamos nos conhecido. Ou se a Valéria não tivesse me convencido a passar em Assis – eu só sabia que era cidade de santo, e como não gosto de santo não queria vir. Lembro perfeitamente de nós duas debruçadas sobre um mapão da Itália na sala de paredes cor de pêssego da Valéria, no Leblon. Ela insistindo em Assis e eu não, não, santo não, por favor! Ou então se meu amigo Guido não tivesse me convencido a estudar italiano em vez de francês. Ou então se eu nem tivesse conhecido o Guido naquele MUSH, onde eu só entrei porque tive um febrão uma noite, não conseguia dormir e acabei entrando no tal MUSH, indicação de um amigo da Newlands.

A vida é muito estranha, crianças.

famiglia

Hoje de manhã cedo, dormindo, morreu o pai do Chefe. Não era um exemplo de honestidade ou de educação, e todo mundo aqui dentro em algum momento já pensou seriamente em sair da empresa por causa da chatura dele, mas no bojo sempre nos tratou bem (principalmente depois do almoço – leia-se vinho tinto) e a morte dele abalou todo mundo. Estamos aqui no escritório ligando pra clientes e fornecedores pra comunicar o ocorrido, e depois fechamos.

Nunca tive, felizmente, um contato íntimo com a morte dentro da minha família. A única vez em que fui a um funeral foi o da minha amiga e vizinha Bruna, que morava no prédio da minha prima Erica. Morreu num acidente de carro idiota, na Gávea. Lembro que a ficha demorou muito a cair quando a Erica me ligou pra dar a notícia, e foi a mesma coisa hoje: Martinha me liga logo cedo, eu ainda de pijama, fazendo a cama, e eu achei que ela estivesse ligando pra avisar que não vinha trabalhar por causa da enxaqueca. Quando ela disse o que tinha acontecido, caí sentada na cama e fiquei repetindo feito uma idiota: mas como assim, morreu? Ahn?

A família do meu pai é formada por Matusaléns que não morrem nunca. Do lado da minha mãe é uma tumoração só, neguinho morre de tudo que é tumor que você puder imaginar (então já sei o que me espera…), mas nós temos muito menos contato com essa parte da família, então nem lembro quem foi o último que morreu. Meu avô, pai da minha mãe, morreu há muitos anos (sempre câncer, claro). Eu era pequena e lembro só de uma tristeza danada em casa, e de ver meu pai chorando, como também chorou quando morreu a Tia Maroca, irmã da minha avó, também quando eu era pequena. Tenho muitas boas memórias dos dois, mas eu era pequena demais pra entender direito o que estava acontecendo.

Então, eu nunca tinha visto de perto a coisa como ela é. Fomos direto pra casa do Chefe; a irmã, que estava pra casar (e o pai não aprovava a coisa porque o noivo é do norte da Itália, tem uma agência de turismo e vive viajando, não pára em casa. A opinião nossa aqui no escritório é que agora o casamento não sai mais), completamente desolada; o Chefe, um homão alto e grande, chorando feito uma criança, e é isso o que mais sacode a gente. Anzi: o que mais sacode é a burocracia envolvida. O cara da agência funerária (aliás, que emprego é esse, hein? Socorro…) já estava lá, escrevendo o texto dos cartazes de anúncio de óbito e marcando com uma cruzinha num formulário as cidadezinhas onde os cartazes vão ser colados. Uma coisa muito estranha; todo mundo devastado de dor mas mesmo assim um vira pro outro pra perguntar, mas ele conhecia alguém em Palazzo? Não? Então em Palazzo não precisa botar cartaz. Mas em Viole sim? Viole sim. Rivotorto com certeza, né, tio?

E aí vem o padre.

Eu só digo uma coisa: o idiota que mandar um padre pro meu futuro funeral, ou mandar rezar qualquer coisa, ou puser uma cruz ou um anjo ou uma N. Senhora no meu túmulo, ou distribuir santinhos com o meu nome escrito atrás, mas esse idiota vai ter as pernas puxadas de noite pela minha fantasmagórica e esbelta figura até o fim dos dias.

