Na minha turma tem um

Na minha turma tem um indiano que fede mais que galinheiro sujo. Sem brincadeira, eu e Silvio quase morremos intoxicados hoje ao entrar no elevador do qual ele, sozinho, tinha apenas saido. Fora que ele é de uma religiao estranha que nao corta o cabelo; o cabelo dele vai até a cintura, e estah sempre coberto, ou com um turbante ou com um lenço e por cima um boné vermelho (ele fica com a maior cara de sem-terra). Coitado, ele é super simpatico, e fala bem italiano, mas com aquele futum nao dah pra chegar num raio de cinco metros. Dah vontade de dar uma de Michael Jackson e andar com mascara no nariz.

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Tem uma senhora polonesa absolutamente biruta na minha turma, nao sei se jah comentei. Louca, louca de pedra. Outro dia chegou ao cumulo de dizer ao professor de Literatura Contemporanea que ele estava errado, que seu modo de ensinar nao era escolastico, e que preferia o professor anterior, e que nao sabia por que tinham mudado de professor. Hoje tem aula dele de novo, estou doida pra ver o que ela vai aprontar. Quase todo dia tem showzinho. Aguardo ansiosamente.

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Dudu… Eu jah vi Star-Waa-aaaars, lalalala-laaaaa… (Mas nao o Aranha. O Aranha aqui soh em junho. O paizinho atrasado esse aqui. Fora que Homem-Aranha em italiano é Uomo-Ragno, pronunciado ranho – essa palavra mesmo, sinonimo de catarro. Eh dose…)

Acabei Lessico Famigliare, comecei Gli

Acabei Lessico Famigliare, comecei Gli Indifferenti, de Alberto Moravia.

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Ontem fui a Spello, cidadezinha aqui perto, com a Ria, a filipina. Nao tem muito pra ver, mas é um lugarzinho lindo, muito charmoso. Fora que o dia tava lindo. Almoçamos bem, e viemos a Assis, que ela ainda nao conhecia, e podia ver sem ter que pagar outra passagem. Explico: de Spello a Perugia, onde ela mora, se passa necessariamente por Assis. Antes de entrar no trem precisa convalidar o bilhete, tem umas maquininhas amarelinhas que carimbam o bilhete com o local e a hora da convalida. E o bilhete vale por até seis horas da convalida. Ora, de Spello a Assis sao menos de dez minutos, entao tinhamos quase seis horas pra ver Assis, e depois ela podia voltar a Perugia com o mesmo bilhete. Bom, né?

Enfim, esse fim de semana teve a reuniao nacional dos Bersaglieri, que sao uma divisao do exército cuja funçao principal é correr, embora NINGUéM saiba me explicar por qual motivo. Usam um chapéu preto com penas de faisao, acho, muitas penas, furta-cor. E a reuniao esse ano foi aqui em Assis. A cidade tava cheia deles (além dos usuais japoneses e alemaes), e toma de musica de banda militar, e toma de gente desfilando com aquele chapéu ridiculo e botas e todo um uniforme pesadissimo pra quem tem que correr, e toma de esposa de Bersagliere com lencinho cor-de-rosa com o nome da cidade de origem. Que mundo estranho.

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Hoje fiz a massa do almoço. Quer dizer, Arianna começou a fazer, misturando os ovos e a farinha, e depois eu continuei, passei na maquininha e tudo. Eh legal, e nao é tao dificil. Mas pra ter uma idéia de quanto é comum fazer massa em casa por aqui: a mesa da cozinha vem com uma tabua embutida e um rolo, exatamente com este proposito.

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Semana que vem Mirco vai a um curso na Espanha, e acho que vou aproveitar pra dar uma rodada pela Toscana. Oba!

Na falta de coisa mais

Na falta de coisa mais interessante pra contar:

Terminei aquela porcaria que eu tava lendo e comecei Lessico Famigliare, de Natalia Ginzburg, muito engraçadinho.

Porcheta é com um t soh, e nao dois.

Esse fim de semana acho que vamos a Urbino, matéria da nossa aula de historia da arte de hoje. Eh uma cidadezinha microscopica mas muito bonita, e excelente exemplo de arquitetura do Renascimento.

