;)

Now constipation was quite a different matter. It would be dreadful for the whole world to know about troubles of that nature. She felt terribly sorry for people who suffered from constipation, and she knew that there were many who did. There were probably enough of them to form a political party – with a chance of government perhaps – but what would such a party do if it was in power? Nothing, she imagined. It would try to pass legislation, but would fail.

The No. 1 Ladies’ Detective Agency, Alexander McCall Smith

fofocas

. Ontem à noite, chegando do trabalho, Mirco encontrou a velhinha aqui de frente, a mãe da Foca Monaca, lembram? Nossa vizinha gorda, fofoqueira, que dorme com os velhinhos da vizinhança pra ganhar uns trocados porque o marido não lhe dá dinheiro nenhum. Pois a velhinha tava lá do outro lado da praça, e ela é velha pra cacete e não conseguia voltar sozinha. Mirco se ofereceu pra trazê-la pra casa e a velha começou a resmungar: aquela prostituta da minha nora me deixou ali no meio da rua, aquela vaca, ela quer me convencer de que vai buscar água [não me perguntem onde, não sei], mas eu sei bem onde ela foi e o que anda fazendo!

Caramba.

. Suely Maria mudou de carro. Deu tchau ao Escort conversível branco com a Arbre Magique tigrada pendurada no espelho, e agora tem uma Smart com um gato de pelúcia no painel. Smart é carro de cocota, vocês sabem. Em cidades onde estacionar é um problema eu até posso entender, embora o preço seja salgado demais pra pouco espaço, mas aqui na roça, na Umbria despopulada, não faz o menorrrrrrrrr sentido, e só tem mesmo quem gosta de se exibir e anda de óculos-vespa e todas aquelas coisas que a Simone descreveu brilhantemente aqui.

. O companheiro de Suely Maria sumiu, não vejo há uma semana, maravilha. Joguei tanto rato morto nele que é capaz dele ter caído num buraco qualquer em conexão direta com o mármore do inferno, ele, seu cigarro, seu Porsche ridículo, seus óculos escuros e todo o conjunto da obra. Já vai tarde.

. Suely Maria trabalha num bar. FeRnanda uma vez entrou num bar, que ela nem lembra qual era, pra comprar sei lá o quê, e a ouviu falando em português no celular, ou com uma amiga, não sei direito. FeRnanda, desprovida do instinto anti-suelymaria com o qual aparentemente nasci, tentou puxar conversa, perguntando, em italiano, usando até a forma de cortesia, vejam só: Lei è brasiliana? Como resposta ouviu um Sì grunhido, uma carranca e um olhar esnobe. Hohohoho.

. Um amigo da Roberta, irmã do Gianni, mora no prédio gêmeo do nosso. Uma vez, conversando, Roberta disse que tem uma amiga brasileira (eu) morando no prédio ao lado. O cara fez uma cara de nojo e ela se apressou em dizer “não é essa que você tá pensando, é outra!!!” e ele fez ah, bom. Vejam, meus amigos, que não sou eu que sou biased. Vulgaridade é reconhecível a quilômetros por qualquer pessoa normal.

. Mudando de assunto, a Bota deu mais uma vez um show de atraso mental e egocentrismo dos botenses no plebiscito do último fim de semana sobre as ridículas leis atuais de fecundação artificial (riproduzione medicamente assistita, diz-se aqui). Só um quarto do povo apareceu pra votar, e com isso tudo ficou na mesma, e a Itália continua com as leis mais atrasadas do mundo sobre o assunto. O Vaticano achou o máximo. Atualmente os embriões não implantados são jogados foraaaaaaaaaaa porque a lei proíbe pesquisas de células-tronco nesses embriões. Então vão todos pro lixo, e as poucas instituições de pesquisa do ramo têm que importar embriões de outros países. O Papa fala de proteger a vida e coisa e tal, que o embrião é vivo e humano desde o momento da fecundação e blah blah blah. Mas então eu é que devo ter entendido mal: entre o direito de ser jogado no ralo e o direito de ser usado pra estudos que podem salvar e melhorar a vida de zilhões de pessoas, a igreja prefere o direito de ser jogado no ralo? Então tá.

. Demos mole, não compramos logo as passagens em oferta com a Aerolineas e perdemos a promoção. Dançou a Argentina, e vai ser Escandinávia mesmo em agosto, então. Estou tristíssima, olhem só minhas rugas. :)))))))))))))))

. Hunka, se você não vier esse ano eu te encho de porrada.

Tuco e Carol, idem.

