conceitos

Ontem escrevi à Criss contando as minhas atuais intenções, que são 1) voltar pro Rio e 2) depois não sei bem o que fazer. Ela me respondeu mais ou menos assim: que tem raiva da bagunça, do descaso, do falso moralismo, do modo nojento dos italianos de falar mal de estrangeiros e acrescentar “mas com você é diferente”. Bom, pra começar, acho a bagunça deles muito parecida com a nossa. O descaso idem. Falso moralismo também não é exclusividade deles. E quanto ao modo de falar mal dos estrangeiros, vou dar o meu pitaco. Precisava mesmo de um gancho pra falar de preconceito…

Não acho que o preconceito seja uma coisa necessariamente horripilante ou abominável. E acho que vai existir sempre, porque é uma forma de defesa, baseada predominantemente em estatística. Por exemplo: se TODOS os marroquinos que eu já vi, e todos os que eu vi foram aqui na Itália, são filhos da puta, a próxima vez que eu vir um, ainda que em outro contexto, vou ficar de pezinho atrás que eu nao sou boba. Se quase 100% das brasileiras encontradas num vôo Rio/SP/Roma são mulatinhas caça-gringo, que falam alto, se vestem como as prostitutas que são, jamais aprendem a língua e vêm pra Italia pra virar um misto de escrava sexual e doméstica, é ÓBVIO que quem pega um vôo desses e não conhece a realidade da classe média alta das grandes cidades brasileiras vai ficar achando que todas as brasileiras são assim. E quer saber? Não estão errados não. Ontem mesmo vi uma caça-gringos, nos correios em Bastia. Chamava-se Rosemeire (meus olhos mais afiados do que o Hubble conseguiram ler de longe os endereços nos caixotes que ela queria enviar à Freguesia do Ó, a uma pessoa chamada Maria Pureza. Ui.). Vestida como uma piranha, parada em pé na fila emanando aquela vulgaridade que só as mulheres latino-americanas têm, os olhos lançando aquela pobre arrogância sem sentido que só os brasileiros furrecas que vão morar fora adquirem (lembrem-se dos patetinhas brasileiros que se acham oooooooos germânicos. Aqueles do forum. Aqueles que me acusaram de ter comprado o diploma porque não gostei de Berlim. Hohoho). Podemos realmente culpar os europeus por ter essa imagem horrível de nós, mulheres brasileiras? Eu acho sinceramente que não. Acho que é só estatistica mesmo, é defesa; eu também não gostaria de ver esse tipo de gente desfilando pelas ruas da minha pacata cidade, se eu fosse nativa de uma pacata cidade. Não tenho raiva nem de quem acha que eu sou ou fui prostituta, nem raiva dessas pobres mulheres, que OBVIAMENTE não se submeteriam a sair do conforto de seus lares pra virar escravas sexuais se houvessem um lar confortável, um emprego legal, famílias normais, um mínimo de grana pra se divertir. Tenho raiva de nós, que escolhemos mal nossos governantes; tenho raiva dos nossos governantes de merda, que com seu descaso e filha-da-putice criam uma massa de gente sem perspectiva, que acaba tendo que se submeter a tudo pra ter o que comer, pra ter um mínimo de conforto; tenho raiva dos nossos órgãos de divulgação, que só vendem bundas, bundas, sempre essas MERDAS de bundas, como se no país todo não houvesse nada de mais interessante; tenho raiva de quem deveria coibir o turismo sexual mas fica de bico calado; tenho raiva dos hotéis que admitem prostitutas, de luxo ou não, quando há turistas estrangeiros; tenho raiva de todos os homens idiotas do mundo que têm que pagar por um buraco pra enfiar o dito cujo.

O dia em que eu encontrar um marroquino, ou cigano, ou albanês, que não seja filho da puta, eu também vou pensar “mas você é diferente”. A amostra pode ser pequena, afinal tive contato com muito poucos aqui, mas se 100% dessa amostra é filha da puta, alguém pode querer que eu tenha uma boa opinião sobre eles? Levanta a mão quem, mesmo depois de ser assaltado cem vezes por gente de cor (e não vou entrar no mérito disso agora, não venham me chamar de racista porque todo mundo sabe que quem assalta é pobre, fora os retardados drogadinhos filhinhos de papai, e os pobres são negros, e os negros são pobres porque foram escravos, e etc etc etc. Mais uma vez, é pura estatística.), não fica com medo quando vê um negão suspeito na rua, no ônibus, na porta de casa. Levanta a mãozinha, quero ver.