**

Há muito tempo eu quero colocar aqui uma foto da minha avó, mãe do meu pai, que morreu quando ele tinha 13 anos. É a pessoa que eu mais gostaria de ter conhecido em todo o mundo. Era muito bonita, culta e refinada, era professora de piano, e pelo que dizem também era uma mulher “prafrentex”, e acho que nossa família talvez tivesse tomado outro rumo se ela não tivesse morrido tão cedo, deixando meu soturno avô com 5 filhos pra criar. Oficialmente morreu de câncer de mama (opa!), mas eu acho que a melancolia teve muito a ver com a história. A teoria da minha mãe é que eu herdei da minha avó Dirce (QUE NOME É ESSEEEEEEEEEEEEE), além do sorriso que eu nunca vi porque não há nenhuma foto dela sorrindo, essa tendência à depressão. Pode ser, pode ser.

Quando o meu pai fizer o favor de escanear a foto dela que há ANOS ele promete e não escaneia, eu boto aqui, e vocês vão ver que avó danada de chique que eu (não) tive…

Meu avo é apaixonado por ela até hoje. Na sala do apartamento dele, na Tijuca, onde ele mora com a minha tia que nunca casou (e que tem também o sorriso da Vovó; meus tios me chamam de Ilsinha porque quando sorrimos eu e T. Ilse nos parecemos muito), há na parede um quadro do meu bisavô sírio, vestido a caráter e muito sério e macho, e um da minha avó. Vovô só se senta à mesa numa posição em que ele possa ver o quadro.

Minha outra avó, com quem morei no final da faculdade, não tem nada de chique, mas é a clássica avó hipocondríaca, totalmente saudável e boa de cozinha e de garfo. Mês passado deu um susto na gente com uma hérnia intestinal maluca que precisou ser operada – e olha que maravilha, quem operou foi uma feladaputa que foi minha professora de Cirurgia na faculdade, e que me deu um esporro homérico uma vez porque apresentei um seminário sentada na escrivaninha dela hohoho… Até onde eu sei ela é uma boa profissional, mas a fama de sapatona antipática que ela tinha no hospital era bem, digamos, intensa. Não entendo essa gente que prefere se impor pelo ódio/medo em vez de pelo respeito adquirido. Deve dar tanto trabalho ser filha da puta e antipática o tempo todo!

hm…

Sim, sou possessiva – só com coisas materiais, bem entendido. Não significa que eu seja fútil ou frívola, ou menos humana do que a média das pessoas; simplesmente me apego demais a coisas, objetos. Tenho particular problema com comida e livros. Tenho pena da comida não comida e de livros não lidos; me irrito se perco tempo que poderia ter sido empregado em comer ou ler. Tipo, vou a um restaurante, peço um risoto de açafrão, mas sinto pena da massa com salmão, coitadinha, ficou ali, abandonada! Arrependo-me de não ter pedido os ravioli com trufas brancas, de não ter experimentado, sei lá, uma outra coisa gostosa que vi no cardápio ou na mesa de alguém mas acabei não pedindo.

Hoje me irritei, como acontece muito frequentemente, depois do almoço. Antes de virmos ao escritório, eu e Marta passamos no banco, pelo menos duas vezes por semana. Sempre pergunto, quando estou descendo do carro pra entrar em casa antes do almoço, se hoje rola banco; quando rola, levo o livro que eu estiver lendo pra passar o tempo enquanto espero, no carro, a Marta resolver o que tem que resolver no banco. Hoje deixei o quarto Harry Potter em casa, e mofei dentro do carro por quase quinze minutos ouvindo a temível música italiana no rádio, em vez de estar lendo alguma coisa de produtivo e/ou interessante. Isso vai me dando uma certa irritação, e fico o resto do dia pensando em como fui burra em ter deixado o pobre livro em cima da mesa. Como se fosse uma coisa gravíssima, entende? (detalhe que essa deve ser a quinta vez que eu leio os livros, entre Inglês e Italiano, tipo, não estou perdendo nada de novo).

Maluquice?

roupitchas novas

E então desde ontem à noite sou a feliz proprietária de:

n. 1 casaco de lã Valentino Jeans, preto, divino
n. 1 par de calças pretas Valentino Jeans, maravilhosas
n. 1 blusa vermelho-bordô com detalhes nas mangas e na cintura e amarração no pescoço, Valentino Jeans, espetacular.

