Arquivo de outubro de 2007

um dia Fernanda

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

(Essa Fernanda aqui, ó.)

Estou eu sentadinha no ponto de ônibus em Ponte San Giovanni, esperando o 4 pra Piazza Partigiani, quando passa um homem com uma roupa fresquinha de lavanderia pendurada num cabide, com um papel escrito Marcacci (um sobrenome comum aqui na zona) alfinetado, e um escovão daqueles de limpar privada, azul-marinho, na outra mão. O cara pára na minha frente e trava-se o seguinte diálogo:

- Qual é o seu nome, qual é o seu nome?

- Hein?

- Qual é o seu nome, qual é o seu nome?

- Pra que você quer saber?

- Qual é o seu nome?

- Maria.

- De onde, de onde?

- Egito. (não me perguntem no que eu estava pensando, porque eu não sei)

- Você é do Egito?

- Sou.

- Mora em Perugia, mora em Perugia?

- Não.

- Onde você mora, onde você mora?

- Em Foligno.

- Mora em Foligno?

- Moro.

- O que você faz em Perugia, o que você faz em Perugia?

- Estudo.

- Estuda o quê, estuda o quê?

- Medicina. (imaginação zero)

- Estuda medicina, estuda medicina?

- É.

- E vive de quê, vive de quê?

- Trabalho, ué.

- Trabalha em quê, trabalha em quê?

- Em uma loja.

- Em Perugia?

- Em Foligno.

O homem vai embora. Dá meia-volta e recomeça:

- Trabalha em Foligno?

- É.

- Em uma loja?

- É.

- Loja de quê?

- Uma loja, ué.

- De roupa, de roupa?

- Não.

- Loja de quê?

- É uma loja, que diferença faz?

- Loja de roupa?

- Nã-ooooooooo!

- Você é do Egito?

- Sou.

Deu as costas e foi-se. Fiquei lá parada com cara de o que foi isso, jesus?.

Subi no ônibus, sentei e dois pontos depois, na estação de trem, sobe o Fedorentão. O Fedorentão é um velho sujo com bafo de cana que volta e meia pega os ônibus em Ponte San Giovanni, normalmente descendo uns dois pontos depois de onde subiu. Hoje tava com vontade de falar: quando eu ofereci meu lugar pra sentar ele começou a contar, pro motorista mas naquele tom de voz altíssimo dos italianos, que não podia sentar porque depois não levantava, desde que foi atropelado e machucou a coluna. Perguntou ao motorista se achava que ele conseguiria ganhar uma grana de indenização, e começou a dizer que se ganhasse beberia até cair e ficaria “fora do ar” por quinze dias. E completou, como se fosse necessário: eu sou um grande bebedor de cerveja, sabe. Dois pontos depois desceu, carregando uma montanha de sacolas de plástico (pobre adora sacola, né), uma das quais meio transparante, revelando meia forma de queijo de ovelha dentro.

**

E como bizarrice nunca vem sozinha: quem acredita em deus diz que o cara é pai mas não é padastro. Eu digo que a vida dá voltas. Lembram que aquela cretina, piranha, vulgar, escrota, filha da puta, metida, horrorosa, cafona, cara-de-pobre da Suely Maria, ex-vizinha, roubou um documento meu? Foi aos correios com o papelzinho que o carteiro deixa quando não encontra ninguém em casa, assinou o recibo e pegou meu documento. Adivinhem o que eu achei no meu escaninho hoje? Um recibo endereçado a ela, entregue aqui por acaso. Explico: quando nos mudamos ativamos o serviço Seguimi (Siga-me) dos correios, que por um ano inteiro desvia cartas entregues no seu endereço velho pro seu endereço novo. Enquanto banco, sistema de saúde etc não atualizam o endereço, continuam mandando cartas pra Cipresso, mas os correios entregam aqui. O que deve ter acontecido é que a cretina da carteira, acostumada a desviar cartas de uma estrangeira (eu) do endereço de Cipresso pra cá, nem olhou direito o nome no envelope: é estrangeira, então é aquela de XXV Aprile (eu), mando pra lá.

