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A enxaqueca começou no sábado, no final da manhã. Tomei logo o remédio, como sempre, mas dessa vez demorou a passar e não consegui nem ajudar a botar a mesa na Arianna; tive que ficar jogada no sofá embaixo do cobertor até passar. A segunda porrada veio lá pras sete, no meio do cinema. Estávamos vendo The Interpreter (gostamos muito, mas no final eu já não estava entendendo mais nada por causa da dor). Tomei outro comprimido e fiquei torcendo pra dor ir embora pra eu não ter que sair no meio do filme, mas não deu. Sou teimosa e fiquei até o final, mas cheguei em casa chorando de dor.

Na segunda acordei a massa falida. Uma náusea horrorosa, a cabeça rodando, o corpo mole. Essa dor me destrói, é uma coisa tão absurdamente intensa que destrói a gente moralmente também, um negócio impressionante. Por sorte as duas escolas estavam fechadas por causa do feriado, que aqui se comemora no dia primeiro de novembro, então pude ficar em casa sem remorso. O dia INTEIRO no sofá de pijama. Não conseguia ver TV porque o barulho incomodava, mas arrisquei umas pagininhas e, vendo que rolava, acabei terminando The Grapes of Wrath (maravilhoso!), devorando The Virgin Suicides (prefiro Middlesex) e começando The Lovely Bones, de Alice Sebold, muito gostosinho. Mirco foi tomar um drink com o Moreno porque eu realmente não tinha condições de sair de casa. Cheguei até a bater um bolo à tarde, não sei como, e ainda embrulhei dois pedaços em papel alumínio e dei de presente pras duas meninas que bateram aqui na porta trick-or-treating. E depois chapei, e mais nada.

peixinho bom

Sábado fomos jantar com Gianni aqui. Aluno Endocrinologista já tinha me falado desse restaurante, onde ele comeu o peixe mais fresco da sua vida, e depois o Gianni foi a uma despedida de solteiro lá e também ficou encantado. E resolvemos conferir.

Chiara não foi porque estava em um retiro espiritual, o que quer que isso seja. Fomos nós três; o restaurante é aqui pertinho de casa, coisa muito prática. O dono é um siciliano de Palermo muito simpático, que se recusa a cozinhar o “básico” dos frutos do mar, ou seja, cocktail de camarão e insalata di mare.

O jantar foi uma diliça. Saiu carinho porque pedimos uma degustação, mas os pratos no menu têm preços bem razoáveis. Resolvemos deixar o proprietário e chef, o Roberto, à vontade pra escolher o menu pra nós, por um motivo muito simples: ele não trabalha com intermediários, e compra o peixe não de peixarias mas de um pescador que trabalha diretamente com ele, e traz peixe fresco todo santo dia. Se hoje não cair nenhuma lagosta na rede, por exemplo, ele não pode servir lagosta, porque não trabalha com congelados. Então ninguém melhor que ele pra saber o que rola de bom naquele dia. Pescaram uma cernia espetacular hoje, querem? É assim que funciona – adoro essas coisas; essa intimidade imediata do italiano com todo mundo, principalmente quando tem comida no meio, é sensacional. Então tivemos um salmão marinado delicioso, um peixe que não sei traduzir marinado no vinagre com sementes de romã (esse eu dispensei, dispenso qualquer tipo de vinagre e qualquer aceno de fruta na comida), ma-ra-vi-lho-sos mariscos (cozze e vongole) fresquíiiiiiiiiiiiissimos, e depois uma das coisas mais gostosas e delicadas que eu já comi em termos de peixe: spaghetti com pesto feito na hora (eu detectei, além do manjericão, um toque de hortelã, que ele confirmou) e “saltati in padella” com camarõezinhos. Uma coisa de louco – com uma pimentinha moída na hora por cima, então… O prato principal foi um mix de crustáceos ao vapor: meia lagosta cada um, lagostins e camarões gigantes e médios. Olha, eu não sou expert em cozinha e muito menos em frutos do mar, que só fui aprender a comer aqui na bota, mas realmente a diferença é morrrrrrrrtal. Os mexilhões tinham cheiro de praia, os lagostins só faltavam piscar o olho pra gente. Tudo isso acompanhado de duas garrafas de ótimo vinho branco, cuja origem desconheço porque fiquei com preguiça de ir até o balde de gelo olhar o rótulo, muito levinho e gostoso. Mirco ainda comeu sobremesa, os meninos tomaram café e dois copos de grappa cada um. E ainda ficamos batendo papo, depois que os outros clientes saíram, com o proprietário e o menino francês que trabalha como garçom. Agradabilíssimos e muito educados.