. Beijos e saudações flamenguistas à Carol do Werther e à sua tia Dita, que pelo que ouvir dizer é gente boa pacas :)

de línguas

Hoje foi um dia pesado. Saí de casa cedo e toquei pra Perugia, onde fiz a prova do CELI – o certificado de língua italiana mais ou menos equivalente aos de Cambridge pro inglês, por exemplo. Não sei por que cargas d’água não fiz assim que terminei o curso na Stranieri em 2002, até porque os exames são organizados por eles, mas enfim.

Sei que passei, mas o teste foi chato pra cacete. Cada texto chato, cada múltipla escolha safada. Pra variar, acabei rápido a primeira parte e fui catar alguma coisa pra comer, já prevendo que não voltaria pra casa antes das nove e meia da noite – minha última aula começa às sete e meia, em Perugia mesmo, e não valia a pena voltar pra casa, nem pelo tempo e nem pela gasolina. A prova foi num hotel de nome ridículo (Etruscan ChocoHotel. CHOCOHOTEL. Quequeísso, gente. E La Spo’ ainda me pergunta se a culpa do clima maluco é do homem na lua. O clima maluco é culpa de gente que funda um hotel e lhe dá o nome de ChocoHotel. Não há Eurochocolate no mundo que justifique. Estamos falando de um nome do nível de Suely Maria, vejam bem.), bem perto de onde mora o Aluno Endocrinologista. Bom, porque amanhã de manhã volto pra prova oral, e às onze vou dali direto dar aula.

A segunda parte da prova foi a mais fácil. Tudo gramática, aquelas coisinhas bobas de completar um texto com as palavras corretas, de achar erros bestas nas frases (tipo “al ponte di” em vez de “al punto di”), de completar com os verbos no tempo correto. Fiz em 7 minutos, contados no relógio. O tempo da prova era de uma hora e quarenta e cinco minutos. Na boa, não é pra esnobar, mas puta que pariu, estamos falando do último nível de italiano; se uma criatura leva mais que meia hora pra botar uma dúzia de verbos no passado, ela está no nível errado. Não lembro direito das provas do Proficiency, mas lembro perfeitamente que era gramática das mais cascudas, sentence transformation, uns negócios barra pesada. A gramática dessa prova me surpreendeu. Nem um condicional! Nem um subjuntivo esquisito! Nem um passato remoto, minha única dificuldade com o italiano! Nada. Tudo facílimo. Levei mais dois minutos pra preencher os quadradinhos da ficha de respostas e fui lá pra fora continuar lendo The Bookseller of Kabul – delicioso, by the way.

A última parte de hoje foi o listening, também chatérrimo. A compreensão do que diziam os fulanos não era difícil, muito pelo contrário, até fácil demais, já que eles claramente se esforçavam pra falar devagaaaaaaaaar e tão pausadamente que parecia que estavam falando com retardados. Só que as perguntas eram terríveis, mal-feitas. Gosto mais daqueles listenings cheios de números e horários que te confundem, e você tem que se concentrar de verdade pra ouvir o que a mulherzinha fala com o barulho da estação de trem no fundo, sabe, coisas assim.

A mulherada – porque é só mulher que estuda línguas, impressionante – estava toda nervosíssima, principalmente o pessoal que faz o mestrado da Stranieri sobre didática da língua italiana pra estrangeiros. Se não passam no teste, não ganham o certificado do mestrado. Pra facilitar as coisas, quem queria podia escolher fazer o teste no nível 3. Não sei pra vocês, mas pra mim parece a história do inglês não mais obrigatório pro Rio Branco. Se você vai dar aula de italiano e está inclusive freqüentando um mestrado sobre o assunto, acho mais que razoável que você fale a língua PELO MENOS muito bem. Quem não vai além do nível 3 não fala nem razoavelmente bem, fala assim assim. E eu não gostaria de ter aulas de uma língua com alguém que a fala assim assim. Mas o mundo é estranho e poucas coisas me surpreendem.

Depois da chatice dos testes fui pra Ponte San Giovanni matar um par de horas até as seis, hora marcada pra minha aula de francês com o Valerio. Estacionei na sombra, no estacionamento da Coop, àquela hora vazio, escancarei as portas do carro, respirei o cheiro resinoso de pinheiro que acho que vinha da cerca-viva da casa limitante com o estacionamento, e ataquei o Bookseller of Kabul. E depois fiz minha aulinha de francês, fui cumprimentada pela minha pronúncia, voltei a Perugia, dei minha aula capenga de inglês porque tinha esquecido o livro e as fitas, e agora estou aqui em casa escrevendo pra vocês em vez de tomar banho e ir dormir, porque eu é que não tenho mais saco de dirigir até a casa do Gianni e da Chiara pra discutir uma viagem à Argentina que eu não estou nem um pouco disposta a repetir.

