Como vou trabalhar na loja

Como vou trabalhar na loja à tarde e meu patrao (Fabrizio o Louco, o da loja de Assis, nao o Meio Idiota dos cartuchos, nao se confundam) mora em frente ao meu prédio em Cipresso (e consequentemente me darah uma carona pra casa depois do expediente), fui a pé pra casa da Marta. Uma hora de caminhada. No meio da estrada vejo um carro parado no acostamento. Uma cabeça sai da janela: é um dos marroquinos que trabalham pro Mirco. Conheço todos eles porque jah fui varias vezes à oficina, e esse em particular porque quando eu estudava em Perugia pegava o trem das 8:05 que vinha de Foligno, onde ele morava, entao nos encontravamos sempre na estaçao, ele descendo do trem e eu subindo.

Pois entao. Nao sei como ele se chama, se Larby ou Nakkira, mas o fato é que ele me deu carona até Bastia, e depois me falou uma coisa que me tocou fundo: eu teria parado pra dar carona mesmo que nao fosse voce, porque soh uma estrangeira estaria andando a pé na estrada. Nunca vi um italiano andando a pé na estrada. Mais: me convidou pra um café, que educadamente recusei por nao querer dar certas explicaçoes inevitaveis, e terminou o rapido papo dizendo que, embora agora ele tenha carro e more num lugar decente, nos oito anos em que estah na Italia jamais saiu da sua condiçao de imigrante segregado, e sabe pelo que estou passando, sem carro, sem lambreta, sem nada, dependendo dos outros. Me senti do mesmo jeito, mesmo nao sendo marroquina, nem semi-analfabeta, nem lanterneira, e falando italiano fluentemente. Me senti igual a ele, e foi uma sensaçao HORRIVEL.

Como com a carona cheguei meia hora mais cedo à casa da Martinha, atravessei a rua, sentei num banco gelado do bosque onde, espero, daqui a tres meses o Legolas vai estar brincando, chorei, bebi agua, liguei pra Telecom pra pedir um novo modem, brinquei com a Giuditta (Judith) e a Luna, cachorras do salao de beleza em frente ao prédio da Marta, e quando deram 9 horas fui espera-la em frente de casa, e viemos trabalhar.

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Virginia tem 5 anos e é neta do irmao do pai do Chefe Meio Idiota (o terreno da casa do Chefe Meio Idiota, que também é o nosso escritorio, divide terreno com a casa do irmao do pai do Chefe Meio Idiota. Sim, é complicado). Nao vai à escola, entao fica o tempo todo aqui, aprontando. Essa semana foi A Semana das Laserjet 1100: eu ensaquei 450 cartuchos, a mae do Chefe Meio Idiota dobrava e encaixava as “fustelle”, armaçoes de papelao que protegem os cartuchos dentro das caixas, a irma do Chefe Meio Idiota montava as caixas, Attilio, o segundo chefe, etiquetava as caixas, e a Virginia botava os cartuchos dentro das fustelle, as fustelle dentro das caixas, fechava as caixas e levava pro Attilio, que depois preparava os caixotes – dez cartuchos por caixote. Virginia é espertissima e logo pegou o jeito da coisa, e quando acabavam as fustelle montadas ia chamar a mae do Chefe Meio Idiota, quando o Attilio (que ela chama de Artiglio – artelho) parava pra secar a testa suada (tava um calor do cao) ela o advertia: trabalha, Artiglio! Ainda foi exigir ao Chefe que a pagasse; ele lhe deu uns trocados e ela ficou toda feliz. Hoje de manha quando chego aqui lah tah ela na varanda: Letizia, hoje vou ter que trabalhar uma hora a menos, porque os meus pais vem (circunflexo) me visitar.

Criança sindicalizada é isso aih.

Acho engraçado que muita gente

Acho engraçado que muita gente me anda escrevendo dizendo que a crise vai passar, que hah males que vem pra bem, que deus escreve certo por linhas tortas, que fecha uma porta e abre uma janela. Que eu acho que deus nao tem piçurucas a ver com isso, pelo simples fato de que credo firmemente que ele nao existe at all, todo mundo jah sabe. Mas a idéia de que as coisas ruins aconteçam soh pra eu aprender uma liçao nao me agrada nem um pouco.