Aceito sugestões sobre o que fazer com o recibo, que espero com muito, muito ardor que seja uma coisa muito, muito, MUITO importante, cuja cor ela jamais irá ver, logicamente. Estou pensando em voodoo, quê que vocês acham?

uni

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Infelizmente tem coisa chata também: vou ter que refazer Politica Economica, porque é a clássica matéria que não tem como estudar sozinha sendo retardada matemática que nem eu. Quando entrei na sala os calouros ficaram todos me olhando, tipo quem é essa velha, hohoho. Anotei várias coisas mas não entendi nada. Minha relação com gráficos cartesianos é no mínimo turbulenta, mas pelo menos é recíproca: odiamo-nos.

Terminamos o dia com o professor do barulho com a boca, que confundiu a cabeça de todo mundo enquanto explicava coisas que, suspeito, não devem ser tão complicadas assim. Ainda não vi a cara do livro, mas depois de ver as transparências do homem decidi que vou ler umas páginas antes de comprar, porque a probabilidade de ser confuso como ele é muito alta. Veremos.

Hoje fiz amizade com o porteiro do Lupattelli (um dos prédios onde temos aula). Sabe o típico cara chatinho, não chatinho porque incomoda, mas bobinho? É ele. O clássico chatinho que sabe o nome de todo mundo, a turma, em que ano está, com quem namora, que carro dirige, de onde é, que nota tirou na última prova. Faz piadas amarelas e tem dentes horríveis mas é inofensivo. Pelo menos me sinto menos sozinha – esse ano ando muito antisocial e não tenho muita vontade de bater papo furado e explicar a minha situação nada average pra vinte garotas de 20 anos que só pensam em Dolce & Gabbana, sabe. Só que quando não levo o laptop e rola algum buraco inesperado não tenho ninguém com quem falar. Vejam bem, eu não quero conversar, fico feliz da vida lendo El Club Dumas em espanhol, mas gostaria de PODER conversar se me der vontade. Entra Simone, o porteiro. Por enquanto tá de bom tamanho.

español

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Acabou que a aula de espanhol não vai ser de espanhol. Quer dizer, tem uma parte de língua também, mas a prova vai ser sobre a Guerra Civil espanhola, ou seja, outros 500. Já encomendei o livro em espanhol na minha livraria, e estou adorando a idéia de aprender sobre um episódio histórico do qual não sei absolutamente nada. A professora é jovem, magrinha e bonitona, fala muito claramente e tem toda pinta de que explica bem. Bom começo! : )

E hoje cheguei em casa num estado de agitação ímpar. Porque tivemos aula de Relazioni Internazionali com o professor bonitão que deu Comunicazione Politica ano passado, e depois Linguistica Generale. O professor faz uns barulhos estranhos com a boca, limpa a garganta e tem dentes horríveis, além de ser muito confuso, mas o programa é interessantérrimo, fiquei doidinha de felicidade só de ver as coisas que vou aprender. Saí da faculdade correndo pra encomendar os livros, um em italiano e um em inglês – esse último eu procurei na Borders em Las Vegas mas me disseram que só tem em livrarias especializadas em material universitário. Blé. Estou doida pra começar logo a estudar. Tá todo mundo desesperado porque além de ter 9 créditos a matéria tem fama de ser muito complicada (desconfio que é o professor que complica, mas enfim) e a prova, muito difícil. Vamos ver… Confio no meu taco lingüístico, e ainda por cima tem fonética e fonologia no programa, que já estudei durante o curso de italiano em 2002 e ainda lembro tudinho, então pode ser que não seja tão difícil quanto dizem. Mas time will tell.

uni

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A prova de Marketing foi na quarta. Eu tinha lido o livro quase inteiro só uma vez (ficou faltando a última parte, sobre distribuição do produto), e achei muito interessante – os exemplos são ótimos e a cara do livro é legal, sabe, a gráfica e tal. Lá fui eu pra prova.

