cansadéeeeerrima.
será?
Parece PARECE que finalmente arrumamos um secretário. É o Stefano, um menino gigantesco de 19 anos que acabou de terminar a escola técnica de contabilidade. Quem mandou a criança pra nós foi uma das meninas da contabilidade do nosso maior cliente na oficina. A garota é esperta e por isso achamos que seu primão tem boas chances de funcionar bem com a gente.
Além de ser imenso, ele é engraçado, e quando começa a rir a gente acaba rindo junto mesmo sem saber do que se trata. Coisa mais engraçada é vê-lo junto da Elena, que é miudiiiiinha.
Eu não agüento mais pisar naquela oficina. Todas as manhãs bato ponto por lá, e não agüento maaaaaaaais. Odeio caminhões, odeio caminhonistas, odeio ferramentas, odeio prensas, odeio furadeiras, odeio gente mal educada. A coisa tá ficando tão chata que eu já tô até vendo o dia em que vou acordar com o pescoço duro, que nem no ano passado, durante aquele abominável estágio na agência de seguros. Só Stefano pode me salvar. Torçamos, torçamos.
hm
Então eu li Oracle Night, do Paul Auster, e achei que ficou faltando alguma coisa.
A história é interessante mas há alguns elementos que se perdem no caminho e ficam sem muita função. Mas o problema nem é esse, o problema é a falta de estilo, a graça, os jogos de palavras, a invenção. Todos os escritores americanos da atualidade que eu já li soam exatamente iguais. TO-DOS. Pular de Hemingway (mesmo sendo A Moveable Feast, que não é um romance) pra qualquer outro pode ser altamente traumatizante.
Vamos ver se o outro Paul, o Burke, se sai melhor.
portuguêish
A minha turma de português é muito legal. É um casal jovem, ela grávida de três meses, que tem família em São Paulo, e uma menina muito legal, formada em línguas (alemão e inglês), com um namorado que adora o Brasil e uma grande curiosidade por línguas ocidentais.
É muito engraçado porque a Elisa, formada em línguas, tem obviamente mais facilidade, mas os outros dois, que já foram várias vezes ao Brasil, sabem um monte de palavras soltas (para com isso, vem cá, que saco, olha lá, hein, ih, alá!) e têm mais intimidade com a pronúncia. Que é, aliás, o fator mais desencorajante pro estrangeiro que aprende português. Até neguinho acostumar que Ronaldinho se diz Rronaudjinhu, menina do céu, que sofrimento. Passam a aula toda suspirando, um corrigindo o outro, é antchigo e não antigo, é mininu e não menino, é carro e não carru, e por aí vai. Quando eu li em voz alta um trecho que dizia “eu gosto de dirigir” eles quase infartaram. Djidjirigí? Que raio de verbo é esse?
Mas eu me divirto. E me emociono também, porque escutar alguém se esforçando pra falar a sua língua tão difícil, fazendo força pra pronúncia sair direito, e no final acabar falando igualzinho à Huňka, não é mole. Tem horas que morro de vontade de chorar.
uia
No fim de semana fomos ver O Quarteto Fantástico. Gente, quequeísso! Que troféu framboesa o quê! Troféu melão pra maquiagem mais patética que eu já vi na minha vida!
A começar pela Susan Storm, com aquele cabelo amarelo-canário. Com menos cara de loura do que ela, só a Yoko Ono. Ou o Micheal Jordan. Socorro! Mas os penteados são legais, e provavelmente impossíveis de se reproduzir em ambiente doméstico, infelizmente. Mas voltando à maquiagem, em certas cenas, com uma iluminação horrenda, a menina ficava parecendo um zumbi. Coisa horrorosa.
Falando em coisa. Aqui chamaram O Coisa de La Cosa, assim no feminino mesmo. Achei mal feitíssimo. Mas gosto do ator. Também gosto do cara que fez o playboyzão chatão do Tocha.
