Aih eu entro no banco

Aih eu entro no banco depois do almoço e vejo todos os velhinhos da fila se entreolhando, sacudindo a cabeça e rindo. Olho pro unico caixa aberto (se chama Claudio, e é um mal-humorado cronico mas muito engraçado) e vejo a seguinte figura debruçada sobre o balcao: alta, cabelos de raiz escura e ponta amarelo-blondor trançados e em maria-chiquinhas, top com a barriga de fora (hoje tah frio pra cacete), calça jeans justa e super saint-tropez quase caindo pernas abaixo porque a criatura tinha menos bunda do que eu, meias pretas e TAMANCOS DOURADOS DE TIRAS E SALTAO. O top era super decotado, e de dentro dele pululavam dois peitos que, notava-se, nao tinham sido sempre assim, digamos, enormes. E entao a criatura começa a falar. E entao percebe-se que nao era umA criaturA, mas um criaturO. Um super hiper mega traveco, de voz grossa, traços masculinos no rosto, pezao estilo lancha, maozonas, pomo de Adao, e peitos. Fumava, e falava MUITO alto (alias, coisa que me irrita deveras). Se despediu com um “Ciao, Claudio, ti saluto!” gritado em um vozerao de William Boner, e saiu. Saiu tao intespestivamente que os oculos de sol estilo abelhao cairam e ficaram pra tras. O velhinho de 90 anos que tava parado na fila em frente à porta saiu do banco pra devolver os oculos. Quando voltou, TODO mundo na fila dando risada, perguntando se o velho tinha gostado “dela”. Esses italianos sao otimos, tudo é motivo pra conversar e dar risada :)

O melhor foi a primeira velha da fila, toda inocente, que foi perguntar ao Claudio se a figura era homem ou mulher. Resposta do Claudio:
– Se chama Roberto.
A velha quase infartou. Virou pro pessoal da fila e falou:
– Mas era homem!
O pessoal rachando de rir, e ela indignada:
– Mas como é que voces sabiam? Eu nao reconheço essas coisas nao! Esse mundo de hoje…

Moral da historia: o suspiro de alivio que eu dei ao saber que o Roberto nao é brasileiro, mas ali de Bettona mermo, foi tao profundo que deve ter baixado as reservas de oxigenio do banco. Mais uma compatriota assim estranha eu nao ia aguentar nao.

Arezzo é linda, mas Siena

Arezzo é linda, mas Siena é mais ainda. Siena é um desbunde. A Piazza del Campo é um desbunde. O Duomo listradinho é um super desbunde. Mamae adorou, Legolas idem. E nem nos perdemos na estrada pra voltar, hohoho.

Hoje nao fizemos nada. Nao estah no plural por acaso: realmente nao fiz nada, o escritorio hoje tava num mormaço danado, e nao soh porque morreu a avoh da Antonietta, a “garota do almoxarifado”. A coisa tava lenta mermo. Minha mae é que se divertiu: foi a pé de casa até o centro de Bastia (45 minutos andando com pé se recuperando de fratura), fez mil amizades, pagaram cafezinho pra ela, emprestaram o celular, ela me ligou pra dizer que me esperava em frente à barraquinha de porchetta di Costano (Costano é a cidade oficial da porchetta), quando cheguei ela tava parada sozinha na praça rodeada de sacolas por todos os lados. Me dei bem nessa historia toda: ganhei uma panelona de T-Fal com cabo! Aqui na Italia eles sao meio portugueses, como jah devo ter comentado antes, e as panelas quase todas tem cabo curto, que inevitavelmente queima a tua mao se voce esquecer o pegador de panela (aquele de matelasse que a sua avoh provavelmente sabe fazer). Eles também sao avessos a tudo que é tecnologicamente revolucionario, tipo microondas, T-Fal, etc. Tem (circunflexo) medo. Eu juro que jah ouvir neguinho aqui dizer que nao usa microondas porque ainda nao se sabe se faz mal à saude. Na boa, eu nao to nem aih se o microondas faz mal, se o T-Fal da panela faz mal, se o tomate transgenico faz mal. Dentro de certos limites, se uma coisa torna a minha vida mais pratica, eu to topando. Até porque viver mais mas pior nao me parece tao agradavel – nem muito inteligente.

Mesmo sabendo que tenho poucos

Mesmo sabendo que tenho poucos leitores, de vez em quando vou dar uma olhada nas estatisticas. Eh sempre de rolar de rir. Entraram aqui pessoas procurando:

– a importancia da quimica na cenoura
– pessoas feias nas barcas
– peixe cientifico dentao
– slogan de batata frita
– foda portuguese

Fiquei curiosa com a cenoura. Qual serah a importancia da quimica na cenoura, hein…?