Boa noite.

uia

O dia tava bem gostosinho hoje. Sol forte compensado por nuvens passageiras, empurradas por uma brisa fresca. Depois de uma boa arrumada na garagem, que tava o samba do crioulo doido, fomos cedo pra Arianna e ficamos horas brincando com a bicharada. As filhotas da Priscilla já tão saindo da casinha delas e tocando o maior rebu no jardim, subindo em árvores, provocando os gansos através da grade, brincando com penas de peru que acham caídas pelos cantos. Quando der vontade subo as fotos. Subi pra ajudar a botar a mesa enquanto o Mirco ficou lá embaixo vigiando a lasagna no forno a lenha.

Comecei a bater papo com a avó do Mirco, a Lucia (lutchía), em família carinhosamente chamada de Laspo’ (de La Sposa, A Esposa, como a chamava o falecido marido). Ela é uma bonequinha, miúda e calada, foférrima, e sempre preocupada em depilar o buço antes de fazer suas poucas aparições em público. Pois então: falávamos de amenidades, de como o tempo anda estranho, de como não se entende mais nada de coisa nenhuma, se vai chover, se não vai, se o calor vai durar, se a neve vai cair em junho no Abruzzo, enfim, essas coisas. Ela perguntou, meio ressabiada, se eu não achava que a lua tinha alguma coisa a ver com esse clima doido. Hmmmmmmm como assim? Ela perguntou se eu acreditava que o homem tinha mesmo pisado na lua, e se isso tinha alguma coisa a ver com o clima. Achei tão bonitinha a pergunta, parecia coisa de criança mesmo! Expliquei com o máximo da simplicidade o efeito estufa, e ela fez oooooh. Não é uma coisinha fofa? :)

***

Ontem à tarde aconteceu uma coisa bizarra. Finalmente terminei a tradução que estava sugando meu sangue há tempos (não porque não tenha sido legal, é que faltou tempo pra me dedicar comme il faut), tomei banho, fui lá fora ligar a máquina de lavar roupa, e quando voltei pra dentro estava espirrando sem parar. A narina esquerda coçava terrivelmente. Impossível ser alergia, pensei. Me recuso a virar alérgica. Não tenho paciência pra ser alérgica. Minha pele é sensível demais, se eu tiver que viver assoando o nariz em lenço de papel meu nariz vai cair de tanto atrito com o papel. Não posso virar alérgica porque alergia é uma das coisas mais chatas do mundo.

Mas mesmo depois do jantar de peixe com Mirco e Stefania a narina esquerda continuava coçando. E hoje acordou coçando de novo. No final da tarde me irritei; depois de ver Meet the Fokkers (que filme chato, benza deus!), tomei um Fenergan que tenho vergonha de dizer de onde veio, e nos mandamos pra festa da cereja em Capodacqua, uma frazione de Assis. O tempo foi passando e comecei a sentir os efeitos do Fenergan, que até hoje eu só tinha tomado pra dormir quando tinha insônia (sim, tenho meus momentos McGyver-improvisativos). Fui ficando boba, boba. Não entendia nada. As pessoas falavam comigo e eu levava horas pra entender. Não consegui nem curtir as lindas casas da zona, o belo galpão de madeira, a delícia dos ravioli com nozes e formaggio di fossa (don’t ask). A cabeça pesava e tudo parecia tãaaaao longe, tão sem importância, tão esquisito. Acabamos vindo embora mais cedo, porque eu já tava quase rindo sozinha de tão boba. Eu, hein.

Ótimo post da Simone sobre Paris e as italianas bizarras, aqui.

E uma receita da Mary que eu nem ousei dar copy-paste e salvar mas que deve ser o ó, aqui.

E a sempre esperta Carola falando de adaptação, aqui.

E a pergunta que não quer calar, feita pela Fernanda, aqui.

E um pouco de MarinaW, claro.

Pra finalizar, uma pitada de Overheard, que voltei a ler depois de muitos, mas muitos anos de esquecimento de que ele existia. Adoro.

:)))))

Por motivos puramente ilustrativos, vamos fingir que os três volumes do Gibbon, que eu queria ler há aaaaaaaaanos, desde que li How the Irish Saved Civilization pela primeira vez, se materializaram do nada aqui na minha estante. Vamos fingir que The Bookseller of Kabul veio parar aqui por vontade própria. Assim como The Godfather. Vamos fingir que segunda-feira eu não gastei nenhum euro na minha livraria preferida – fui lá só pra dar uma bizoiada rotineira na seção de livros em língua original.

