chata de galocha, capa e guarda-chuva

Olha que nem é falta de assunto não. Ando com mil coisas na cabeça; enquanto dirijo, limpo a casa, passo roupa, durmo, escuto a fita do livro de inglês enquanto os alunos tentam decifrar o que os personagens dizem, enquanto faço tudo isso escrevo inteiros posts, artigos, crônicas, contos, capítulos na minha cabeça. Mas não ando com vontade de escrever. Preguiça, talvez. Cansaço, provavelmente. Falta de vontade mesmo, daquelas que batem e, felizmente, depois vão embora.

Estou relendo Harry Potter and the Order of the Phoenix mas não estou curtindo; na verdade leio querendo acabar logo pra entrar logo de uma vez no Half-Blood Prince e depois nos outros que estão me esperando e nos que a Amazon ainda não entregou. Sei lá, estou esquisita. Quando estou assim, melhor nem escrever pra não me irritar – e nem irritar vocês também.

Mas ontem fiz um cheesecake pro churrasco à americana na casa da Robertinha hoje. Acho que ficou bom. Roubei lá do site da Nigella (London Cheesecake é o nome da receita). Preguiça de linkar.

E, embora não pareça, estou muito animada com a viagem. Pena que não deu tempo de estudar francês tanto quanto eu queria. Fa niente.

diliça :)))

Que preguiça que esse tempo dá! Cadê a vontade de sair de casa, com a chuva caindo lá fora, alternando-se com o vento leve e fresco?

Terminei meus Roald Dahl pra crianças, terminei o chato do Valerio Evangelisti, terminei mais um do Camilleri (acho que não sobrou nada do Commissario Montalbano pra eu ler) e engatei um Machado porque, acreditem se quiserem, nunca tinha lido Dom Casmurro. De Machadão, na escola, lemos outras coisas. Aqui ainda tenho O Cortiço, do Azevedo, que é um dos meus livros preferidos EVER, e, sempre do Machadão, Negrinha, que minha mãe me deu há anos com uma dedicatória bonita mas alguns contos eram muito tristes e nunca mais reli.

Na verdade estou cheia de coisas pra ler, e pretendo dar uma parada nas compras literárias, pelo menos em euros (pelo Submarino ainda dá), porque tá feia a $ituation. Mas tenho algumas coisas pra comprar em francês, além das ótimas dicas da Mary. Depois da viagem prometo que vou passar alg… vou tentar passar alguns meses sem visitar a Libreria Grande. Pra saúde da minha conta corrente botense.

ah, essa bota…

As notícias da semana são predominantemente três: o fim, pelo menos temporário, do calor avassalador da semana passada; o rebaixamento do Genoa pra série C por causa do escândalo de jogos comprados; uma família de VINTE – VINTE, DEZ MAIS DEZ, DEZ VEIZ DOIS – pessoas que recebiam pensão por invalidez, sendo que nenhuma delas tinha absolutamente nenhum problema de saúde. Cês têm noção da hilaridade dessa notícia? Vinte falsos doentes, da mesma família, recebendo pensão sem ter direito? Onde, onde, onde, vocês me perguntam? E eu respondo: em Nápolis, onde mais?

O único nortista mais picareta que toda o sul da Itália junto é, claro, o Cavaliere Berlusconi.

cose della moda

Toda hora minha mãe pede pra eu fotografar vitrines ou mandar revistas pra ela ficar sabendo, com antecipação, qual vai ser a moda pra próxima estação. Na verdade nem precisa, porque ela tem um olho clínico pra essas coisas que é realmente invejável.

Ano passado o grande lance foi o rosa. E também as jaquetinhas cinturadas, de preferência brancas, e as microssaias pregueadas. Esse ano custou a aparecer algo de mais sólido nas vitrines, e só agora a coisa pareceu se definir. A cor do ano, parece, é o verde-limão. E o estilo do ano, parece, é o hippie (ou íppi, como se diz aqui), que eu a-bo-mi-no. Vejo túnicas com calças (não gosto, mas é bom pra gordas), batas tipo ciganinha, com elástico abaixo do peito (socorro), saionas disformes, combinações cromáticas escalafobéticas. Mal posso esperar pra festa de Bastia em setembro, quando as bastiolas fashion victims exibem suas figuras na mesquita, os cabelos preto graúna, os óculos de sol que cobrem metade da testa, os saltos que vira e mexe entalam entre os paralelepípidos do centro histórico. Diversão garantida.

Enquanto isso, levo dois minutos pra passar a bata indiana (a nacionalidade, não só o estilo) linda que minha mãe mandou, de algodão finiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinho, bordado branco sobre tecido branco. Chique e fresca. E sem o maldito elástico embaixo do peito, nem o decote canoa elasticizado, que toda hora escorrega pelos ombros. Viva mâmi.

*sigh*

Ontem foi um dia miraculoso. Paulo Cintura cancelou a aula da uma às três, o Salame não pôde alongar a aula de meio-dia à uma, almoçamos em Torgiano e a comida estava ótima, a tradução dos materiais de construção está na metade e revelou ser menos difícil do que eu imaginava (embora não o suficiente pra deixar que eu tirasse uma soneca depois do almoço), jantamos na festa do ganso na bela e fresca Bettona, e fechamos a noite nos perdendo em Spoleto, pro papai ver a Ponte das Duas Torres, construída sobre a antiga estrutra de um aqueduto romano.

Hoje vamos almoçar na Arianna, pra fazer companhia pra avó do Mirco. Ettore e Arianna vão a um encontro de carros de época em Collemancio, perto de Cannara, e vão almoçar por lá mesmo.