Mas o Doutor Destino… Socorro!!! Que sobrancelhas são aquelas? E as caras e bocas? Se pro nível de Charmed o cara já era um horror, e não se salva nem em Nip & Tuck, imagina como supervilão. Qualquer ator canastrão que conhecemos estaria melhor no papel. Pode falar qualquer um: Tarcísio, Taumaturgo, aquela mala do Lima Duarte. Qualquer um faria um Doutor Destino menos afetado do que aquela criatura.
O filme é completamente idiota, e eu nunca fui muito fã do Quarteto. Mas esses filmes porcaria são tão legais :)))))
ô gente lerda
E falando em faculdade, os resultados das bolsas de estudos só saem dia 30. Haja paciência.
batendo perna
O dia ontem foi longuíssimo. Saí cedo de casa pra não pegar trânsito pra Perugia, e fui direto ao Centro de Triagem dos correios. O que aconteceu foi o seguinte: minha mãe tinha mandado uma caixa do Rio com os livros de português pro curso que começou ontem, e a caixa chegou ontem mesmo, só que eu não estava na oficina quando o courier passou. Nem o Mirco. E a mente brilhante do Ettore não conseguiu chegar sozinha à conclusão de que uma caixa do Brasil com um remetente com o mesmo sobrenome que eu MUITO PROVAVELMENTE era pra mim. Mandou embora o pacote. E nessa eu me fodi. Comecei o curso de português sem livro mesmo, mas antes liguei pros correios de Perugia e quase chorei no telefone pedindo pra alguém quebrar o meu galho. Por sorte moro em um país onde regras foram feitas pra ser quebradas, e com um pouco de sorte e de choro a gente sempre encontra alguém disposto a dar uma mãozinha. Quem me atendeu foi um cara muito simpático que me levou lá pras entranhas do depósito e me ajudou a catar o pacote, que de outro modo só chegaria à agência dos correios de Torgiano na semana seguinte.
Resolvido esse pepino, fui relaxar e cortar os cabelos. Os cachos voltaram e estou achando ótimo. Enchi desse negócio de escova. Não tenho cara de lisa mesmo, então foda-se. Quem ficou contente foi a Giuliana, que não me via desde abril, e que cortou fora um mar de cabelos.
E dali a começou a epopéia do Centro de Cefaléia. Porque eu não sei dirigir em Perugia, vivo me perdendo, não entendo o trânsito, não acho os estacionamentos que eu quero, e levei séculos pra chegar ao Policlinico Monteluce. A doutora estava vindo do outro hospital, o Silvestrini, que fica lá na casa do chapéu, e estava empacada no trânsito. A consulta, que era pra meio-dia, só foi rolar à uma e meia. Muito simpática e gentil, coisa rara quando falamos de médicos italianos, a doutora me fez milhões de perguntas, mas uma das mais importantes, que trabalho eu faço, foi completamente esquecida. Minha pressão estava alta, coisa totalmente anormal, já que normalmente só me deixam doar sangue depois de me entupir de líquidos por causa da pressão baixa. Mas dado o nível de stress na minha vida ultimamente, é bem compreensível. Pediu um monte de exames, entre eles dos hormônios tireoideanos e uma ressonância do cabeção, que não sei quando vou ter tempo de fazer.
Comprei uma carteira na Furla, em um resto de promoção, e na rua ali do Arco Etrusco, que vai dar na Stranieri, pela primeira vez entrei em uma padaria que sempre me chamou a atenção. É uma porta minúscula, e lá dentro tem sempre um monte de gente, por isso nunca tinha entrado. Dessa vez eu tinha um pouco de tempo e resolvi arriscar. Acabei descobrindo um tal do Pane Panda, que nada mais é do que um pão feito em nome da WWF. Uma parte da renda da venda do tal pão vai diretamente pra eles, ou pelo menos espero. O bicho (o pão, não o panda) é uma delícia, com grãos de aveia, trigo e semente de girassol, conserva-se muito bem, sem perder nada de consistência ou umidade de um dia pro outro (mais que isso não pude avaliar, porque matei o pouco que restava no dia seguinte) e na parte de cima tem uma espécie de hóstia comestível bonitinha, com o panda símbolo da WWF. Acabei comendo quase tudo puro mesmo, no carro, fazendo hora enquanto a próxima aula não começava. O dia terminou às dez e meia da noite, com os Salames. É muita pedra na cruz mesmo… ;)
:))))))))))))))
Tabucchi foi uma das melhores coisas que já me indicaram pra ler.
