Na minha turma tem uma

Na minha turma tem uma polonesa maluca (a famosa Polacca Pazza), da qual eu ainda nao falei, nao sei por que (bota um circunflexo no e), jah que ela me irrita muitissimo e suas performances jah viraram atraçao em casa. Se trata de uma senhora de idade, loura, alta, macérrima, de olhos azuis esbugalhados, sem a metade direita dos dentes superiores, que fala sozinha e muda de lugar a cada 5 minutos. Ela também tem o habito de perguntar as coisas e nao dar tempo pro outro responder, e de interromper as pessoas, e de interromper a aula. Alguns exemplos de seus espetaculos:

*Na aula de literatura contemporanea. Durante esses ultimos dois meses vamos analisar um livro (aquele, La Coscienza di Zeno. Por falar nisso, estou lendo Il Piacere (o prazer), de Gabriele D’Annunzio). No meio de uma aula, de uma discussao sobre o papel da psicanalise no livro, tem inicio o seguinte dialogo (ou tentativa de):
(Polacca Pazza): Todo dia nos escutamos as mesmas frases, nao é possivel fazer aula assim, este nao é um método escolastico, estamos aqui (reparar no uso da primeira pessoa do plural, isso vindo de uma pessoa que estah sempre sozinha porque é doida varrida) na Universidade pra Estrangeiros de Perugia pra estudar, estamos pagando, assim nao é possivel.
(Professor, palido mas muito profissional): Senhora, antes de iniciar o programa eu conversei com a turma e todos concordaram que seria interesasnte trabalhar desta maneira. E a analise monografica é um sistema muito escolas…
(Polacca Pazza, que nao tinha calado a boca quando ele começou a falar e aqui começou a levantar a voz): … Eu nao sei por que mudaram de professor, eu preferia muito mais o outro.
[Silencio]
(Professor): Senhora…
(Polacca Pazza): … Nos estamos pagando para aprender literatura italiana, que é muito interessante, isso nao é um consultorio de psicanalise, o senhor esta errado, este nao é um método correto de ensino.

A loucura continuou por 15 minutos. Nao tivemos intervalo, e no final da aula, quando bateu o sinal, ela falou bem alto, ‘Jah bateu o sinal’, levantou e saiu, sempre muito barulhenta.

*Ontem, ainda na aula de literatura contemporanea. Uma aluna tinha feito, a pedido do professor, uma lista com os nomes dos alunos que vao fazer a prova, que é oral e dura 20 minutos. Depois ele pensou melhor e pediu à aluna que refizesse a lista com intervalos de 15 minutos, porque um teste de 20 minutos seria muito longo. A aluna obedeceu. A Maluca arrancou a folha da mao da garota, se sentou (sempre muito barulhenta) e começou:
– Eu gostaria que voces vissem o que foi feito aqui, estao mudando tudo, cada dia mudam uma coisa aui na Universidade pra Estrangeiros de Perugia, isso é uma falta de honestidade, se essa senhorita quer mudar o horario nao pode fazer essas coisas sem avisar às pessoas, isso é falta de sinceridade, eu marquei um horario para as 3 e meia e nao para as 3, isso é um absurdo, etc etc.

Depois:
– Qual é o capitulo ao qual o senhor estah se referindo?
(Professor): O capitulo se chama ‘La storia del mio matrimonio’, senhora.
Depois de 1 minuto:
– Qual é o capitulo?
(Professor): La storia del mio matrimonio, senhora.
Depois de 2 minutos:
– Mas qual é o capitulo? Eu fiz uma pergunta e estou esperando uma resposta, o senhor até agora nao me respondeu.
Nesse momento uma alema, acho, sentada na frente dela grunhiu, entredentes:
– CINCO!
(Pazza): – Agora estamos falando com precisao. Obrigada.

* Hoje, durante a aula de fonetica. No intervalo todo mundo aproveita pra comer alguma coisa, porque estamos desde as 8 em sala de aula. Eu tinha acabado de comer uma maça e tava batendo papo com a Ria. Entra a maluca:
– Voce estah fazendo tudo errado, isso aqui nao é a Mensa Universitaria (o bandejao), nao se pode comer em sala de aula.
(eu): Isso aqui também nao é um hospital psiquiatrico, e no entanto…

Ela obviamente nao me ouviu, porque simplesmente nao processa nada do que escuta.

*Ainda hoje, enquanto eu batia papo com a Ria antes do laboratorio de fonologia. Ela interrompe:
– Voce fala brasileiro?
(eu) Sim. (continuo a conversar com a Ria)
– Voce é médica de que tipo?
(eu) De nenhum tipo, nao me especializei. (continuo a conversar com a Ria)
– Eu perguntei porque voce comentou isso na sala de aula uma vez, e as pessoas pensam que a gente esquece, mas de certas frases a gente se lembra, eu me lembro muito bem, estou soh perguntando, porque escutei voce falando isso na sala, e queria saber, porque eu me lembro das frases que voce falou.
(eu) Senhora, mas se a senhora nao me dah espaço pra responder, por que é que me perguntou? (ao que fui plenamente ignorada, jah que ela continuava falando sem parar).
(Pazza): Muito bem, ci vediamo. (a gente se ve)
(eu): Espero que nao.

Quando eu voltar, peçam pra eu fazer a mimica. Perde metade da graça sem a mimica.