A seção de livros em língua original é uma espécie de ilhota, uma pequena estante não mais alta que meus olhos, alojada em um tipo de beco sem saída que abriga nas prateleiras de suas três paredes dicionários e livros didáticos para aprender outras línguas. Essa ilhota também tem três lados – o quarto virou uma espécie de balcão, onde ficam expostas as últimas novidades no setor de aprendizado lingüístico. Dois lados da ilhota são ocupados por livros em inglês; o outro é um mix de francês, espanhol e alemão. Há algumas poucas obras em russo, e é triste notar que Paulo Coelho faz parte de todas essas seções.

Eu estava ali olhando os Stephen Kings e os Douglas Adams, alguns Penguin Classics que pretendo comprar no Rio a 5 reau (ainda custa isso? Non credo), uma prateleira inteira muito chata sobre o Da Vinci Code, e outras coisinhas. Minha bolsa estava no chão, minha agendinha Moleskine estava aberta na página onde anoto os nomes dos livros que me atraem mas que não tenho dinheiro pra comprar agora mas um dia quem sabe. Ouço vozes, e noto que não estou sozinha. Freqüento a livraria há muito tempo, mas nunca tinha encontrado ninguém na ilha da língua original. Sei que alguém mais além de mim compra livros em língua original, porque noto que à distância de semanas muitos (tá bom, alguns) desaparecem, mas nunca tinha visto com meus próprios olhos nenhum outro companheiro leitor de língua original. Era um casalzinho jovem, os dois muito bonitinhos, roupas despojadas – nada de lápis de contorno labial sem batom, cabelo entupido de cera, saltos destruidores de vértebras, óculos de sol gigantes. SENTARAM NO CHÃO – sentaram no chão, olha que intimidade com o bookselling environment, sentaram no chão e ficaram discutindo livros em voz baixa. A menina queria levar o Silmarillion (quase enfartei), o menino um Chuck Palahniuk (quase morri). Puxavam outros livros da estante, um Harry Potter, um Hobbit, um Lovecraft, e acabei não me contendo.

– Palahniuk é muito bom, caramba. Mas o Silmarillion é um livro que não acaba nunca.

Os olhos do menino se acendem.
– Você leu Fight Club?

– Tenho em casa, mas queria esperar passar mais tempo desde que vi o filme pela última vez, pra não ler o livro imaginando o Brad Pitt.

– O filme é bem diferentinho do livro, pode ler sem medo.

– Beleza, vou ler mesmo! [estou lendo, mas não tenho tempo de entrar no ritmo]

A menina pergunta se o Silmarillion é mesmo chato.
– Não é que é chato, é difícil, pesado, mesmo traduzido.

– O LoTR eu li, mas o Silmarillion eu nunca terminei nem em italiano, que dirá em inglês – responde o garoto.

– O LoTR eu já li umas treze vezes e não me canso nunca.

– Eu não passei das cinco vezes – ele ri.

Puxo dois livros da minha prateleira.
– Olha, esse aqui é muito gostosinho [é The Curious Incident of the Dog in the Night-Time]. E esse aqui é interessante, não tanto pelo hermafroditismo [aqui a emoção de estar conversando com gente que actually reads enrolou a minha língua e saiu algo tipo hermafodritismo] do personagem principal, mas a história da família grega é bem interessante [estava falando de Middlesex]. É o mesmo autor de Virgin Suicides, que infelizmente nunca vi aqui.

A garota descartou The Silmarillion. Leram as contracapas juntos, o garoto distribuiu os livros na mão como se estivesse jogando pôquer, e eu fui embora sorrindo antes de ver o que ela escolheu.

Eles agradeceram, mas em vez de se despedir com ciao disseram arrivederLa. Caraca, tô ficando velha mesmo.

**

Vamos combinar que Bruce Chatwin foi uma das maiores decepções literárias da minha vida. In Patagonia é UM PORRE. Nunca vi livro sobre viagem que descreve praticamente só pessoas, e só conta história idiota. Pode até ser que tudo aquilo tenha um sentido, mas se tem, é só pro autor mesmo. Parei no meio, vejam só de que nível de chatice estamos falando. Me agarrei no Fight Club, que não tenho tempo de ler enquanto não terminar a tradução que tenho que entregar até amanhã.

**

Quarta-feira dei a primeira aula de português pro Valerio. Ontem ele deveria ter me dado a primeira de francês, mas houve um contratempo e não rolou. Fiquei irritadinha. Vamos compensar na segunda, ele disse. Hmpf.

macacos me mordam

Está praticamente decidida a próxima viagem do ano. Adivinhem.