Se vocês não lembram, foi o professor de literatura italiana na Stranieri (aquele que a Polacca Pazza acusou de ser chato pra caramba e de ser péssimo professor). No último dia de aula, depois de entender que só eu e o Silvio compreendíamos alguma coisa da aula dele, porque só nós conseguíamos ler direito em italiano, me chamou num canto e perguntou se, visto que eu entrava com um livro diferente na mão a cada dia, eu não estaria interessada em sugestões de leitura. Só se for agora, exclamei, e ganhei uma lista de livros. Li todos, e adorei todos.
Um desses foi Sostiene Pereira, que depois a Sabine, canadense-francesa que estudou comigo na Stranieri e ainda é uma boa amiga, me deu de presente de despedida. O livro é uma delícia, de verdade. Tudo é tenro, delicado, doce, faz sorrir. Até o que é triste, amargo, sério, politicamente engajado disfarçado de boa literatura. Esse ano li de novo e gostei mais ainda. E acabei comprando outro dele: La Testa Perduta di Damasceno Monteiro. A delícia já começa do título, pelo menos pra expatriados, com esse tão familiar Monteiro no título. A história é simples, e não é exatamente a trama que é envolvente, mas os personagens. Fiquei amiga de todos. E com mais vontade ainda de conhecer o Porto (que em italiano, não chorem, se chama Oporto. Giustamente.).
E esse mês saiu o último Camilleri com o Commissario Montalbano. Lógico que já comprei e já estou na metade. Comprei outras coisas também porque sabem como é, um livro chama outro, é que nem sequilho. Comprei The Mistress of Spices, de Chitra Banerjee Divakaruni, um Hemingway (Moveable Feast, porque afinal Paris é Paris), um Paul Auster (Oracle Night), um Paul Burke (the Man Who Fell in Love With His Wife), e Nicholas, de Goscinny e Sempé, infelizmente só disponível em inglês, e que acabei comprando assim mesmo porque a edição é de-li-ci-o-sa. A Amazon me mandou o terceiro livro da série The Hinges of History do Thomas Cahill (o primeiro é How The Irish Saved Civilization, um dos meus preferidos ever), Desire of the Everlasting Hills The World Before and After Jesus. Ainda não comecei porque estou esperando o segundo volume, que deve chegar mês que vem: The Gifts of the Jews, que estou doida pra ler. Pena que a edição que me mandaram é feinha e diferente da dos irlandeses, que é linda. Mas enfim, não se pode querer tudo.
Também estou com um monte de coisas pra ler em francês e espanhol, mas não estou com tempo pra ler com dicionário. Também tem Il Gattopardo me esperando só li uma vez, há muito tempo, em português.
The Hitchhikers Guide to the Galaxy é uma das coisas mais chatas que eu já li em toda a minha vida.
il terzo mondo è qui…
Outro dia assistimos a um debate na TV sobre uma das maiores pragas da sociedade italiana: a raccomandazione, ou o famoso pistolão.
NADA aqui funciona sem pistolão. Desde a coisa mais simples, como uma caixa de limão verde que a verdureira só te arruma porque ficou sua amiga, até coisas sérias como conseguir emprego nas estatais. O assunto surgiu por causa do escândalo das listas de raccomandazioni pra entrar nos Correios. A coisa era organizada: descobriram um CD com um banco de dados com o nome do raccomandato, o nome do raccomandante, que tipo de cargo poderia ocupar, e coisa e tal. E o pau comeu mais ainda porque os correios italianos são mundialmente famosos pela sua incompetência, lerdeza, mania de perder coisas, gente retardada trabalhando nas agências. Já falei mal dos correios aqui um milhão de vezes, e toda vez que tenho que ir lá me irrito. E olha que eu conheço agências dos correios do país inteiro quando viemos aqui pela primeira vez, eu e Valéria trocávamos dólares sempre nos correios e vimos muita gente na fila reclamando e mandando chamar o gerente porque a fila era enorme e ninguém lá dentro se mexia pra agilizar o serviço.
