Domingo de muito sol em

Domingo de muito sol em Roma com a Carmen. Precisavamos de um pouco de Roma, todas as duas. Pegamos o trem das 7:32 em S. Maria e lah fomos nos. Um calor do cao, eu toda coberta de filtro solar 60+. Rodamos, andamos, a Carmen (que é burra, porque fuma) quase morrendo de falta de folego – e olha que ela tem 21 aninhos… Almoçamos (mal) num restaurante de garçons feiissimos mas gentilissimos, depois meu amigo romano Guido nos encontrou no centro em frente ao Pantheon, e depois de mais umas voltinhas fomos tomar sorvete na Gelateria della Palma, que tem 238.986,45 sabores diferentes de sorvete. Descobri um de maracujah tao bom, mas TAO BOM que comi soh ele, sem chocolate nem nada! (quem me conhece sabe que TODO sorvete que eu tomo tem que ter alguma coisa chocolatica) E juro, quase chorei porque tava realmente muito bom, feito mesmo com a polpa da fruta e nao com suco pronto ou polpa congelada com gosto de nada. A balconista ficou rindo da minha cara de pateta, tomando sorvete de olhos fechados, aaaaaaaaaaah maracujaaaaaaaaaah…

Ou seja, a viagem foi inutil, soh gastamos dinheiro e sola do sapato, mas fofocamos muito. Também me irritei muito, porque como todo italiano a sua resistencia a mudanças é uma coisa impressionante, e ouvi dela coisas como:
– Sei que tenho que parar de fumar e comer melhor pro cabelo parar de cair, mas nao quero.
– Sei que nao deveria usar base no rosto no verao porque piora as espinhas, mas nao consigo.
– Sei que deveria usar oculos de sol pra proteger os olhos, mas nao gosto.
– Acho Spello linda mas nao Assis (sao parecidissimas as duas cidades, a unica diferença é que Assis tem aquela desgraçada daquela basilica gigantesca, e Spello nao).

Aiquiodio! Consigo conversar muito tempo com uma criatura dessas? 73 graus Celsius em Roma, 235% de umidade relativa do ar, e a menina com o rosto coberto de base no melhor estilo reboco, e lapis preto, claro que todo borrado, em volta dos olhos! Nao é de matar?

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Ah, estou lendo The Bourne Ultimatum, o terceiro da série que começa com The Bourne Identity (que alias nao tenho e nao li). Uma merda. Se meus Penguin Classics nao chegarem logo do Brasil eu vou ter repetidos infartos literarios. Alias, sinto falta também dos meus amadissimos Asterix, e queria tanto aquele ultimo livro do Laerte, aquele com o personagem Deus! Alias, queria também o meu Cortiço, livro que eu amo e jah li trezentas vezes. Alias… Alias, jah decidi que vou ser muito rica e trabalhar pouco e morar numa casa com ralos em todos os banheiros e na cozinha, com aquecimento e ar-condicionado power, com horta e pomar, com duzentos mil cachorros (eu disse cachorros, e nao microcaes, hein), com uma biblioteca multilingue enoooooooooorrrrrrrrrrrrrme, com uma piscininha basica aquecida no inverno e fresquinha no verao, com uma vista maravilhosa pra Assis, e com home theater e todas as coisas boas tecnologicas. Soh.

Uma amiga me escreveu dizendo

Uma amiga me escreveu dizendo que admira a minha coragem e o meu “me viro”, e que ela nao iria alèm de Sao Paulo, e mesmo assim com emprego garantido. Eu respondi que pra nos, mulheres espertas descoladas interessantes e fortes, nao tem tempo quente. Acho que, como quase tudo na vida, o dificil é o primeiro passo. Depois as coisas vao acontecendo mais ou menos naturalmente, e no final voce nem percebe mais que o que voce tah enfrentando é mais do que a maioria das pessoas jah teve que encarar. Volta e meia alguém me diz “poxa, que coragem voce teve” e eu levo um susto, paro pra pensar e chego à conclusao de que porra, é coragem mermo, tem que ser muito macho pra sair de casa, de um pais de merda mas tao generoso quanto o Brasil, que afinal de contas é sempre a nossa casa, e começar tudo de novo. Enfrentar preconceitos, mudar habitos, encarar medos, aprender coisas, faz tudo parte do processo, mas acho que ninguém que mora no exterior ficou filosofando ou se preparando muito pra essas coisas antes de sair do Brasil. Voce toma a decisao de ir embora (ou entao vai embora querendo voltar mas acaba ficando, como eu), e quando voce ve a tua vida jah tomou outro rumo muito esquisito e anteriormente imaginavel. Eu às vezes penso que se tivesse sido menos afobada e tivesse planejado melhor a minha vinda à Italia, muitas coisas chatissimas que aconteceram nao teriam rolado, muitas desconfianças teriam sido evitadas, e tudo seria mais facil. Mas quer saber a verdade? Se eu tivesse ficado esperando e planejando, nao teria vindo NUNCA.