Eu sugeri São Petesburgo – Tallinn – Helsinki, mas é caro. Sugeri Budapeste – Bucareste – Vienna, mas não querem. E vamos acabar indo pra Argentina outra vez. Agora vai ser Península Valdez, e eu vou dar um pulo no Rio. Gianni e Chiara acho que também vão, se conseguirem interromper a comilança deslumbrada de carne em terras hermanas.

matrimonio

Hoje fui ao meu primeiro casamento em terras botais. Todo mundo já tinha me avisado há séculos que era melhor mesmo que eu nunca tivesse ido a nenhum porque é uma coisa muito chata, e principalmente cara, já que os presentes das listas custam todos os olhos da cara e é considerado feio dar algo de menos de € 150. Nesse de hoje tivemos sorte, porque o Mirco pintou a cama antiga de ferro do casal, e esse trabalho foi o nosso presente de casamento – na verdade o trabalho vale muito mais que € 300, mas tudo bem.

A coisa toda é muito diferente por aqui. Pra começar, normalmente a cerimônia é de dia, seguida não de uma festa, mas de um almoço. Muitas vezes, além da igreja e do almoço (normalmente em um restaurante), há também o chamado rinfresco, que costuma ser na casa da noiva, à noite. São comes e bebes estilo festa americana, uma coisa mais light. Às vezes rola também uma apresentação da casa onde os recém-casados irão morar: parentes e amigos íntimos fazem uma espécie de tour da casa antes da cerimônia. Hoje o pessoal anda mudando de costume e oferecendo jantares aos amigos em casa, depois do casamento.

Os noivos de hoje eram Peppe e Stefania. Peppe é amigo de infância do Mirco. O pai era finanziere (trabalhava na Guardia di Finanza), ganhava muito bem, conhecia todo mundo, era influente na cidade, e comprou muitas propriedades ali na zona. Morreu quando Peppe ainda era jovem, mas deixou um hotel na avenida principal da cidade, que hoje é administrado em conjunto pelo Peppe, a irmã mais velha, Teresa, e a mãe, Cleofe (don’t ask). A irmã do meio (Peppe é temporão) é casada com o Moreno, dono do restaurante que fica ao lado da loja do Fabrizio, o Louco – cansei de ir lá buscar o almoço do Fabrizio e também cansei de recusar propostas de trabalho do Moreno, porque garçonete realmente não dá. O hotel ficou bonito depois da reestruturação de 95, é um 3 estrelas todo novinho, com restaurante em dois andares e um jardinzinho na frente. Peppe vai morar com a esposa num edifício pequeno que pertence à família e fica logo atrás do hotel.

Stefania é de Costa di Trex, um pedaço de Assis que fica no alto da colina, inacessível em dias de chuva ou de neve (ontem mesmo a estrada principal estava fechada por causa de deslizamentos de terra e tivemos que passar por uma estradinha de terra batida cheia de pedregulhos, estreita e perigosa, pra ir ao rinfresco). O pai trabalhou como motorista de ônibus por muitos anos. A mãe não sei o que faz, mas Stefania é filha única e sempre estudou ballet, o que hoje se reflete nas veionas saltadas dos braços musculosos. Formada em Engenharia, hoje trabalha na faculdade onde estudou. A família tem dinheiro; os montanari (a gente da montanha) por aqui têm fama de espertos, no bom sentido; de gente que sabe ganhar dinheiro e trabalha duro.

Tanto Peppe quanto Stefania, que namoram há duzentos anos, são muito envolvidos com a igreja. Mas muito mesmo, do tipo não posso jantar fora esse fim de semana porque estamos em retiro espiritual lá não sei onde com a paróquia de Santa Maria. Ressalto que por aqui ser amigo dos frades é muito conveniente, principalmente pra quem trabalha com hotelaria. A maior parte dos hotéis é deles, que mandam clientes a outros hotéis amigos, como o do Peppe, quando os deles ficam lotados. Hoje o Peppe é diretor da Caritas local, e nem vou me pronunciar quanto a esse assunto porque gosto muito dele, mas acho que vocês já entenderam mais ou menos.

Bom. O casamento foi no altare maggiore da Basílica de Santa Maria degli Angeli. Ninguém nunca tinha se casado ali. Não é permitido; a igreja é importante demais pra se dar ao luxo de aceitar esses caprichos, e só quem freqüenta o altar principal são os funerais. Em um grande exemplo de humildade e voto de pobreza, o casamento foi realizado no altar onde nunca ninguém se casara antes, na igreja mais importante da cidade, quinto maior templo católico do mundo. Vozes já correm na cidade há algumas semanas, gente revoltada, gente reclamando, gente gesticulando. A justificativa oficial da paróquia local é que foi introduzido um rito novo, e o casamento do Peppe foi uma espécie de teste, pra ver que bicho que dá. Então tá.

