Entre guelfos e guibelinos,
ou
Arezzo nao é soh uma loja de sapatos femininos,
ou
Quem me provar que existe um pais mais bonito do que a Italia ganha um potao de Nutella,
ou
No jardim de casa tem um pé de lavanda
Nao falei que ia dar um giro por aih?
Sabado saih de casa lah pelas 11:30, carregando, além da mochila, uma sacolinha cheia de frutas que a Arianna me fez levar, incluindo cerejas do quintal da vizinha, pessegos e maças. Além da imprescindivel garrafona de agua mineral, é claro.
Peguei o trem que vai a Florença, e no caminho desci em Arezzo, uma das cidades mais antigas da Italia (como Perugia, de origem etrusca. As regioes da Umbria, da Toscana, de Marche e Lazio tem origem etrusca.). Sem saber de nada, fui parar no meio de uma enorme feira de antiguidades, que rola todo primeiro fim de semana do mes. Fui subindo as ladeiras, xeretando, e fui cair na praça principal, obviamente chamada Piazza Grande – isso depois de babar (de longe, porque de perto se paga) nos afrescos de Peiro della Francesca na igreja de S. Francesco, e também na nudez da igreja de Santa Maria della Pieve (séc. XII). Hoje eu sei que essas igrejas ‘peladas’, sem muito enfeite, na verdade eram inicialmente todas afrescadas, mas os afrescos se perderam e elas ficaram nuas. Eu prefiro assim, menos ostentaçao. Bom, na praça principal parei pra comprar cartao-postal (classico) e fiquei batendo papo (também classico) com o carinha da loja, que me explicou que a cidade tava toda colorida e decorada, cheia de bandeiras pra lah e pra cah, porque todo ano, na penultima domenica de junho, rola uma competiçao medieval, tipo uma corrida de cavalos. Me explicou também como chegar ao Duomo, que é o nome genérico dado à igreja principal (catedral) de uma cidade. A igreja é bem bonita, mais por fora do que por dentro. Mas de uma das capelas laterais ouvi alguém cantando e outro alguém tocando violino – era o ensaio pra um casamento! Quando saih, jah tinha um monte de convidados do lado de fora batendo papo, a mulherada toda maquiada embaixo daquele sol (tava quente pra burro). Fui dar uma volta, pra esperar a noiva chegar, num parque delicioso ali do lado, onde tem também uma fortaleza construida pelos Medici. A grama do parque toda florida, um cheiro de flor por tudo que é canto, um monte de meninos jogando futebol, um monte de gente com cachorro, sentado na grama. Fiquei ali entre as flores, pegando sol, comendo as cerejas da vizinha e brincando com um filhotinho de vira-lata que arranhou minha mao toda.
Quando voltei pra igreja, os noivos, Elena e Simone, jah estavam trocando as alianças. Eu doida pra ver o vestido da noiva, e a cerimonia nada de acabar, o padre falava, falavam os convidados, falava um outro padre, uma falaçao, um tal de senta e levanta, de canta, de toca violino… E aquele bando de turista do lado de fora da capela, se divertindo. Acabei tendo que ir embora antes da Elena se virar, e nao consegui ver o vestido, que era o que eu queria ver, afinal de contas.
Ah! Guelfos e guibelinos (o u de guelfos tem trema, o de guibelinos nao) eram as duas facçoes, pro-Papa e pro-Imperador do Sacro Império Romano-Germanico (Federico Barbarossa), respectivamente, lah pro século… esqueci. Como voces devem lembrar, a Italia cagava pro Sacro Império, que o pobre Carlos Magno se deu ao trabalho de (re)construir. O sistema era aquele de cidade-estado, lembram, ou comune, ao ponto de existirem coisas como Republica de Firenze, de Veneza, etc, com moedas diferentes e tal. Mas por que esse papo de Zeca Lourenço? Porque os castelos guelfos eram construidos com a amurada quadradinha (tipo criança quando desenha castelinho), enquanto que os guibelinos eram tipo de bandeirinha de festa junina de cabeça pra baixo (se eu achar uma foto boto no ar). Arezzo era guibelina, rival de Firenze, guelfa. O Palazzo Vecchio em Florença tem a amurada quadradinha. O Palazzo Comunale de Arezzo tem as tais ‘bandeirinhas’. Viu como é bom estudar historia medieval?
No final da tarde peguei o trem pra Florença, e de lah fiz a conexao pra Lucca. Que viagenzinha danada! O trem era o maior cata-jeca, parava em TODAS as estaçoes. Cheguei jah de noite a Lucca, embora ainda estivesse claro. Cara… a cidade é ESPETACULAR, soh perde pra Roma, juro. Primeiro que a muralha que contorna a cidade ainda estah toda intacta, absolutamente intacta. Os muros sao largos, como uma avenida – e a galera faz cooper ali! A gente todo prosa, fazendo cooper em volta da Lagoa Rodrigo de Freitas, e eles ali em cima de um muro medieval! Puta que pariu (desculpem, mas a situaçao pedia um palavrao). A historia de Lucca é a seguinte: foi fundada como cidade romana no século II a.C., se nao me engano. Se ve que é romana pelas ruas todas retinhas e pelo formato do Mercado Central, que foi construido em cima das ruinas de um anfiteatro romano – as portas por onde entravam os gladiadores ainda estao lah. A cidade é toda coloridinha, as casas sao LINDAS, as igrejas sao DIVINAS, as pessoas sao simpaticas, e o fiorentino é um sotaque muito bonito. Uma mulher na loja de cartao postal (que aqui chama ‘cartolina’) dentro de uma das igrejas me disse que a cidade ainda é muito desconhecida em termos turisticos, e que soh começou a receber turistas de uns 4 anos pra cah. Realmente, o albergue da juventude onde eu dormi tem menos de 2 anos de idade, e na cidade quase nao se veem hoteis, nem restaurantes. Enfim, depois de bater papo com um canadense e dar uma maça a uma americana com cara de oligofrenica, fui dormir.
Acordei cedo e fui bater perna – circuito basico, igreja-piazza-gelato etc. AMEI a cidade. Almocei deliciosos tortelli alla lucchese (recheados com carne), tomei vinho (1/4 de litro), as pernas começaram a pesar (e as palpebras também), dormi debaixo de uma arvore, num gramado num dos cantos do muro.
A viagem de volta, pra compensar, foi um perrengue soh. O trem simplesmente morreu, feito um carro velho, numa estaçao pequenininha que nem bar tinha. Uma hora de atraso. Cheguei em casa, troquei a agua dos cachorros, me fiz um macarrao com o frango assado que a Arianna me tinha deixado, tomei banho e cama. Dormi tao bem que acordei tonta, e na mesma posiçao em que fui dormir. Sem os cotovelos assassinos do Mirco, dormi feito uma pedra.
E hoje vimos o jogo Brasil x Turquia num bar chamado Etrusco aqui perto da universidade, e depois fomos pra casa da Iskra, uma bulgara que nao come e vive de vinho e cigarro e chiclete no-sugar, e que mora aqui perto (ela trabalha com aquele nosso professor master of the universe, que também é bulgaro, o Katerinov). O jogo da Italia vimos a metade em um bar italiano, e a outra eu perdi porque estava aqui feito uma besta a esperar a abertura da sala de internet (o carinha que toma conta obviamente fechou a sala durante o jogo, e nao botou aviso nenhum). No momento estou matando aula de Literatura Contemporanea, e depois vou à ginastica.
A vida é bela :)
Beijos
Leti