Nao acho que as coisas aconteçam por um motivo em particular. Pelo menos nao todas as coisas. Acho realmente que todo mundo tem cotas iguais de alegrias e tristezas na vida, e é nosso dever como seres pensantes (ou quase), dominadores da cadeia alimentar, donos do polegar opositor, aprender com ambos os tipos de experiencia. Alias, nem acho tanto que tenha a ver com pensar ou nao, em certos casos. Vejamos os exemplos dos bichinhos, que normalmente pensam menos que nos (e portanto sao seguramente mais felizes): uma cobra que tenta comer uma perereca verde-fluorescente, passa mal depois, mas quando ve outra perereca da mesma cor nao entende que aquilo dah dor de barriga e tenta come-la de novo tem mais é que morrer envenenada mermo, pra nao passar adiante os genes da burrice. Mas nao significa que a perereca seja venenosa soh pra cobra ficar esperta. Ela ser esperta ou nao é problema dela, a perereca nao tem nada a ver com isso. O fato das cobras burras morrerem envenenadas e permanecerem as espertas que logo sacam a relaçao radioatividade da cor/veneno é pura consequencia, seleçao natural – NATURAL, e nao sobrenatural, espiritual, religiosal, encheçao-de-sacal. Do mesmo modo, acho que coisas ruins acontecem, ponto. Acontecem porque acontecem, porque se tudo fosse legal o tempo todo a vida seria muito chata, e seriamos muito mais burros, porque a gente infelizmente aprende muito melhor com a dor do que com a felicidade, essa coisinha efemera, como uma coceirinha que passa e a gente nem percebe.

Resumindo: nao acho que toda essa merda na minha vida atualmente seja do tipo “um mal que veio pra bem”. Eu classificaria como “um mal que aconteceu porque aconteceu, e se eu nao sou capaz de aprender alguma coisa de bom/util/engraçado/interessante com toda esse grande mar de merda que é a minha vida neste momento, sou realmente MUITO idiota e deveria esterilizar-me pra nao propagar meus cromossomos idiotas pelo mundo”.

Simples assim.

Alias, acabei de aprender uma nova coisa que nao era tao nova assim porque eu jah sabia mas, feito cobra burra, faço questao de esquecer sempre: batata frita faz grandes estragos ao ritmo intestinal de quem se habituou à saudavel dieta mediterranea, desprovida de fritura por imersao.

Agora com licença que a festa lah fora jah acabou, os adolescentes jah pararam de tocar o roquenrou, amanha trabalho no escritorio e na loja do Fabrizio o Louco em Assis, e é quase uma da manha, e to com um soninho da peste.

Ontem me deu ataque de

Ontem me deu ataque de pelanca e saih, às nove e meia da noite, pra passear no bosque. Tava rolando uma festa da primavera ali atras de casa, bandinhas adolescentes se esgoelando no palco, e eu com paciencia zero pra esse tipo de farofada. Entao fui passear, a pé, na direçao de Brufa, um vilarejo no alto da colina, como tantos outros vilarejos italianos.

Passado o burburinho da festa, me distanciando um pouco de Cipresso, a noite da roça me envolveu por inteiro. A noite da roça é solitaria, mas o vento, esse mala sem alça que normalmente detesto e amaldiçoo, ontem me fez companhia, fazendo murmurar folhas e ramos uns contra os outros. A noite na roça é quieta, e é azul e prateada, mesmo ontem, quando a lua nao tinha ido trabalhar. O céu limpo, um restinho de luz laaaah longe (anoitece tao tarde aqui no verao! e nem adianta dizer que o verao nao começou ainda: pra mim, se nao é frio, é verao), a estrada bissolutamente vazia. Os campos de trigo, tao louros de dia, de noite sao azuis, acinzentados. As estradas de pedrinhas brancas das casas de noite ficam prateadas. O jatinho do irrigador que chove sobre os campos de milho faz pfff, pfff, pfff, e molha um pedaço da estrada, me desvio. Nao passa ninguém, e quem passa me ignora, acho otimo. Acabam os postes de luz; à minha frente uma ponte estreita, ladeada de carvalhos, e além da ponte, a estrada pra Brufa, prateada, azul, cinzenta. Ninguém, nada, zero, soh o vento, o pff pff pff, e os grilos.