Hoje rolou Arezzo. E nos

Hoje rolou Arezzo. E nos perdemos na estrada. Perdemos uma hora e meia tentando chegar na superstrada. Desistimos e viemos pela estrada lerda mermo. Essas placas estradais italianas, vou te contar…

E amanha nao sei. To cansada e tenho coisas pra traduzir. Depois de amanha talvez vamos a Siena, mamae tah doida pra ver Siena. Eu jah vi, duas vezes, e recomendo. Com certeza a piazza mais linda da Italia… :)

p.s.: Marcinha, a revista chegou, sexta-feira. Ainda nao tive tempo de ler, mas mamae adorou todas as duas.

On a lighter note, mamae

On a lighter note, mamae hoje fez uma carne assada show. Tudo bem que era vitela – nao me levem a mal, mas eu nao aguento mais vitela, aquela carne paaaalida, aneeeemica, sem gooosto – mas a bichinha ficou boa mermo.

Aih de tarde, depois da ronda dos bancos (jah comentei aqui que virei office-boy da oficina do Mirco?), fomos a Bevagna, città d’arte aqui perto de Foligno. Microscopica, mas bonitinha, e tao tranquila! Aih voce ve aqueles velhos de boina sentados em frente ao bar, discutindo a morte da bezerra, e entende como eles fazem pra viver eternamente. Porque os italianos sao imortais, sabe, todos matusaléns. Até eu, se tivesse nascido e vivido em Bevagna a vida toda, viveria pra sempre, naquela calma, naquela tranquilidade, naquele… tédio. Voce entende também por que nao tem jovem na cidade. Nao tem bissolutamente nada pra fazer. Mas é um charme, um charme total e absoluto. E nao vimos nenhuma loja vendendo souvenirs explorando Sao Francisco! Nada de pratos horrorosos de ceramica de Deruta! No maximo uns cartoes-postais, que eu nao comprei e me arrependi. Como minhas fotos ficam sempre feias, compro cartao-postal de tudo que é lugar aonde eu vou. Dessa vez dei mole.

Amanha ainda nao sei aonde vamos. To muito tentada em ir a Montefalco, ver se eu descolo um Sagrantino assim com um descontinho basico…

Mirco liga de Cuba. Tah

Mirco liga de Cuba. Tah achando tudo uma merda, horroroso, velho, feio. Tah pau da vida porque foi comprar pao e nao venderam pra ele porque ele nao tinha o tal do ticket. Tah de saco cheio do calor infernal. E pensar que ele saiu daqui todo empolgado, como todo europeu que nao tem nada melhor pra fazer e vai passear na américa latrina – Cuba, musica latina, calorzinho, praias, bundas… Aquela velha historia da grama do vizinho ser mais verde do que a sua, sabe comé?

Tem lugares pra onde eu soh iria se me pagassem muito bem pra isso, e Cuba é um deles. Eu quero mais é muita Roma, muita Europa, muita Australia e Nova Zelandia, muito conforto, ar condicionado, agua geladinha, transportes que funcionam, paises com historias interessantes, museus lindos, arquitetura deslumbrante, gente mais ou menos bonitinha (nao necessariamente tudo isso junto. Lembremos que o paraiso nao existe – e, cah pra nos, se existisse seria MUITO chato). E, muito importante, nada, NADA de Espanhol. Nada que me remeta a coisas tipo Maria do Bairro. Nada de esses pronunciados com a linguinha de fora.

Na boa, eu jah venho dizendo isso hah séculos mas fiquei quieta quando o Mirco me comunicou que tava indo pra Cuba: se eu quisesse morrer de calor e ver gente pobre e feia rebolando ao som de musica chata e comendo feijao, ficava dando voltas nos suburbios do Rio em pleno Carnaval. Vou sair do conforto do meu lar pra fazer “escrotour”, como diz o meu pai? Eu, hein.

Tem vezes que a sua grama é mais verde do que a do vizinho, sim senhora. Deixa esses italianos dez dias sem pao pra ver se eles nao voltam concordando comigo.

Aproveitando o ensejo (porque tudo

Aproveitando o ensejo (porque tudo é motivo pra fazer um vuduzinho contra Paulo Coelho), descrevo o meu desespero ao ler o email de uma amiga hoje de manha.