Comé que dizia o Bilbo Baggins? Que a estrada que passa na porta da sua casa pode te levar a qualquer lugar. Sair de casa é perigoso, voce nao sabe onde vai terminar.

E quer saber mais ainda? Acho OTIMO. Quem nao sai da toca nao sabe o que tah perdendo, e o mais triste é que jamais vai saber.

O pai da dona da

O pai da dona da minha casa tem assim uns 698 anos de idade, e estah morrendo. Anda pela casa de cueca quando nao estah deitado na cama embaixo do ventilador. De vez em quando dah um urro, creio que de dor, embora dor do que eu nao saiba dizer. E é uma mala. Tem mania de luzes apagadas, janelas e portas fechadas. Eu NUNCA deixo a luz acesa quando saio de algum lugar, mas toda vez que eu to cozinhando ele entra na cozinha, apaga as luzes e desliga a TV. Soh depois que eu grito “To aqui!” ele pede desculpas e diz que pensava que nao tinha ninguém. O patrulha!

Seu banheiro, ao lado do meu quarto, fede horrivelmente. Rolam altos bafafas na casa nesses ultimos dias, toda hora tem gente visitando o velhinho, a filha dele toda hora tentando faze-lo sair pra dar umas voltinhas na varanda, rolam altas discussoes, um saco. Como eu jah ouvi de varias pessoas que ele sempre foi um homem muito ruim, e um desastre de pai, nem pena mais eu tenho. Mas é impossivel olhar pra um velho assim no fim da vida e pensar que daqui a pouco seremos nos.

Dando início ao minidicionário gastronômico,

Dando início ao minidicionário gastronômico, vamos aos temperinhos:

aceto (pronuncia atcheto) = vinagre Me dá ânsia de vômito.
aglio = alho
alloro = louro Pouco usado. Eu amo.
anice (pronúncia anitche, sílaba tônica a) = anis ODEIO e não sei como se usa.
basilico = manjericão Dá um super tchan no molho de tomate!
cannella = canela. Pouco usada, considerada exótica.
carota = cenoura
cipolla (pronúncia tchipolla) = cebola
coriandolo (silaba tonica an) = coentro
dragoncello (pronúncia dragontchello) = estragão (brigada, Marcia :)
erba cipollina (pronúncia tchipollina) = cebolinha
garofano (sílaba tônica ro) = cravo
maggiorana = manjerona Na carne na grelha… nham nham…
menta = hortelã
noce moscata (pronúncia notche moscata) = noz-moscada. Indispensável pra um bom molho bechamel.
olio = azeite de oliva. Não é amarelo e fedorento como o azeite português ou espanhol ao qual estamos habituados no Brasil, mas azeite verde, delicioso. Num pãozinho tostado esfregado com alho, aiaiaiai, as bruschettas
origano (sílaba tônica ri) = orégano
pepe nero = pimenta-do-reino Aqui na Umbria eles dizem que faz mal, na Toscana eles adoram. Eu amo.
peperoncino = pimenta vermelha Eles usam em tudo. Spaghetti all’aglio e olio con un pizzico di peperoncino…
peperone = o maldito odioso horripilante pimentão
prezzemolo (sílaba tônica no segundo e) = salsinha Praticamente não usam.
rosmarino = alecrim Amo amo amo amo… focaccia al rosmarino, AAAAAAAAAAAAH
sale = sal
salvia = sálvia (doh!) Raviolli de carne ou ricota e espinafre saltados com manteiga e sálvia… AAAAAAAAHHHH
sedano (sílaba tônica se) = aipo Eles comem muito na salada. Eu gosto do sabor que ele deixa, mas do bicho propriamente dito eu não chego nem perto. Uma pena, porque é um dos poucos alimentos com calorias negativas. Dá tanto trabalho pra digerir que você perde mais calorias na digestão do que as calorias que ele tem.
semi di finocchio = sementes de erva-doce (endro). ODEIO. Eles usam muito nas batatas no forno, aquelas cuja receita eu já dei aqui e são o sonho da vida, quando feitas com alecrim em vez dessa merda de erva-doce.
timo = tomilho
zafferano = açafrão. Zafferano é o nome de uma cidade siciliana aos pés do Etna onde obviamente há muitas plantações de açafrão. Normalmente conhecemos aquela porcaria tabajara em pó que neguinho vende no meio da feira, que deve ser misturado a outras coisas porque o verdadeiro açafrão é caro pra dedéu, mas o autêntico é ainda em plantinha; são como fiapos cor de vinho que soltam aquela cor amarelada no risoto alla milanese, ou naquele risoto divino que a gente come naquele restaurante bom daqui, com açafrão, salmão e camarão.
zenzero (sílaba tônica zen) = gengibre