Normalmente a última chamada não tem muito aluno, principalmente se não é uma matéria cascuda com professor carrasco, porque a maioria tenta se livrar logo das matérias com mais créditos (Marketing tem 6). Cheguei no prédio novo onde temos aulas agora e sentei pra dar uma lida na revisão que o livro dá no final de cada capítulo. Pouquíssima gente na sala, pensei, show, vou fazer logo e ir embora – quando eu me inscrevi na prova ganhei o número 15, mas sempre tem gente que não aparece. Dez minutos antes do horário da prova começa a entrar uma cabeçada fenomenal na sala, mas muita, muita gente mesmo. Caraca! O professor chegou logo depois, olhou pra turma e falou:

- Cazzo, quanta gente.

O lance é que o pessoal de TEP (Tecnica Publicitaria) também faz Marketing, e o professor, não imaginando que ia ter aquela gente toda, não marcou dias diferentes pra COMINT (Comunicazione Internazionale) e TEP, e todo mundo apareceu junto, entupindo a sala. Por sorte ele mandou o pessoal de TEP dar uma voltinha e voltar depois do almoço, e quando começou a fazer a chamada vi que ia ser a quinta ou sexta, em vez da décima-quinta. Beleza. Vão as primeiras meninas, e logo notamos, eu e a garota que tava na minha frente, que conheci na prova de Comunicazione Politica, que o professor assistente fazia doze mil, novecentas e quatorze perguntas, enquanto que o professor titular estava reclinado na cadeira, com as mãos atrás da cabeça, falando mais do que ouvindo. Pensei logo, do jeito que eu sou cagada vou cair com o assistente filho da puta que vai perguntar um monte de siglas idiotas cujo significado não lembro, em vez de me fazer raciocinar. Pensando no quão humilhante seria levar bomba de um professor mais jovem que eu, com gravata de nó gigante e calça de perna justa, ainda por cima, nem acreditei quando a garota que tava com o professor titular levantou, pegou o boletim e se mandou. Me aboletei imediatamente na cadeira, dei bom dia e começou.

- Por que tanto sobrenome?

- Porque blah blah blah.

- De onde você é?

- Brasil.

- Ah, esses nomes compridos… Só brasileiro e espanhol mesmo. Gostou do livro?

- Gostei. Eu não trabalho com marketing e nem pretendo, mas gosto quando alguém me faz ver as coisas de um jeito diferente. Quando eu fiz um curso de roteiro cinematográfico passei a ver os filmes de um outro ponto de vista. Depois desse livro vejo as propagandas de um jeito diferente.

- Eu acho que vou trocar o livro ano que vem… Só tem exemplo de empresas americanas, pros italianos fica meio abstrato.

- Eu gostei. Talvez porque eu ensino inglês e leio muito em inglês também, então tenho uma certa familiaridade com o estilo de vida. Pra mim tudo fez muito sentido.

*Chegando mais perto*
- Ah, ensina inglês, é… Faz traduções também?

- Aham.

- Vem cá… Eu falo inglês direitinho, viajo muito e tal, mas quando escrevo um paper gostaria que alguém desse uma olhada antes de publicar ou mandar… Quanto custa uma revisão, por lauda?

- Normalmente revisão custa por hora e não por lauda.

- Por quê?

- Porque é um porre, e se o texto for mal escrito dá mais trabalho revisar do que traduzir do zero.

- Interessante… Então você é formada em línguas?

- Hm, bem… Não exatamente.

- Em quê então?

*baixinho*
- Em Medicina.

*cruzando os braços e se reclinando ainda mais na cadeira*
- Não entendi nada, explica.

- Olha, é uma história muito complicada, melhor pular.

- Um dia você me conta então.

- Tá.

- Escuta… Fala um pouco do processo de pricing.

- Pô, é chatão…

- Depois eu faço outra pergunta legal.

Falei, mas realmente é uma parte que eu detesto e não soube explicar direito um dos métodos de definição de preço.