Enfim. Quando chegamos a noiva já tinha entrado. A igreja estava cheia, inclusive de turistas, que vinham visitar a Porziuncola (a basílica foi construída por fora da Porziuncola, pra protegê-la), davam de cara com aquela noiva microscópica no altar, e paravam pra ver. Ficamos em pé o tempo todo, coisa terrível pra quem está de salto alto.

A missa foi LONGUÍSSIMA. Nunca vi tantos frades juntos na mesma cerimônia, mas gente influente é assim mesmo, sabe, junta multidões. Muitos paramentos que eu nunca tinha visto, mas eu não entendo dessas coisas, então pode ser que tudo fosse muito normal em meio a sacerdotes de ordem franciscana. Um coral de vozes clericais e laicas cantava entre uma liturgia e outra. Hoje a igreja conta com várias caixas de som espalhadas pelos quatro cantos, mas sei que o edifício foi construído levando em conta certas capacidades acústicas cujo efeito sobrenatural é fácil de constatar. Quando o padre fala, sua voz ribomba, como acredito que os crentes imaginem que seja a voz de deus. Quando o coral canta, me vem em mente que se eu acreditasse em anjos, seria assim que eu pensaria que eles cantam. Adoro música de igreja. É hipnotizante, atemorizante, mas realmente te transporta pra outra dimensão. Só faço questão de ignorar as palavras, pra não me irritar, mas o som é realmente divino, única palavra que na minha opinião descreve o que ouvimos.

Já jurei a mim mesma não falar mais de igreja aqui, mas não resisto.

O padre falou, falou, falou. E falou mais um pouco. Leu o que os noivos escreveram um pro outro – Stefania 6 páginas, Peppe 1, o que fez todo mundo da platéia rir. Peppe é o típico gordinho bonachão, que não se irrita nem se preocupa com nada, não é dado a discursos nem firulas, conhece todo mundo e nunca brigou com ninguém. Na escola ele era assim mesmo, dizem: enquanto a Stefania se esforçava pra escrever redações e trabalhos magníficos, ele se contentava com meia dúzia de linhas e já tava muito bom. O padre continuava falando, intercalando seus discursos com o belíssimo coral ou com o canto a cappella de uma freira muito jovem, vestida de cinza. Falou da onda de divórcios, esquecendo de mencionar que na época em que a bíblia foi escrita neguinho vivia até 40 anos, se tivesse sorte, e é muito fácil aturar alguém até que a morte os separe quando dura-se tão pouco. Também esqueceu de mencionar o fato de que basta pagar quantias escandalosas à Sacra Ruota no Vaticano pra ter seu casamento anulado, não importa o quão ridícula seja a situação, só pra ter o privilégio de casar novamente na igreja – só aqui no vale os casos são numerosos demais pra contar; todas as famílias “bem” têm gente divorciada e re-casada na igreja. Falou da onda de relacionamentos homossexuais, como se fosse coisa nova na espécie humana e inexistente entre os celibatários frades e padres. Falou de tudo isso só pra depois dizer que não, eles são pecadores tradicionais, de valores tradicionais, e preferem continuar acreditando que essas coisas não se fazem, é feio se divorciar, é feio acabar o amor, é feio casar de novo (a não ser que você pague à Sacra Ruota, claro, mas isso ele não mencionou), é feio ser viado ou sapatão, é feio ter dinheiro, é feio esbanjar (mas da anormalidade do casamento no Altare Maggiore também não se falou), essas coisas legais e principalmente MUITO sinceras que a igreja prega sempre. No terço final da cerimônia, o tal rito novo, que consistia em quatro dos padrinhos segurando os cantos de um véu branco e muito longo, por cima dos noivos. O padre explicou que aquele não era um simples véu, mas representava a nuvem que camuflou os judeus na fuga pelo deserto ou coisa do gênero.

Enquanto o padre falava aquelas coisas irritantemente hipócritas, eu e Mirco nos ocupávamos da análise estética dos convidados, já que a basílica não é nenhuma Brastemp e não oferece horas e horas de entretenimento arquitetônico como a de São Francisco, em Assis. Vimos:

. Scarpins rosa-choque
. Calça jeans e sandálias de salto agulha com gigantescas flores azuis de plástico no peito do pé
. Calça de seda marfim com elástico na barra, cobrindo o sapato
. Bundas imensas espremidas em calças brancas de seda, com direito a fio dental e celulites se manifestando sob o tecido
. Bundas imensas pertencentes a senhoras de uma certa idade, espremidas em calças azul-marinho transparentes
. Costas mais gordas do que as minhas derramando tecido adiposo por entre as fitas de um corpete apertado demais
. Rapazes com camiseta amarelo-ovo escrito Brasil nas costas
. Frade com gel no cabelo
. Muitos frades jovens, alguns lindos, infelizmente
. Cabelos estilo poodle, permanentados na frente e lisos atrás. E vice-versa
. Muita, mas muita boca contornada com lápis e sem batom
. Saia jeans e camiseta e tênis
. Uma jaqueta preta muito bem cortada e com belos botões na frente, mas com uma cobra IMENSA bordada atrás
. Sapatos masculinos de couro de crocodilo e ponta fina
. Machos de sobrancelhas feitas
. A melhor amiga da Stefania, uma garota muito esquisita, de vestido longo cor de cocô e um chapéu imenso, totalmente nada a ver
. Muita, mas muita alça de sutiã colorido aparecendo por baixo de vestidos tomara-que-caia, ou de um ombro só, ou de alcinhas finas
. Uma calça maravilhosa, branca com listras pretas na vertical, irregulares. O tecido era maravilhoso, babei
. Xales horrendos daqueles 150% poliéster
. Uma sandália baixa, prateada, linda de morrer
. Bizarras combinações de camisa xadrez e terno listrado
. Perucas masculinas
. Narizes alcoólatras, inchados, vermelhos, cobertos de telangectasias
. Bebês fofinhos adormecidos
. Crianças entediadas

entre outras coisas.

Enquanto eu sofria no meu salto alto desconfortável e morria de calor na minha calça de xantungue roxo da Animale e blusa de palha de seda creme da Mariazinha, o Mirco suava no seu terno cinza-escuro com sapatos da Mr Cat. De vez em quando um monstro do pântano passava na nossa frente, dando-nos uma bolsada ou uma cabelada, e ele repetia: mamae-so-fórtchi, sua última aquisição lexical, que ele adorou tanto que usa em qualquer situação ridícula, relacionada ou não ao uso de camisetas sem manga para exibir os bíceps.

O raio da missa estava demorando uma eternidade, e como depois da cerimônia os noivos tradicionalmente vão pra sessão de fotos, fomos lá pra fora pegar um arzinho e descansar os pés, porque não dava mais pra agüentar. Ficamos sentados num banco de pedra em frente à Libreria Internazionale Francescana, o que quer que isso seja, batendo papo com o Stefano. Stefano é amigo deles há anos, trabalha no Ipercoop e é um pedaço de mau caminho. Alto, físico de atleta, olhos penetrantes e sorriso perfeito, coisa MUITO rara por aqui, mesmo em se tratando de gente que tem dinheiro. Ao meio-dia e meia os noivos finalmente saíram da sessão top model; fomos cumprimentá-los, pegamos o carro estacionado em frente à peixaria e fomos pegar o Moreno em casa. Ele tinha trabalhado até meio-dia e vinte e não pôde ir à missa, sorte dele.

O almoço foi no hotel da família, lógico. Quer dizer, lógico seria se o lugar fosse suficientemente grande. Mas não é, e foi preciso dividir a galera: parentes no restaurante do térreo, amigos no restaurante da sobreloja, digamos. Gente demais, ar condicionado que não dava conta do recado, e todo mundo com dor de cabeça por causa do ar consumido, como se diz aqui. O antipasto foi servido em pé, no jardinzinho da frente, entre a cerca-viva de louro e oleandros brancos: espetinhos de tomate-cereja, mozzarella e manjericão, salada de trigo (deliciosa), enroladinho de massa folhada com recheio de espinafre e lingüiça despedaçadinha, enroladinho de massa folhada e recheio de salsicha (würstel), salada de rúcula, pinoli, uva-passa e parmesão, rolinhos de bresaola (um tipo de ensacado típico do norte, eu não gosto) com recheio de rúcula e molho branco, salame fatiado, lascas de parmesão (adoro), pedaços de queijos variados – queijo de leite de ovelha, queijo duro, queijo mais ou menos, queijo com tartufo, queijo com peperoncino. Água mineral, prosecco e uma coisa não alcoólica cor-de-laranja que não tinha gosto de nada. Terminado o antipasto, todo mundo pra dentro do hotel.

Demos sorte: não havia lugar marcado e dividimos a mesa para dez com Moreno e mais três casais de amigos do Peppe que o Mirco não via há muitos anos. Gente simpática mas meio paracula demais pro meu gosto; levaram uma hora e meia pra descobrir que eu não era italiana, mas a partir daí ficaram me encarando o tempo todo, como se eu fosse um bicho no zoológico.