Me giro, volto atras, passo por um arbusto gigante de alecrim e roubo dois raminhos. Todos os cachorros da rua acordam e latem quando passo; nem me incomodo. Giro à esquerda entre campos de milho, passo por uma casa iluminada, uma senhora estah botando o lixo pra fora e me olha como se eu viesse de outro mundo. Pergunto, soh pra ela ouvir minha voz e perceber que sou humana: onde acaba essa estrada? Ela responde que vai um pouco mais avante e depois é bloqueada. Tudo bem, é soh uma caminhada pra digerir, minto. Ando, ando, aqui é ainda mais isolado, embora as luzes da autoestrada estejam ali bem pertinho. A estrada termina, sombria, numa casa toda apagada. Do lado de fora, uma estranha maquina de contornos indefiniveis à penumbra faz um barulho estranho. Me sinto dentro de Signs, como se um ET de pés grandes estivesse prestes a saltar de tras de um pé de azeitona pra me atacar. Passo por baixo de uma torre de tensao, a bichinha range, faz mais barulhos estranhos.

A noite na roça é linda, mas aih o medo que toda mulher sozinha à noite sente, aquela pulga carioca atras da orelha que nao larga do nosso pé, esses calafrios, esse medo de estranhos, de alguém (mas que alguém, criatura? Em BRUFA?) desconhecido que para pra encher o saco, de sei lah o que, esse medo chato me fez voltar pra casa. Tomei um copinho de vinho e dormi ao som do rock and roll vagabundo lah fora.

Nem falei do tal evento

Nem falei do tal evento em Montefalco no domingo, né… Fomos dar umas rodadas mas como saimos jah tarde soh conseguimos visitar duas cantinas, antes que fechassem. De qualquer maneira o sistema é bem legal: voce paga uma entrada de 5 € na primeira cantina onde voce for, e ganha uma taça vazia e uma bolsinha pra pendura-la no pescoço. Bebe o quanto quiser, às vezes come também, e a tal bolsinha no pescoço com o copinho dentro é o seu ingresso pras outras cantinas, onde voce também pode beber e comer o quanto quiser, sem pagar mais nada. Legal, né? Visitamos duas cantinas que eu nunca tinha ouvido falar (indicaçoes do Fabio, que conhece vinho), bebemos uns tres copinhos de Rosso di Montefalco, e depois fomos pra casa deles continuar o papo. O dia tava lindo, e foi uma tarde bem legal.

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Ontem finalmente consegui ver o bendito apartamento de Bastia, o tal que se libera soh em setembro. Eh bonitinho! Privacidade zero porque é no térreo, a janela da frente abre pra rua e a dos fundos abre pro jardim da proprietaria do prédio que mora no ultimo andar, mas o apartamento é novinho, tem uma geladeira decente (voces nao sabem o quanto é frequente aqui aquela geladeirinha tipo frigobar), banheiro novinho, moveis razoavelmente bonitinhos…

Meu sonho é uma casa. Uma casa aqui na Italia, porque no Brasil teria que ter um super sistema de segurança e mesmo assim seria assaltada uma vez por mes. Uma casa com um jardim pro meu cachorro, uma horta pras minhas cenouras, alfaces e cebolas, e, muito importante: ralos na cozinha e no banheiro. Porque esse lance de passar paninho nao tah com nada.

Reduzi um pouco a foto,

Reduzi um pouco a foto, mas ainda nao ficou legal. Agradeço às 1.848,56 pessoas que me mandaram a foto reduzida, mas esqueci de dizer um detalhe: o laptop novinho do lanterneiro morreu, ou melhor, acho que o novo modem deu xabu, e estou sem acesso em casa.

Agora com licença que eu vou ali ensacar uns cartuchos (pedido gigante pra entregar ainda hoje) e jah volto.

Nao consegui reduzir a foto

Nao consegui reduzir a foto ali de baixo, nem com a ajuda da Bia. Sou monga mermo, quem souber corrigir, por favor, me avise.

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O unico fenomeno meteorologico que eu realmente abomino é o vento. O vento descabela pessoas e plantas. Te joga poeira (e, na primavera européia, insetinhos também) nos olhos. Faz barulho. Odeio, odeio, odeio.

Sem esperar autorizaçao: Primeira fila:

Sem esperar autorizaçao:

Primeira fila: Suzana (aniversario 14 de julho, junto com a Patricia), Andrea, minha prima Erica (dentista), Barbara, Roberta (irma da Fernanda), nao lembro, Gustavo (veterinario), nao lembro, Guilherme Lagares.
Segunda fila: Tia Arminda com a Patricia (jornalista), Vivian Gebara, Catalina (chilena), Cecilia Muller, Ana, nao lembro, José Mariano (o gala da turma), Rodrigo Rocha, Alexandre, Bebel Lobo (sim, ela mesma, atriz, filha do Edu Lobo).
Terceira fila: Christiane, Erika Santos (tem filhos), Clarissa Leal, Carla Sampaio, Rafaela, Joana (economista, acho), eu (a criança mais horrenda e barriguda do mundo – reparem nos pneus precoces), Mariana Bassoul (jornalista nao praticante), Laura.
Quarta fila: nao lembro, Rinaldo, nao lembro, nao lembro, Renata.