- De qual capítulo você gostou mais?

- Marketing internacional.

- Não tava no programa.

- Não sabia, eu não venho às aulas, estudei o livro todo.

- Não tem problema, fala aí.

Falei. Ele ficou me olhando, pegou meu boletim e escreveu ventisei/30, crediti: 6, assinou e me mandou embora.

**

Na sexta fui pra faculdade de manhã. Não tinha conseguido estudar porque o livro era chatéeeeeerrimo, daqueles que falam, falam, falam e não dizem nada. O outro livro do programa era sobre a história da televisão e da mudança dos meios de comunicação até chegar à TV, era interessante. Mas o da outra professora, socorro! Não consegui passar do segundo capítulo. Li, reli, trili e não entendia aonde o cara tava querendo chegar. Então quando botei o pé na faculdade me deu uma crise de cold feet, dei meia-volta e peguei o ônibus pra Ponte San Giovanni, onde estaciono o carro quando vou a Perugia. Ainda deu tempo de almoçar em casa com o Mirco. Fiquei meio pau da vida comigo mesma, porque eram 9 créditos, mas cara, sem anotações da aula já vi que essa matéria não rola. Vai ficar pro próximo semestre.

**

Hoje recomeçam as aulas. Segunda só tem uma hora, espanhol, que eu obviamente não vou assistir porque não tem sentido me deslocar até Perugia pra uma hora de aula de língua estrangeira com mil pessoas na sala. Hoje vou porque antes tenho que passar em uma escola de línguas que me contatou pra um curso pra polícia em janeiro, e depois tenho consulta com o médico da companhia de seguros, pro lance da batida que levei no dia do casamento. Amanhã tem um monte de aula e vou ficar o dia inteiro na faculdade.

Ainda não descobri se a faculdade é wireless, e duvido que seja, mas de qualquer maneira já me deram trabalho pra semana inteira hoje de manhã e posso perfeitamente trabalhar na biblioteca com o laptop entre uma aula e outra. Também já arrumei uma aluna particular três vezes por semana, mulher de um ex-aluno que eu adorava. E tem mais aluno na fila, todo mundo esperando meu horário na faculdade se definir (porque aula chata eu não assisto, lógico). Devagarzinho a graninha vai entrando, cês vão ver.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Eu amo esse site.

oi, tchau

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Estou sumida porque tenho prova na faculdade. Fiz Comunicazione Politica semana passada (23/30, quem deu a prova foi a assistente bonitona, que só perguntou nomes e datas – realmente o sistema educacional italiano dá medo), e semana que vem tem Marketing e depois Teorie e Tecniche di Comunicazione di Massa, ambos com muita matéria pra estudar. E eu enrolo MUITO pra estudar, vocês sabem, então perco um tempão arrumando a casa, botando documentos em ordem, resolvendo coisas pro Mirco na rua, limpando a casa, fazendo ginástica, limpando a garagem, mandando currículo, batendo papo com futuros colaboradores de trabalho no MSN pra ver se sai alguma coisa rentável, me irritando com a agência que demorou pra mandar o contra-cheque. Tudo desculpa pra não estudar. Mas veja bem, não estou lendo nada nem vendo nada (além do último episódio de House da temporada passada) pra não perder tempo fazendo coisas idiotas. Perco tempo de estudo, mas pelo menos fazendo coisas úteis.

Mas o que eu queria dizer era outra coisa: essa noite tive insônia e vi Tropa de Elite, que um amigo *cof cof* me mandou em DVD completamente legal *cof cof*. Que filme é esseeeeeeeeeeeeee! Que roteiro é esseeeeeeeeeeeee! Desse jeito vou acabar comprando o DVD de verdade.

Outra coisa: não tem nada mais gostoso do que ouvir a língua da gente, da cidade da gente, falando coisas que a gente entende. “Cê tá sabendo que a gente vai fazer Fucô, né”, diz a garota da PUC. : ))))))))))))))))))))))))))))))