O catering ficou por conta da empresa Il Quadrifoglio. As garçonetes eram muito simpáticas e eficientes. Na mesa, um cardápio pra cada um; fiz como manda a tradição e trouxe o meu pra casa, pra lembrar o menu da festa – normalmente o menu é a única memória que fica do casamento, e todas as conversas sobre festas de casamento giram em torno da refeição. Além do cardápio, um saquinho de algodão cru bordado em estilo inglês contendo, como manda a tradição, um número ímpar e superior a um de amêndoas confeitadas. Felizmente as de hoje eram cobertas de chocolate e não só de açúcar :) Como Peppe e Stefania são muito caridosos, os saquinhos foram comprados de uma empresa que dá trabalho a gente pobre em países pobres. Nossos saquinhos foram bordados à mão por mulheres de uma cidade indiana cujo nome esqueci. Muito bonitinho, e as amêndoas são deliciosas.

Comemos muito bem. Foram três primi piatti e dois secondi, na ordem: risotto di caciotta dolce (a caciotta é um queijo macio que não tem gosto de nada, e eu AMO) e fiori di zucca (flores de abobrinha), crespelle di asparagi (crêpes de aspargos) e ravioli di melanzane (berinjela), pomodorini Pachino e ricotta salata (Pachino é uma cidade siciliana que produz esses tomates pequenos, mas maiores que os cereja, famosos pelo sabor, dizem, maravilhoso. Eu não sou fã de tomate e pra mim é tudo a mesma coisa.), depois agnello farcito al tartufo nero di Norcia (carne de carneiro recheada com trufas negras da região. Normalmente acho carneiro pesado e gorduroso demais, mas esse tava uma delícia) con mazzolino di fagiolini al fumé (um maço de meia dúzia de vagens enroladas em uma fatia de bacon) e por último carrè di vitello agli aromi naturali (carne de vitela com ervinhas), patate fondenti (batatas deliciosamente gratinadas) e misticanza (salada mista). Pra beber, um Bianco di Torgiano pros primi, e um Rubesco pros secondi, tudo Lungarotti. Parece uma quantidade absurda de comida, mas não é, creiam-me: duas colheres de risoto, um mini-crêpe, seis ravioli pequenos por pessoa. Uma fatia de carneiro, uma fatia fina de carne de vitela, meia dúzia de fatias de batata.

Quando todo mundo já tava a ponto de desmaiar de calor, as garçonetes mandaram a gente ir lá pra fora, pro bolo e pra sobremesa. O bolo, simples, de três andares redondos e enfeitado com rosas verdadeiras, era imenso e quase caiu quando duas crianças passaram correndo na frente das três pobres coitadas que o carregavam. Um amigo fez um discurso engraçado, em versos, antes dos noivos cortarem o bolo. Fila pro bolo; eu ataquei os morangos, mas também tinha kiwi fatiado, abacaxi em pedacinhos, melancia em cubinhos, melão cortadinho. Pegamos nossas bomboniere, caixinhas de vime com saquinhos de chá do Sri Lanka dentro, sempre no estilo vamos dar trabalho ao pessoal dos países pobres. Uma ótima alternativa às normalmente ridículas lembrancinhas de prata que não servem pra absolutamente nada, custam os olhos da cara e só ocupam espaço. O nosso chá é de limão aromatizado com mel. Pena que eu não tomo chá.

E dali não agüentei mais e fomos embora porque já eram cinco da tarde e meus pés estavam literalmente me matando. Deixamos o Moreno em casa e nos mandamos.

Mirco chapou no sofá imediatamente, vítima da combinação calor + comida boa + vinho. Eu ainda resisti e vi um pedaço de Conduzindo Miss Daisy antes de chapar. Acordei com um toró dos diabos lá fora, tirei a roupa do varal em tempo, rezei pra chuva continuar e estragar a última noite da festa da primavera e voltei a dormir.

Reacordamos às nove da noite! Outro banho, troca de roupa e fomos pro tal rinfresco. Felizmente a chuva tinha passado, senão não teríamos conseguido chegar naquele fim de mundo. Chegamos tarde e já não tinha mais nada; as meninas do Quadrifoglio estavam desmontando as mesas. Ainda sobraram algumas bomboniere, e peguei mais uma: dessa vez era chá verde aromatizado com gengibre. Batemos um papo rápido com Roberto e Cristiana, com Carlo Belli, irmão do Mario, que casa mês que vem, com um amigo do Mirco que namora uma equatoriana, e fomos embora pra casa.

Eu custei pra burro pra dormir. Fiquei vendo Drácula de Bram Stoker na TV, que nesse momento me foi profissionalmente útil. Ainda terminei de ler o original do texto a traduzir, tomei um iogurte de banana e só fui dormir às duas e meia da manhã.

greve

Greve dos jornalistas da RAI hoje. Resultado: telejornais ainda mais superficiais, incompletos e parciais do que o habitual, e o jogo Noruega x Itália transmitido sem narrador. Coisa muito estranha de se ver, diga-se de passagem.