E depois tenho que voltar pros malditos tijolos, telhas, portas, traves, calhas. Se arrependimento matasse.

livrinhos

Esse calor me cansa. Parece que vai melhorar nos próximos dias, mas por enquanto ainda é um parto sentar aqui e traduzir do italiano pro inglês um relatório cheio de estranhos materiais de construção, quando poderia estar deitada na cama, o ventilador na cara, lendo Nicolas Eymerich, Inquisitore, de Valerio Evangelisti, que é interessante pelo assunto mas estilisticamente pouco atraente. O diabo é que é o primeiro de uma série. Malditos autores de séries.

Meu pai trouxe com ele uma bolsona de coisas que minha mãe mandou por ele quando esteve no Rio, mês passado. Então ganhei sapatos, camisas escandalosamente bonitas, banana passa, gelatina Royal, bijuterias lindas, e os livros que comprei pelo Submarino: Equador (Miguel Sousa Tavares), dica da paratyfílica Newlands, A Língua Exilada (Imre Kertész), se não me engano dica da Cora, e alguns clássicos russos e da literatura brasileira.

O problema é que também comprei coisas em francês mês passado, mas preciso de tempo, paciência e dicionário pra dissecar esses livros, já que ainda titubeio um pouco quando leio o Le Figaro. Mas o tempo, cadê, cadê?

caldo infernale

Ontem foi, tenho certeza, o dia mais quente do ano por aqui até agora. Voltando da oficina de lambreta ao meio-dia e meia, enfiada na jaqueta leve de algodão que sempre uso quando saio de motorino pra não bronzear os braços, achei que fosse desmaiar de tanta abafação. A massa quente que eu singrava era tão infernal quanto o bafo que nos saúda quando abrimos o forno pra ver se o bolo está pronto. Juro que nunca senti tanto calor na minha vida. Nem no 157 no engarrafamento na São Clemente, na hora do almoço em pleno verão carioca. Juro.

less is more

Miraculosamente consegui terminar a série The No. 1 Ladies’ Detective Agency, de Alexander McCall Smith. Os livros são deliciosos, simples como a vida no Botswana – simples são a linguagem, os personagens, as reflexões, os casos resolvidos por Mma Ramotswe. Facilmente devoráveis. Recomendo.

é chato ser foda

Uma das coisas boas da Itália é que, apesar do preconceito com os imigrantes, a meu ver plenamente justificável e que muito freqüentemente compartilho completamente, é que a curiosidade dos botenses às vezes é grande o suficiente pra vencer o preconceito.

Explico. Meu currículo de tradutora já correu o país inteiro, mas entendo que não deve ser muito comum ler coisas tipo “formada em Medicina”, “Cambridge Proficiency”, “professora de inglês”, “ex-vendedora de salame de javali”, “curso de roteiro cinematográfico na PUC-RJ”, “nascida no Rio de Janeiro, Brasil”, tudo isso no mesmo currículo. Então é normal que neguinho só me ligue quando a coisa aperta e surgem trabalhos bizarros que ninguém tem capacidade, ou vontade, de traduzir, e só alguém com um currículo tão estranho e inverossímel quanto o meu tem saco pra encarar. Mas às vezes acontece, e com isso já fiz trabalhos pra agências de tradução de Biella, láaaaaa nos confins do Império Austro-Húngaro, pra empresas na Toscana, e semana passada me ligaram de Foligno pedindo a tradução de uns textos técnicos sobre extintores de incêndio. Não posso ir a Biella nem quero me desabalar pra Toscana pra conhecer as outras agências, mas Foligno é aqui do lado, então liguei avisando que eu ia aparecer pra ver pessoalmente em que pé estavam as coisas. E fui, de carona com meu pai.

E o que aconteceu foi o seguinte: enquanto eu conversava com a dona da agência, uma morena muito escura por causa de melanócitos excessivamente ativos (assim ela me disse), entrou na sala um senhor barbudo e branquelo, de camisa pólo azul-celeste. Ela pediu que ele, inglês da gema mas com experiências de vida na França, na Espanha e em outros lugares, conversasse um pouco comigo em inglês. E aí repetiu-se a cena que sempre acontecia na loja do Fabrizio, o Louco: uma espécie de jogo de adivinhação, pra ver se ele descobria, pelo meu sotaque, de onde eu era. Cismou que eu era americana, e eu neguei. Começou a enunciar todos os países de língua inglesa, e eu, rindo, balançando a cabeça. Sobrou Malta, ele disse, mas o inglês maltês é esquisito. Tem certeza que você não é californiana?

Tudo isso resultou em uma nova oferta de trabalho. Porque o andar de cima é da agência de tradução, e no andar de baixo funciona, sempre pertencendo à mulher dos melanócitos assanhados, uma filial de uma famosa escola de inglês aqui do interior da Serra Leoa. Segundo o senhor inglês, que é um amor, é claro que posso dar aula (eu já tinha falado com essa escola pelo telefone, pra pedir o número de fax pra mandar o currículo, e foram muito enfáticos ao me dizer que só contratam native speakers), desde que, claro, não diga que sou brasileira. Então ficou combinado que quando (e se; não discutimos salário nem nada ainda) eu começar a dar aulas, vou virar nativa da Flórida. Então tá.

O chato de Foligno é que eu não posso ir de lambreta. E que se eu realmente conseguir voltar a estudar, vai ficar fora de mão pacas, porque é na direção oposta à de Perugia. Mas a gente dá um jeito.

E eu que só queria que me dessem livrinhos legais pra traduzir. SOMEONE GIVE ME SOME GOOD FUCKING LITERATURE!