Agradeçam à tia Arminda :))))

E eu que pensava que

E eu que pensava que o inferno astral tava passando… Quanta inocencia. Esqueço que quando Murphy cisma com alguém, nao tem galinha preta na encruzilhada que tire esse encosto.

Fui à minha futura casa falar com os donos, pra apresentar meu cachorro pra eles. A dona da casa disse que jah tinha falado com o marido, mas ele nao queria cachorro porque senao pegava afeiçao e depois ia ficar triste quando ele fosse embora. Pra piorar as coisas, a garota que estah no quarto que vai ser meu nao sabe quando termina a universidade – provavelmente lah pra metade de junho – e o quarto onde eu ficaria do começo de junho até a partida da universitaria jah estah ocupado. Mas tudo bem.

Voltando pra casa aos prantos, cruzo com os pais do lanterneiro, que estavam indo almoçar na casa da mae da Arianna. Paramos no meio da rua pra conversar, eles me acalmando, o Legolas pode ficar com eles até o apartamento de Bastia liberar (se bem que eu jah to achando que vai acabar acontecendo alguma coisa, tipo um cometa cair em cima do prédio, uma colméia gigante de vespas assassinas se alojar atras da geladeira do apartamento, ou alguma coisa do genero). Mas porra, eu quero me libertar e nao consigo! NAO CONSIGO! Eu, que contava em me mudar no proximo fim de semana, vou ter que passar pelo menos duas semanas a mais usando a bicicleta DELE pra ir trabalhar, o computador DELE pra me conectar, a televisao DELE pra me ajudar a dormir. Por que tenho que ficar sempre ligada ao Mirco, como se ele fosse um polipo pediculado no meu intestino, um polipo ligado às minhas entranhas por um pedunculo que, vascularizado demais, nao consigo cortar?

Soh nao pego minhas malas, meu cachorro, meus livrinhos e minha Nutella e volto pro Rio porque agora é questao de honra me dar bem por aqui. Vou ficar aturando a vida no escritorio aqui, pegar experiencia, trair meu chefe e me mandar pra bem longe – provavelmente Roma. Temos contatos com gente em Roma e Milao, e como nao é incomum empresas roubarem funcionarios umas das outras (nos mesmos temos um representente comercial roubado de um concorrente nosso), vou ficar é torcendo pra alguém querer me roubar. “Disponibile per trasferimento” vai ser meu lema.

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Pela primeira vez na vida fiz uma coisa devagar: voltei pra casa sem ter coragem de passar na casa da Arianna pra visitar o Leguinho, pedalando à velocidade de um aposentado, me esvaindo de chorar. Quando vi, jah estava em casa, atendendo ao telefonema do Mirco: nao se preocupe, nao tem problema, pra que essa pressa em se mudar? COMO, POR QUE ESSA PRESSA EM ME MUDAR? Maldito polipo de uma figa!

No momento é inevitavel odiar tudo, e todos.

Ou a FeRnanda e o Fabio me levam hoje pra visitar cantinas famosas aqui da zona (hoje é dia de turismo do vinho, dica da Criss – nada de link, nao estou no clima), ou vou sozinha ao cinema ver Matrix Reloaded que todo mundo jah viu menos eu.

E a faxina programada pra hoje que vah pra ponte que partiu.

E nao é que hoje

E nao é que hoje o hominho da Telecom veio substituir o modem?

Pena que a falta de assunto continue… Pra descansar da correria de ontem no escritorio, hoje passei a manha catando e esmagando carrapatos do Pedro, o Sao Bernardo da casa dos tios do Chefe Meio Idiota, que fica em frente à casa/escritorio onde trabalho. Precisava da internet pra trabalhar no site da empresa, mas o Attilio, o segundo-chefe e nada idiota, estava trabalhando online. O que me restou a fazer? Catar carrapatos.

Oh vida, oh céus.

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Hoje tem jantar de aniversario do pai do lanterneiro. Eu vou, tenho que ir, nao tem jeito. E amanha vou apresentar o Legolas ao dono da casa onde vou morar, em Santa Maria. Cruzem os dedinhos; preciso de um amor à primeira vista senao nao me deixam ficar na casa com ele.