As três agências que mais freqüento são a de Santa Maria, a de Bastia, onde tenho conta, e a de Ponte San Giovanni, a dois minutos da escola. O nível de retardamento mental e despreparo das pessoas que trabalham ali dá vontade de chorar. Imaginem que uma vez fui a Bastia depositar um cheque dos correios veja bem, nem pedi pra trocar, só pra depositar mesmo e a energúmena atrás do vidro me disse que uma das regras dos correios é só lidar com cheques da mesma agência. Minha senhora, eu disse, a senhora compreende que se fosse assim os cheques não teriam razão de existir? Se um cliente de Bari me paga com cheque, segundo a senhora eu vou ter que ir a Bari pra depositá-lo? Tem sentido isso? Não teve jeito, a mulher cismou, bateu o pé, e não quis depositar. Então fui a Torgiano, agência minúscula mas com uma gerente espertíssima, e contei a história (só não vou mais a Torgiano, onde fica a oficina, porque eles fecham à tarde, enquanto que as outras agências funcionam em horário integral, inclusive sem fechar na hora do almoço, olha só que avanço.). A mulher ficou furibunda! Volta lá e me faz o favor de dizer praquela múmia que ela é uma imbecil e não sabe nada! Que gente retardada! Onde foi, em Bastia? Ah, eu sabia, só tem imbecil naquela agência! Tirou uma xerox do contrato entre o correntista (no caso, eu) e o banco, explicando os prazos de pagamento dos cheques, da praça, fora da praça, do BancoPosta, de outros bancos, sublinhou tudo o que interessava, e me implorou pra ir lá esfregar tudo na casa da energúmena de Bastia.
Mas enfim, o assunto era pistolão. O debate foi interessantíssimo. Havia alguns peixes grandes da política um fascistão do Veneto, um senador vitalício filho da puta de Nápolis e mais uns gatos pingados: uma cirurgiã espertíssima, que mesmo sendo docente de quatro universidades estrangeiras jamais conseguiu trabalhar na Itália porque não pertence a nenhuma família de tradição médica; um professor da Bocconi, famosíssima faculdade de Economia de Milão; Emilio Fede, um puxa-saco do Berlusconi que me dá nojo só de ver, e mais uns fulanos que telefonavam e faziam participações especiais ao vivo. Entre esses últimos, o prefeito de Roma, que ligou pra esclarecer uma história confusa que saiu nos jornais sobre possíveis raccomandazioni da parte sua. A sua explicação foi, na minha opinião, pior que o soneto: disse que só deu uma ajuda pra arrumar emprego pro filho de um bombeiro que morreu em serviço. Ora, faça-me o favor, eu entendo que é chato o cara morrer em serviço e que o Estado lhe deve alguma coisa, mas daí a arrumar emprego pro filho do cara, que não era absolutamente preparado pro cargo, temos léguas de distância.
A cirurgiã foi a nossa preferida da noite. As caras que ela fazia a cada comentário absurdo, a cada conversa filmada escondido, eram de matar de rir e refletiam exatamente o que estávamos pensando. Na verdade todas as pessoas entrevistadas na rua e todos os envolvidos nas tais conversas gravadas admitiam que o pistolão faz parte da cultura italiana, que sempre foi assim e sempre será, que em alguns casos nem é tão grave assim. A última coisa que eu vi antes de cair no sono foi que os únicos profissionais italianos respeitados no exterior são os que efetivamente estudaram no exterior, porque nas faculdades italianas o planeta inteiro sabe que o esquema é o pagou-passou, ou o conhece-alguém-lá-dentro, tá feito. Um outro professor de universidade contou que já recebeu listas de nomes que lhe foram passadas por baixo da porta de casa – nomes de alunos que ele deveria aprovar, porque raccomandati por gente importante.
Algo me diz que não vou conseguir voltar a estudar.
tucomel
Recebi o e-mail mais bonito do mundo hoje, do meu irmão.
Mas é só meu.