O que a cenoura e o aipo estão fazendo na lista de temperinhos, você me pergunta. E eu respondo: a base do brodo vegetale, usado pra fazer risoto, sopinha no inverno e otras cositas mas, é feita com cebola, aipo e cenoura cozidos na água e sal, até virar caldo de legumes. Gostoso e saudável.

Extra! Extra! Cabelicidio no interior

Extra! Extra! Cabelicidio no interior da Italia!

L.D., 26 anos, extra-comunitaria residente em Santa Maria degli Angeli, situada na Umbria, o coraçao verde da Italia, foi vitima ontem de um cabelicidio cometido por uma cabeleireira de cabelos cor-de-rosa, cujo salao estah localizado exatamente em frente à casa da vitima, e se chama Giusy (sic). O ocorrido foi comprovado hoje pela manha, quando a vitima acordou e se olhou no espelho, entrando em estado de choque devido ao estado lamentavel das pontas de suas madeixas, absurdamente ressecadas e espigadas apos o tratamento relax de ontem à tarde. A vitima hoje pela manha tentou reverter o quadro através de aplicaçao abundante de creme para cabelos ruins, mas os resultados nao foram satisfatorios. Ao que parece a causa da tragédia foi a preguiça da vitima, que nao teve disposiçao de ir a Perugia no calor insuportavel dos ultimos dias para ajeitar o pixete com sua cabeleireira de confiança e acabou cedendo aos encantos de um salao de beleza vagabundo na porta de casa.
– E eu que pensava que pior do que tava nao podia ficar… – diz desconsolada a vitima.
A tragédia comprova: fundo do poço tem porao sim.

Bem feito.

Eu nao consigo entender como

Eu nao consigo entender como é possivel, nos dias de hoje, uma pessoa entrar num escritorio, ou na casa de alguém, ou numa loja, e acender um cigarro sem perguntar a ninguém se incomoda ou nao.

Soh muito dedo no olho pra dar jeito nessa gente de merda.

Os italianos são hipocondríacos. E

Os italianos são hipocondríacos. E poucas coisas no mundo são mais chatas que hipocondria. Talvez seja porque eu, por motivos genéticos e psicológicos (ou alguém tem alguma dúvida de que quem não quer ficar doente, não fica?), quase nunca adoeço. O fato é que curtir a doença, como eles fazem aqui, me irrita muuuitooo. Não tem UM dia em que uma das meninas do escritório não me venha com dor de cabeça, nas costas, no dedão do pé, conjuntivite, a maldita “cervical”, enjôo, nervoso. Pombas, a mais velha sou eu, que tenho 26 anos! É possível ter todas essas dores, todos os dias? Quequeísso…

A minha reação quando sinto dor de alguma coisa é: que saco essa dor de cabeça (aliás, coisa que eu quase nunca tenho, só quando fico o dia inteiro de rabo-de-cavalo apertado ou quando durmo mal). A das meninas aqui é: aaaaaaaai que dor de cabeeeeeeeeça infernaaaaaaaaaal não aguento maaaaaaaaaais estou morreeeeeeeeeendo… Eu sabia que os italianos eram dramáticos, mas assim também é demais. E olha que EU sou muito dramática – minha mãe me chama de Yoná Magalhães – mas tudo tem limite, né, gente.