O que quero dizer é que preconceito não é ódio gratuito, e não é uma coisa contra a qual se deve lutar cegamente. Não adianta nada eu sair por aí dizendo que nem toda brasileira é caça-gringo, se na TV as propagandas que se referem ao Brasil só mostram bundas, se os vouchers de companhias de turismo que voam para o Brasil só mostram bundas, se a imensa maioria das brasileiras no exterior é caça-gringo mesmo. O que adiantaria seria, e aqui sou muito hipotética porque não creio absolutamente que o Brasil tenha jeito, a gente ter um país melhor, com oportunidades mais justas, de modo que ninguém precisasse sair caçando gringo por aí.

Estou indo embora. Não sei quando, preciso me livrar do apartamento, mas vou embora. Não porque aqui tem preconceito, porque aqui tem bagunça, porque isso ou aquilo. Vou embora porque sair de casa, ainda mais pro brasileiro, e mais ainda pro carioca, é muito difícil, um sacrifício muito grande. Sacrifícios valem a pena se há um objetivo, uma compensação. Senão deixa de ser sacrifício pra virar desperdício, e pra mim desperdcio é sinônimo de imbecilidade. Como estou longe de ser imbecil, vou-me embora. Vim, como muitas outras brasileiras educadíssimas, pra curtir uma história de amor. A minha história acabou, e com isso acabaram também as minhas razões pra ficar nesse fim de mundo. A Umbria é pequena demais pra mim, não tem mais nada a me oferecer. Vou ficar fazendo o que aqui, jogando fora a minha juventude, a educação que meus pais me deram, meu céLebro brilhante, vou jogar fora tudo isso numa cidadezinha onde nada acontece, em um emprego chatíssimo, com um chefe que eu desprezo profundamente? Se eu ainda estivesse em Roma, ou Firenze, ou Bologna, ou qualquer outra cidade animada, cheia de gente diferente na rua, cheia de opções de lazer ou cultura, se eu tivesse um emprego muito legal, um chefe super interessante que me ensinasse taaaaaantas coisas, provavelmente não pensaria em voltar. Mas não é absolutamente o caso. Regredi. Saí do conforto do meu lar pra ir parar num buraco onde nada acontece, onde vivo sozinha e faço sozinha todas as refeições, a menos que chame alguém pra jantar em casa, não tenho carro, a bicicleta que uso não é minha, nao tenho TV nem telefone fixo nem computador nem internet. Regredi! Então chega, chega de andar pra trás! É hora de cortar o cabelo e voltar correndo pra casa. Assim que encontrar alguém pra ficar com o apartamento, é claro – o aviso prévio é de seis meses…

Eu gosto da Itália, e acho que um dia vou acabar voltando. Acho um país muito divertido, cheio de pessoas divertidas. Só sair na rua e ver aqueles italianos todos vaidosíssimos, montadíssimos, cheios de gel, de óculos abelhão, de calça justa, de olhar Cepacol, sempre gesticulando muito, batendo papo até enquanto dirigem lambreta, a gente já tem vontade de rir. Eles sabem se divertir, mas, ao contrário dos espanhóis, que segundo testemunho de amigos que moram na Espanha não querem saber de dureza, os italianos trabalham muito. Mas brincam, sacaneiam uns aos outros, cantam, comem bem, bebem idem. Claro que ainda são terceiro mundo em muitos aspectos – nos banheiros sem ralo e na frequência com a qual se lavam, no serviço bancário que é neanderthalesco, no quesito atendimento ao cliente em qualquer loja/banco/agência dos correios, nos correios que funcionam malíssimo; claro que há muitos defeitos – as cenouras que são nojentamente adocicadas, o limão que não é verde mas aquele abominável amarelo, o pão sem sal de todo o centro da Itália, a mania de comer lentilhas com molho de tomate, a mania de fumar em tudo que é lugar, enfim. Mas pombas, o paraíso nao existe, e home is where the heart is. Ou não?

