Padova Saimos cedo (ateh porque

Padova

Saimos cedo (ateh porque o cafe da manha termina oito e meia). O dia tava lindo, mas um frio danado. Descobrimos uma feira aqui perto do albergue meio mercadao de Madureira, vende tudo, de brinquedos do Paraguai a roupas, artesanato, lava-roupas, aquecedores a lenha. Compramos algumas coisinhas e depois fomos andando ateh a Basilica de Santo Antonio.

A Basilica

Eu me sinto sempre absolutamente desconfortavel em igrejas quanto tem alguma coisa acontecendo (um culto, uma missa, uma liturgia etc). Nao soh nao sei como me comportar, como me sinto meio alienigena. Nao tenho essa necessidade de acreditar numa coisa ou forca maior, nao me sinto tocada espiritualmente, nao consigo separar o proposito bom da igreja catolica da historia sanguinolenta do passado nem das ideias retrogradas do presente, nao consigo deixar de pensar na hipocrisia da coisa toda. Dois exemplos do que eu chamo de palhacada: as velas eletricas (lampadas imitando velas) que acendem com moedas, e as tais ofertas que sao na verdade compulsorias: voce pega um santinho, e se nao der nada o cara vai atras de voce pedindo a tal ‘oferta’. Me poupe, neh.

Hoje, em particular, que tinha zilhoes de freirinhas simpaticas na igreja, tavam cantando uns negocios bonitos lah, e tinha alguem tocando um orgao extremamente apocaliptico, eu meio que entendi a sensacao ambigua de conforto e medo que as pessoas devem sentir em relacao a religiao. A Basilica de S. Antonio eh uma das mais bonitas que jah vimos ateh hoje, realmente belissima, embora nem de longe a mais opulenta onde jah entramos. As cupulas sao altissimas, os arcos atras do altar principais sao goticos, decorados ricamente, lindissimos. A Valeria entrou chorando, rezou e se emocionou muito, e eu me senti meio deslocada. A impressao que eu tenho, a cada vez que passamos pela nave de uma igreja pra ver o altar e todo mundo se benze menos eu, eh a de que as pessoas me olham com uma cara assim de ‘coitada, nao sabe o que estah perdendo’. Eh bastante desconfortavel. Eu gosto de entrar em igreja, desde que nao esteja rolando nada; choro se vir alguma coisa realmente bonita, mas as vezes imagino como deve ser ter um outro tipo de reacao que nao a puramente estetica, como a minha. Pra mim, entrar em S. Pedro em Roma foi uma das coisas mais bonitas que jah me aconteceu, mas foi soh isso – lindo. Pra quem eh do ramo, deve ser uma experiencia infinitamente mais significativa. Mas, apesar de tudo, toda essa minha experiencia nas igrejas da Italia soh serviu pra fortalecer minha crenca em crenca alguma.

Almocamos (bem) num restaurante onde soh tinha velho. Duzias de velhos serelepes mandando ver nos frutos do mar. Comida otima, os melhores precos que jah pagamos desde que aportamos na Italia. Depois ficamos rodando com calma, vendo a lerdeza da cidade, dando voltas, passeando, fazendo nada, depois compramos frios no supermercado, um queijo que soh existe na loja onde nos compramos (ha ha ha voce nao come-eeeeeeu), e voltamos cedo pro albergue. Ainda fechamos o dia com o tal queijo (que dah cocegas na gengiva), VinSanto, Valeria com creme no cabelo endurecido, e por aih vai. A chave de ouro foi o Lindt meio amargo. Soh lamento por voce que esta aih no conforto do seu lar, sem ter que desarrumar e arrumar mala a cada 36 horas, mas sem um VinSanto e uns cantucci pra te alegrar.

Beijos de santo antonio pra todos
leticia