Pois é, entao, sabado foi

Pois é, entao, sabado foi realmente dia de porchetta. Enquanto o Mirco foi a um enterro, eu fiquei ajudando a pegar mesa e cadeira emprestadas do vizinho, limpar as cadeiras, catar pratinho de plastico, varrer o chao da garagem, e todo o tipo de atividade envolvida em eventos sociais deste tipo. E aih começou a chegar gente, chegar gente, chegar gente, e realmente juntou uma bela cabeçada. Tudo isso foi pra comemorar o aniversario do Ettore, o pai do Mirco, que é hoje. Mas foi super divertido. Metade dos velhos (sim, porque aqui soh tem velho, né. De criança soh tinham tres, das quais dois eram gemeos.) eu conhecia do funeral do avo do Mirco, entao soh a outra metade ficou me olhando como se eu fosse bicho no zoologico. Ser a unica extra-comunitaria da cidade dah nisso ;) Nao que eu me incomode, jah me acostumei, e acho até engraçado. Mas enfim.

Enquanto me explicavam como se faz a tal da porchetta, formulei uma teoria gastronomica revolucionaria: italiano é meio chines, eles comem praticamente de tudo. Desde urtiga até orelha de porco. Pois bem. A porchetta nada mais é do que o porco desossado e enrolado como um tapete, posto pra assar por horas a fio. Fica uma delicia, e se come como recheio de sanduiche (num pao obviamente sem sal. Alias, o conceito de pao aqui na Italia deixa muito a desejar, embora todos os outros tipos de massa sejam espetaculares). Uma delicia! Mas lah pras dez e meia eu nao me aguentava mais em pé de sono (porque tinha acordado cedo pra ir a Perugia malhar, isso é que é vontade!) e estava morta, e fui dormir. Mas escutei a farofada lah embaixo até tarde da noite.

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Aih, ontem à noite, fomos ao cinema mais proximo, na cidade de Bastia aqui do lado (cinema administrado pelo governo, porque o publico é pouco e nenhuma entidade privada seria capaz de pagar o aluguel etc), ver Star Wars Episodio II. Apesar de ser dublado, de ter um som de merda, eu gostei. Eu nao consigo nao gostar, mermo sabendo que nao é lah essas coisas. As roupas da Amidala estao espetaculares! E o Jar-Jar Binks aparece pouco, quase nada. Mas o garoto que faz o Anakin adolescente é meio caixa-eletronico, meio sem expressao. Mas eu gostei do filme sim senhor.

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Sexta-feira (vejam que blog mais cronologicamente descoordenado…) à noite estava eu jantando e batendo papo na cozinha quando me cutuca a mae do Mirco, Arianna: Olha ali aquele brasileiro, coitadinho!

Era o Rubinho, que recebia o troféu Tapir d’Oro (espetacular!) que o programa Striscia la Notizia (algo do tipo ‘destrinchamos a noticia’) de vez em quando dah a alguém que faz um ato realmente idiota. A cara do Rubinho foi bem de anta mermo. Recebeu aquele troféu, que eu jah vi inclusive pra vender aqui em loja de quinquilharia, com aquela sua famosa cara de bunda. Heh! :)

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Na sexta-feira, no trem, terminei o Marcovaldo. Agora estou lendo uma porcaria que a Sabine me deu (ela distribuiu os livros pra galera pra nao ter que levar peso na mala). Chama Heartwood, de James Lee Burke, e se passa no Texas, e é cheio de metaforas idiotas, e um dos personagens é uma india cega de nascença, e o personagem principal se chama Billy Bob, e uma outra se chama Peggy Jean, e a unica desculpa que eu tenho pra estar lendo esta bosta é que livros lidos pela metade me dao nervoso e eu simplesmente TENHO que terminar de ler o que eu comecei.

A minha academia é muito

A minha academia é muito maneira. Eles fazem um programa de malhation pra voce, e fica tudo armazenado no computador, e numa espécie de chave de plastico que fica sempre com voce. Todos os aparelhos tem um lugar pra enfiar a chavinha, e na tela aparece o que voce tem que fazer, quantas repetiçoes, e qual é o proximo exercicio. Tambem conta as repetiçoes, pra voce nao se perder (eu sempre me perco, acabo fazendo demais ou de menos). Eh muito Sao Paulo, né nao?

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Hoje o pai do Mirco resolveu juntar uma cabeçada pra comer a tal da porchetta, que seria tipo um leitao à pururuca soh que nao eh leitao, eh porcao, e nao é bem pururuca. O bicho estah no forno desde ontem, um forno enorme, de jardim (eu nem sabia que existia forno de jardim, mas existe, e funciona a lenha). Segundo a mae do Mirco, devem vir umas 70 pessoas. Medo.

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Enquato isso, hoje fui entregar flores na casa de um amigo do ex-chefe da irma do Mirco. O companheiro desse amigo, jah velho (me desculpem, mas pra mim velho viado é o fim da picada, o homem tinha quase 80 anos e vivia com um companheiro. Eu acho muito engraçado), morreu, obviamente de AIDS, e o enterro é hoje. A unica floricultura aberta em Perugia tem como unica funcionaria/diretora/proprietaria uma senhora que além de ser obviamente maluca estava muito resfriada, e se recusou a ir entregar as flores. Lah fui eu, entregar o raio do bouquet. Eh mole?