Aquela amiga japonesa, a das meias e dos biscoitos nao identificados. Pessoa maravilhosa, divertidissima, miraculosamente boa em italiano, engraçada, comilona. Hanae me manda um email perguntando se eu jah ouvi falar de Paulo Coelho. Estremeci, mas continuei lendo. Ela diz que tem todos os livros dele traduzidos em japones! O cara foi contaminar o mercado literario lah no Japao! Putz grila. Eu preferia a volta da peste bubonica.

Eu sonho com o dia

Eu sonho com o dia em que as pessoas vao entender que o espaço vai depois da virgula ou do ponto. Nao antes. E TEM que ter espaço depois da virgula e do ponto. Tao simples, e tao transformador…

Maria-fumaça O Legolas sempre foi

Maria-fumaça

O Legolas sempre foi maria gasolina, mas nao achei que esse interesse dele por paisagens que passam se estendesse aos trens. Achava que ele ia ficar com medo do barulho, se recusar a subir, sei lah. Que nada! Sexta-feira de manha fomos a Perugia de trem, e ele nao soh achou interessantérrimo como também se estendeu no chao e dormiu rapidinho. Visto que a coisa tava indo bem, ontem ousamos mais e fomos a Roma. Deixamos o carro na estaçao de Bastia, pegamos o trem pra Foligno – ele sentado no chao, com a cabeça apoiada no cinzeiro da janela, observando a paisagem – e dali pegamos a conexao pra Roma Termini.

Entao esse foi o resumo do dia do meu cachorro ontem, chegando em Roma:
– Almoço de raçao tabajara italiana num OTIMO restaurante atras da Fontana de Trevi.
– Xixi numa lata de lixo da Piazza della Rotonda, em frente ao Pantheon.
– Arrepios de pelo das costas quando viu os hominhos vestidos de gladiadores que passeiam por toda a cidade cobrando pra tirar foto com os turistas.
– Xixi num poste de luz em frente ao Foro Romano.
– Coco (devidamente coletado e jogado no lixo) num dos gramados laterais do monumento a Vittorio Emanuele II.
– Agua bebida da fonte da Piazza di Spagna.
– Corridas e muitos xixis na Villa Borghese.
– Mais xixis ao longo da Via Veneto.
– Lambidas no resto de sorvete que ficou no copinho da sorveteria mais gostosa de Roma (e provavelmente a mais cara também, e com sua devida brasileira bunduda atendendo, obviamente casada com italiano).
– Descanso deitado no chao da Piazza del Quirinale enquanto eu pedia informaçoes.
– Soninho merecido no chao do trem, no longo percurso Roma – Terontola e depois Terontola – Bastia.
– Latidos e choros enquanto estava preso na garagem com “i ragazzi” (os outros cachorros da mae do Mirco) e nos jantavamos ganso e coelho assados, batatas arrosto com semente de erva-doce, vinho branco, torta al testo, prosciutto crudo, salame feito em casa, e de sobremesa docinhos comprados na Pasticceria D’Angelo de Roma, crostata de damasco, de chocolate, e de geléia de marmelo e uva-morango.

Eu voltei de Roma com uma bolsa fake da Prada MA-RA-VI-LHO-SA, mamae voltou com uma fake da Louis Vouitton que acho que ela jah se arrependeu de ter comprado, e o Legolas voltou com varias novas amizades humanas e caninas no curriculo (ele fez um sucesso indescritivel. Modéstia à parte, meu cachorro é um espetaculo.), mas sem unhas. Caminhamos tanto que as unhas dele gastaram. Juro.

***

Hoje ainda nao tivemos saco de fazer nada. Passeamos a pé aqui em volta, todos os 1.578,98 cachorros da zona latiram quando o Legolas passou, aspirei a casa (provavelmente acordando o vizinho de baixo. Foda-se, ele fuma, e voces sabem que eu nao respeito gente que fuma), e fiz o almoço: macarrao tipo conchinha com ervilha, presunto em cubinhos, funghi porcini e Philadelphia pra dar liga (creme de leite engorda muito). Mamae temperou a carne que vai assar amanha pro almoço e o peito de frango que vai rolar no jantar. Os dois estao dormindo ali na sala, e eu também jah to indo. Mais tarde vamos ao Lago Trasimeno. O dia tah lindo e é um desperdicio ficar em casa, até porque nao tah frio (ou seja, soh uma malha de lah jah resolve, nada de casacao e cachecol, chega de ser mulher-cebola, cheia de camadas de roupas!), mas estamos cansados. Nohs tres.