O problema do restaurante é que não tem clientes. Porque o umbro é idiota e só freqüenta lugares da moda. O restaurante da moda em termos de peixe é o Massimo, que é superfora de mão pra gente porque é láaaaaaaaa no Lago Trasimeno, e os preços são assim como dá na telha do Massimo, sabe; por menus absolutamente idênticos já chegamos a pagar 3 preços diferentes em três ocasiões diferentes. Mas é fashion, então em vez de ir ali em Ospedalicchio que é do lado de casa – estou falando aqui do vale, de Bastia e adjacências – neguinho se despenca lá pro lago só pra encher a boca quando contar que jantou no Massimo. E aí o coitado do Roberto fica sem clientes. Então, já sabem: peixe na Umbria é no La Cigale. De verdade.

brumas

A neblina já dura uma semana. Nos primeiros dias, lá pra hora do almoço o céu já estava limpo, a temperatura agradável e eu feliz. Mas a cada dia a névoa dura mais um pouquinho, e ontem pela primeira vez não deu trégua o dia inteiro.

Vocês estão carecas de saber que o único fenômeno meteorológico que eu abomino é o vento. A neblina é chatinha, mas não é o que há de pior no mundo. O problema é que as roupas não secam – ainda não está frio o suficiente pra ligar o aquecimento – e tudo fica com aquele estranho cheiro de neblina. E dirigir também não é nenhuma Brastemp, principalmente à noite, e principalmente pra mim.

Ontem voltei do trabalho em velocidade velhinho, dando risada de nervoso porque não via nada. Mas eu acho neblina uma coisa muito maneira. Acho muito interessante a sua consistência quase sólida, o modo de vir em blocos, em tufos, em punhados, o jeito com que cede à passagem do carro, com que distorce as luzes, com que esconde as coisas. Os postes desaparecem e vêem-se só os globos flutuantes de luz. Os carros à minha frente se reduzem a dois pontinhos vermelhos simétricos e mais um pontinho vermelho mais brilhante, o farol de neblina. Basta a estrada subir um metro e meio pra danada sumir, e basta uma afundadinha de nada pra bichinha adensar. Perde-se toda e qualquer noção de orientação espacial – eu que já não tenho nenhuma me dou mal pacas – e o silêncio é opressor. Tudo ganha ares surreais, nebulosos, o tempo não passa, a falta de rádio no carro se faz sentir mais do que nunca. Morro de medo de atropelar algum bicho na estrada, e vou muuuuuuito devagar, a cabeça esticada pra frente, concentrada no asfalto, tentando lembrar de quando há curvas, os olhos fixos no mato às beiras da estrada pra não acabar passando por cima de um pobre bicho desavisado que resolva arriscar a sair de casa com esse tempo maldito. Mas correu tudo bem e cheguei em casa sã e salva.

:)))

Às duas da madrugada de hoje nasceu o Alessandro, filho do Marco e da Michela. Depois do trabalho fui ao hospital de Assis conhecer a criança e parabenizar os pais. Marco, que é uma pessoa muito particular, estava todo bobo mas obviamente se cagando de medo. O bebê é uma gracinha, três quilos e meio, cabeludinho mas não muito, as unhas compridas, os dedos ainda enrugados. Mirco comprou uma planta (porque flores morrem logo e não gostamos de ver coisas morrendo) pra eles e uma igual pra nós, e foi de paletó visitar o menino.