Ontem fez calor em Perugia!

Ontem fez calor em Perugia! Calor mermo, eu dentro do onibus, parada no engarrafamento, o sol na minha cara, cozinhando! Me lembrei dos tempos de Andrews, quando pegavamos, eu e Erica, o 157 pra voltar pra casa na hora do almoço. A gente assando, morrendo de fome, suadas, fedidas, e a Sao Clemente toda parada. Mais ou menos isso.

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Também ontem comecei a malhar. A academia é toda high-tech, gostei. O pessoal é simpatico, as aulas sao otimas, o equipamento é novo.

Estou toda doihda, mas feliz.

Um sol em Roma! Fui

Um sol em Roma! Fui encontrar a Erica e o marido, a cujo casamento nao pude estar presente, por motivos geograficos. Um camelo italiano perto do Castel Sant’Angelo nos escuta falando portugues, vira pra mim e solta:
– Cala a boca, Magda!

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Como é bom ser capaz de reconhecer de longe uma cidade, mesmo sem nunca ter passado por ali de trem, ou sem conhecer bem a cidade :) De loonge, looonge, de dentro do trem, vi uma fortaleza lah no alto da colina (sao tantas colinas, e tantos castelos), pensei: Spoleto. Dito e feito. Fiquei feliz. Sou boba, né :)

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Comi queijo sentada na Piazza San Pietro, pegando sol :) Alias, estou com um bronzeado que em terras tupiniquins jamais obtive. Bronzeado de Roma é muito mais chique que de Copacabana, admitamos.

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Conselho: se for a Roma, perca-se! Eh muito bom se perder em Roma!

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Momento radio-relogio: maquiagem em italiano é ‘trucco’. Nao consigo imaginar um sinonimo melhor pra maquiagem do que truque.

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E o momento literario: terminei La Coscienza di Zeno no trem, e comecei Marcovaldo, de Italo Calvino.

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E o momento gostaria de poder estar em dois lugares ao mesmo tempo: perdi uma festa super tradicional em Gubbio, aqui perto de Perugia. Nao sei bem o que é, mas sei que envolve figurinos medievais (*lambe os beiços*) e uma competiçao entre os grupos rivais.

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Momento too much information (mas nao resisti, estou loquaz hoje, é a atmosfera [finalmente] primaveril): comprei uma lamina de barbear, obviamente nao pra me barbear mas pra raspar as pernas, todo futurista e cheio de guéri-guéri, como diz meu pai. Todo ‘menininha’, em vez daqueles prestobarba vagabundos que eu usava ;)

Outro dia abro a revista

Outro dia abro a revista Panorama (a Epoca deles) e leio um artigo de duas paginas sobre… mosquitos, que aparentemente sao uma praga por aqui, e a cada ano a coisa piora. Tudo completinho: nao deixar recipientes que possam juntar agua parada, usar mosquiteiro e repelente, aquela lenga-lenga toda. Tem que rir pra nao chorar.

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Outro dia fui cortar o pao pro jantar e achei meio escuro. Depois fiquei sabendo que era feito com farinha de trigo moido em moinho a agua. Barbaro!

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TODOS os programas de televisao aqui tem garotas pouco vestidas e rebolantes. TODOS. De programa de receita a quiz show. Deprimente.

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O horoscopo que aparece sempre na televisao eh de rolar de rir. Pra quem acha que o horoscopo do Globo é ambiguo, lah vai a previsao de Aries de ontem:
Nao falar de trabalho em reunioes de amigos. As opinioes poderao ser contrastantes.

Ontem terminei ‘Teodora’, um livro

Ontem terminei ‘Teodora’, um livro sobre a Imperatriz de Bizancio, mulher do imperador Giustiniano. Antes li ‘La Vita Quotidiana nel Medioevo’, um livro escrito por um frances fodao que dah aula de Historia Medieval em Paris (coitado). Livro muito muito muito interessante; eu sempre quis saber o que vestiam, o que comiam, o que faziam etc as pessoas na Idade Média. Um livro muito esclarecedor, uma aula de Historia muito leve e agradavel. Ontem comecei ‘La Coscienza di Zeno’, de Italo Svevo, obrigatorio pra disciplina de Literatura Italiana Contemporanea, e que logo de cara nao me agradou muito. Comecei também ‘Storia Medievale’, de Massimo Montanari.

Isso obviamente nao interessa a ninguem a nao ser a mim merma. Gosto de listas, principalmente de listas de coisas de ler.