O engraçado é que eu digo que só fica doente de verdade quem pode, não quem quer, e eles não acreditam. Mas é a mais pura verdade: fora as doenças óbvias que te pegam pela sua fraqueza genética, as coisas do dia-a-dia não te atingem se você dorme bem, come bem, gosta do seu trabalho, está bem com a sua família, e NÃO QUISER FICAR DOENTE. Eu ODEIO ficar doente, e quando fico não perco o apetite nem o sono, o que me ajuda a me recuperar mais rápido. A última vez em que fiquei de cama foi em 2001 em Chiavari, quando tive uma amigdalite irritante que me deu uma febrinha chata por alguns dias. Antes disso, só uma amigdalite vai-e-vem muito provavelmente causada por microorganismos hospitalares (eu ainda tava no internato), e antes disso acho que por muitos anos não fiquei doente de verdade. Talvez seja só sorte de ter nascido com uma boa constituição física, mas acho que tem muito da cabeça também. Quem, como eu, acredita que doença é só perda de tempo e encheção de saco, acaba ficando menos suscetível a gripes e coisas do gênero. The mind is a powerful thing.

(Exceção é o Duduzão, que já teve TODAS as doenças e fraturas e acidentes e coisas estranhas do mundo, e não é nada hipocondríaco. Perguntem a ele quantas vezes ele já quebrou os ossinhos da mão, luxou alguma coisa, torceu o joelho e coisas do gênero. E nao botei o link ali à toa; aproveitem as dicas musicais do menino).

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Curiosidade: aqui na Itália o que nós chamamos de prato de sobremesa eles chamam prato de fruta (porque toda refeição termina muito salutarmente com uma fruta). O prato fundo, ou de sopa, eles chamam de prato de massa – porque macarrão e risoto só em prato fundo. Talheres de sobremesa não existem. Colher de café não existe, só usam a de chá. Xicrinha de café existe, mas de chá não – pro café da manhã eles usam xícaras ENORMES, onde pobres biscoitos e croissants recheados de geléia de frutas são afogados no café com leite. Panelas com cabo? Pra quê, se com o cabo curto você pode queimar sua mão toda hora? Teflon? Dá câncer. (eu prefiro morrer de câncer do que passar a vida ariando panela, mas essa é só a minha opinião pessoal). Microondas? Dá câncer. (idem)

A vida aqui muitas vezes segue o slogan daquela velha propaganda do SuperNintendo, que anunciava um jogo super difícil de chegar ao final: pra que facilitar, se dá pra complicar?

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Estou pensando em fazer pequenos ajustes no blog – um mini-glossário gastronômico, uma lista das coisas estranhas que existem aqui e não no Brasil e vice-versa, um microdicionário de palavras esquisitas, etc. Só me faltam o saco, o conhecimento de html e uma linha ADSL. No momento não tenho nenhum dos três…

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Eu e FeRnanda outro dia passando em frente ao salão de beleza em frente à minha casa. Vemos um calhambeque ROSA E LILÁS estacionado em frente. Rimos; nossa, que cor estranha… Olhamos dentro do salão e vemos uma menina de cabelo rosa. FeRnanda: deve ser da garota de cabelo rosa, o carro combinando com o cabelo… Dias depois vejo a menina dirigindo o carro. Era dela mermo.

Hoje vou lá esticar o pixete no salão da garota. Se chama Barbara e é a namorada de um operário do Mirco, e aliás jah foi várias vezes em Cipresso, quando eu ainda morava lá, quando o garoto ia ajeitar o computador ou outra coisa parecida. Como ela também tem cabelo ruim, espero que tenha pena de mim e ajeite o meu cabelo direito…

O menino que reabastece a

O menino que reabastece a maquina de comidinhas/bebidas/café aqui do escritorio é um gato, apesar de todo tatuado. Quando ele vem aqui é um rebuliço soh, eu me divirto. Cada biceps, mamma mia… ;)

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Hoje, mjadra do mes passado pro almoço. Jantar: filé de merluzo com arroz branco e cenoura e milho. (eu sou assim, vivo em funçao de comida, e hoje jah estou planejando todas as possibilidades alimentares da semana que vem)

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Enquanto isso… Tem uma lata de leite condensado, uma caixinha de chocolate em poh e um pacote de biscoitos estilo Maisena me implorando pra fazer palha italiana. Tudo bem que de italiana essa palha nao tem nada, até porque aqui nao tem leite condensado, mas enfim.

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Estacionados em frente ao escritorio hoje, dois carrinhos de mao cheios de batatas. No deposito de caixotes, além das pegadas dos cachorros sobre as caixas, tem um engradado cheio de alho e outro de tomate. Roça… é isso aih.