Foi interessante pra nós dois, porque eu só vi recém-nascidos no hospital onde estudei; nenhuma amiga minha tem filhos e não acompanhei de perto as gestações das minhas primas mais velhas, de modo que nunca tinha tido a oportunidade de participar assim de tão pertinho de uma nova vida que chega. Mirco, então, que tem família pequena e nunca tinha visto bebê tão pequeno, ficou chocado. Toda hora olhava pra mim e dizia mas é pequeno DEMAIS, como é possível? Michela com aquela cara de mãe, já sabendo instintivamente tudo o que há pra saber, observando as mãozinhas microscópicas que abrem e fecham durante o sono agitado, os minilábios que mamam o vazio, a posição de rã. Aquele cheirinho inconfundível de bebê no quarto, todo mundo sussurrando. Pensei logo na Carola, na mulher do Walterino, na FeRnanda que quer engravidar, na Dani irmã da Mari que já engravidou, na Ane com a linda Isabella, na Christine, na Criss. Beijos a todas!

E quando chegamos em casa nem ligamos a televisão e nem conversamos, touched by the scene; jantei minha sopa de fava com macarrãozinho em silêncio, li meia página e capotei.

todi, todi, todi vidro… ;)

Então fui fazer a ressonância magnética hoje. Lá em Todi (leia-se casa do chapéu), cidade que eu não conheço – só estive num restaurante na periferia, no ano passado, com aquele imbecil do Leo e a família dos Salames, lembram? O hospital de Todi é um ponto de referência aqui na Umbria e a mulherzinha do centro de reservas de Perugia disse que só eles e o hospital de Marsciano têm a máquina pra fazer o exame que me pediram (ressonância + perfil angiográfico). No hospital de Marsciano, mais fácil pra mim porque ao meio-dia e meia teria aula na zona industrial da cidade, não tinha vaga, e me mandaram pra Todi.

Não é exatamente longíiiiiiissimo, mas é longe, e a estrada é uma bosta, bosta, bosta, toda remendada e irregular. Fui devagarinho, porque além da estrada bosta, meu carro é outra bosta, e ainda por cima tinha muita neblina. Todi fica no alto de uma colina e levei horas pra subir no meio daquela névoa toda, fazendo curvas estranhas atrás de um caminhão que levava traves de cimento. O hospital fica dentro dos antigos muros da cidade, coisa maneiríssima, mas na recepção me mandaram descer uma escada escondida atrás do posto de gasolina e entrar num caminhão branco (!!!). Então tá.

Acontece que o serviço de ressonância do hospital de Todi é uma ressonância magnética móvel, que fica, justamente, nesse caminhão branco. Do lado de fora, um container com aquecedor elétrico e oito cadeiras – a sala de espera. Sem saber pra onde ir nem com quem falar, entrei no container e fiquei batendo papo com um senhor de Marsciano que tinha ido acompanhar o irmão, que no momento estava no caminhão fazendo o exame. Quando o irmão saiu, um cara bem novinho, de brinco, pijama verde de cirurgião e os ridículos tamancos de plástico que todo o pessoal da área de saúde usa veio me chamar.

Eu nunca tinha feito ressonância, e da tomografia do cabeção feita no ano passado, depois do ridículo tombo com a lambreta, não tenho absolutamente nenhuma memória. Eu não sou claustrofóbica nem naturalmente assustada, mas definitivamente ressonância é o exame mais chato do mundo! Você fica ali olhando praquele teto branco (eu nem isso, fechei os olhos torcendo pra dormir um pouquinho) e ouvindo uns barulhos muito estranhos – tlec tlec tlec, truuuuuuuuuuum, truuuuuuuuum, papapapapapa, e mais nada. Posso imaginar o horror que a experiência deve ser pra quem tem claustrofobia ou coisas do gênero. Eu só me entediei, mas minha mãe teria morrido de pânico lá dentro.