O mais lindo é que tudo isso junto só me custou 200 euros! Culpa da Marta, que me levou à Hemmond, malharia meio falida que produz (ou produzia, já não entendo mais nada) pro país inteiro, incluindo alguns grandes nomes da alta costura.

deslumbramento

Mas como os meus leitores são interesseiros! A quantidade de gente que disse pra eu casar porque senão eu voltaria pra casa e pararia de escrever sobre a Itália foi impressionante! Dei muita risada com os e-mails ;) Mas, como eu disse, não respondi nem sim, nem não. Por enquanto vou ficando, e depois vou ver que bicho que dá. E chega desse assunto que essa história já deu tema pra muita novela das oito, e até eu já enjoei. Vamos falar de outra coisa.

Que o meu chefe não é uma pessoa particularmente admirável, e por motivos váaaarios, não é novidade pra quem lê o blog. Mas tem um aspecto dele que às vezes me irrita e às vezes me faz dar risada: o deslumbramento. Coisa de pobre de espírito mesmo, sabe? Novo rico? Agora pegou a mania de pedir a mim ou à Martinha pra ligar pra fulano e depois passar a ligação pra ele. Como se custasse muito ele abrir a bosta da agenda telefônica, digitar o número e dizer fulano está?. A mania começou há alguns meses, mas piorou agora que estamos em um escritório decente, com cara de sério (lá em Assis a gaveta da minha velhíssima escrivaninha era forrada com papel de presente do Snoopy, e o cachorro do escritório babava todos os clientes, e nossos produtos eram enviados em caixotes de papelão cobertos de pegadas de cachorro e com penas de galinha presas nos cantos). O menino anda se achando oooooooooo C.E.O. de multinacional. A coisa mais engraçada (leia-se é rir pra não chorar) é que ele não entende nada de nada. Não entende nada de computador, não sabe nem mexer no telefone super modernoso dele, não sabe onde está nada, e tudo tem que perguntar a mim, à Martinha, ao segundo chefe, à Miss Almoxarifado e ao Chato Workaholic Assobiador Bafo-de-Onça (doravante chamado C.H.A.B.O.) que agora faz consultoria pra gente. Uma das piores partes desse meu emprego, além do fato de ser um trabalho relativamente chato e difícil de organizar porque eu faço um pouco de tudo, é ter que obedecer a um chefe que não entende nada de coisa nenhuma. Sempre fui da opinião que pra comandar a gente tem que saber do que está falando. Bem fez o pai de um amigo* triliardário do Mirco, que tem uma fábrica de galpões aqui com sede aqui e mais umas 3 filiais no resto da Itália: antes de botar o filho engravatado no escritório, fez o garoto ralar nos canteiros de obra, observando os peões e mestres-de-obra.

* (e se tivéssemos feito o nosso novo escritório com eles, com certeza não teria sido a novela que foi esse aqui – novela que não acabou, visto que já há paredes rachando, privadas vazando e chuva chovendo dentro do banheiro).

Jamais conseguiria viver assim, tendo gente pra fazer tudo pra mim, entendendo mais da minha vida do que eu mesma. Tenho horror a depender dos outros. Nao gosto nem que façam meu prato na hora do almoço. E pra mim é essencial entender o contexto onde estou pra poder funcionar. Tipo, eu não tenho nada a ver com a produção dos cartuchos, mas sempre fui curiosa de saber como funcionava a coisa, e volta e meia apareço no laboratório pra perguntar por que não imprime direito, por que esse modelo de cartucho dá tanto problema, por que esse cartucho não é compatível com a impressora x, se parece ser idêntico ao que é compatível. Não conseguiria me mover aqui dentro sem saber essas coisas. Um cliente liga reclamando de um cartucho que não imprime direito; se eu não sei o que pode ter dado errado, como faço pra dar uma resposta decente? Fora que é feio não entender nada do mestiere. E fora que aprender nunca é demais. Pode parecer um tipo de aprendizado idiota, tipo, ooooh, que coisa importante pra minh’alma, conhecer modelos de cartuchos, mas hoje ninguém me enrola mais nesse assunto, e o dia em que resolver comprar uma nova impressora vou olhar pra cara do cartucho antes e saber imediatamente se dá pra regenerar (leia-se economizar) ou não, se é fácil de achar ou não, se o custo-benefício é legal ou ridículo, se a assistência técnica do fabricante funciona; vou saber o que fazer se o cartucho não imprimir direito, vou saber onde olhar pra ver o que está errado, enfim, hoje sei um monte de coisas que um dia poderão ser-me úteis. Conhecimento é sempre valioso, darlings, não interessa se sobre física quântica ou o crescimento dos repolhos na horta.

(ou não – a cada dia que passa mais acredito que ignorance is bliss. Muito bliss.)