Como eu só tinha aula em Marsciano bem mais tarde, e o exame terminou às dez, fui dar uma olhada na cidade, apesar da neblina broxante. Atravessei o arco, uma antiga porta no terceiro círculo de muros, e fui subindo a ladeirona, naturalmente chamada Corso Cavour, até a praça central, naturalmente chamada Piazza del Popolo. Quando cheguei lá em cima e estava entrando no Uffico Informazioni Turistiche pra pegar um mapinha – porque eu adoro um mapinha – me ligam de Marsciano cancelando a aula. Bem, agora foda-se, já estou aqui, vou é rodar. Tudo bem que não dava pra ver la-da por causa da névoa, mas a cidade me pareceu linda, a praça é maravilhosa, e tenho que voltar algum dia. Desci a ladeirona de novo, parei num mercadinho pra comprar pão e presunto pro jantar do Mirco, entrei por uns becos, desci umas escadas, vi anfiteatros romanos de longe, mas fiquei com medo de me perder nas brumas e voltei pro carro, que eu tinha estacionado num buraco ao lado de uma banca de jornais. Dez minutos pra desestacionar, e peguei a estrada de novo. Parei na Libreria Grande pra pegar meus Mankell (dica da Mary) que tinham chegado (eu é que não vou ler thriller ambientado na Suécia traduzido em italiano, tá doido?) e fui pra casa fazer o almoço. E depois pra Foligno, enfrentar a turma da Confartigianato (que é muito legal) e a ferinha da Camila. E depois ainda fui a Perugia, pra antepenúltima aula com o Paulo Cintura. Cheguei em casa acabadona, compreensivelmente.

pestes

Comecei uma turma nova hoje. Mais crianças, dessa vez um pouco menores. São quatro: A e F., meninos de 6 anos, insuportáveis. L, menina, 6 anos, imensos olhos castanhos, vestindo Burberry da cabeça aos pés, como a mãe. E C., 5 anos, que já morreu mas esqueceu de deitar, lenta, burra, parada, chatérrima. Os dois meninos trazem carrinhos e um avião dos Carabinieri pra “aula” e se recusam a fazer qualquer coisa que não seja brincar com os ditos. Gritam O TEMPO TODO, correm pela sala, se sujam com os pilots coloridos, e só desenham coisas que tenham rodas. Pedi a F. pra desenhar uma casa, ele disse: mas aí eu tenho que desenhar a garagem com os carros… Não, F., eles moram ao lado da estação de trem, não têm carro, vão trabalhar de trem. Mas deve passar algum ônibus perto, né? Deixa quieto, F., desenha um Papai Noel então. Posso botar rodas no trenó? NÃO, F., TRENÓ ANDA NA NEVE, AS RODAS SÓ ATRAPALHAM. Se você não quer que eu desenhe carros, eu posso desenhar um tanque de guerra…. AAAAAAAAAAAAAAAH!!!

As mães são, obviamente, exatamente iguais aos filhos.

Michael, o professor inglês que é chamado sempre que alguma mãe preocupada suspeita que eu não tenha nascido nos EUA e testemunha ao meu favor dizendo que meu inglês é tão limpo que eu poderia ler o telejornal, odeia crianças em geral, mas essas 4, ah, ele as mataria todas. Me l’ha detto chiaro e tondo: le impiccherei tutte! E le madri anche!

esaurita sfinita in fin di vita

Agora que fico em casa de manhã, porque os meninos no escritório da oficina já estão adestrados direitinho, o cansaço está batendo de verdade. Tipo assim, só agora estou com tempo pra entender meu cansaço, sacam? Não tenho forças pra fazer nada além de passar o aspirador e tirar o pó. Tenho milhões de coisas pra lavar a mão, e não tenho forças. Tenho coisas pra estudar, mas não consigo me concentrar. Acabo passando a manhã inteira girando feito um zumbi pela casa, sem fazer nada de útil. Nem pra ler tenho forças, vejam só. E durmo mal, o Mirco dorme mal. Acho que só vamos conseguir descansar mesmo no Rio.