Sábado eu e Leguinho tivemos uma experiência meio surreal, ou exotérica, como dizem os inguinorantes. Fomos correr de manhã cedo, mas tava uma neblina impressionante. Nunca tinha tido nenhuma experiência neblinal. Achei muito estranho correr em meio às brumas, com visibilidade baixa, uma umidade dolorida, um cheiro muito particular. Pra me sentir em Avalon só faltava a maluca da Viviane (e o lago, e os barquinhos, e os sinos do convento, e… não, não tinha NADA a ver com Avalon, mas enfim.).

**

Mas o mais surreal mesmo foi o Fabrizio o Louco me presenteando com uma trufa negra, que custa tipo 500 dólares por quilo, ou mais. Não entendi, mas também não recusei. Repassei a bichinha pro Ettore e pra Arianna. Gosto de trufa, mas ultimamente tenho um eterno sabor de nada na boca, não sinto gostos, nada me agrada ou satisfaz, então em vez de desperdiçar a preciosidade, a dei a quem sabe apreciá-la. Fiz o mesmo com a porchetta que o Ettore me trouxe ontem: dei de presente à Carmen. Porchetta feita em casa é boa demais, mas não me sobrou serotonina nenhuma, estou incapaz de apreciar. Carmen ficou toda boba : )

**

E ontem foi um outro dia estranho. Foi o dia da Marcha pela Paz; um monte de gente que veio a pé de Perugia até Assis, fazendo a maior bagunça e sujando tudo, como em toda manifestação boba que não leva a nada. A mala da mulher do Fabrizio veio nos pegar, a mim e a Carmen, lá pro meio-dia, porque de ônibus não rolava, já que os horários foram todos alterados e sozinhas não chegaríamos jamais a Assis. Fabrizio foi embora logo que chegamos, entao ficamos eu, Claudia e Carmen trabalhando sozinhas. Sem ele trabalhamos muito melhor, sem stress; e de fato o faturado do dia foi o mais alto dos últimos meses. Tinha muito americano passeando, e normalmente gastam muito, compram muito azeite e vinhos caros.

A loja fica na Piazza del Comune, e o prédio do lado oposto da praça é a Pinacoteca Comunale, onde de vez em quando rolam mostras, exposições, etc. No sábado tinha vindo à loja cumprimentar o Fabrizio o fotógrafo da mostra que está rolando agora na Pinacoteca. É um senhor que faz fotos bonitas, mas na minha opinião coloridas demais, em lugares como Burundi, Mali e outras coisas estranhas. Ontem ele passou na loja de novo, quando o patrão já tinha ido embora, e nos convidou a ir ver as fotografias. Fui eu só, e ele ficou horas me explicando tudo; grudou no meu pé e não largava mais. Fez questão de me fotografar, eu com cara de choro (minha prima já tinha me ligado e eu já tinha chorado rios), sem vontade de ajeitar nem a alça do sutiã, que provavelmente apareceu na foto, sempre gorda, embora ultimamente tenha perdido já uns 7 quilos, e ele me fotografando. Sábado vou ver como ficaram as fotos. Ainda me deu uns textos pra traduzir, umas explicações sobre as fotos que ele pretende distribuir aos turistas estrangeiros que entram pra ver a mostra, que tem entrada franca. No final das contas ainda me convidou pra jantar, a múmia. É mole? Tudo bem que depois da experiência lanterneirídica preciso de um homem maduro, mas não caído do galho já…

**

Hoje pro almoço, já que estou precisando de uma carninha, vou fazer tagliatelle alla zingara, mas com linguiça em vez de bacon. Uso tagliatelle feitas de massa com ovo. Tiro a pele da linguiça, refogo com alho e pimeita-do-reino como se fosse carne moída, corto em tirinhas (ou em fiammiferi, palitos de fósforo, como se diz aqui) umas cenouras, e cozinho levemente as bichinhas com espinafre nesse refogado linguiçal. Massa al dente, saltata in padella, queijo parmesão por cima. Pronto.

Sábado eu e Leguinho tivemos uma experiência meio surreal, ou exotérica, como dizem os inguinorantes. Fomos correr de manhã cedo, mas tava uma neblina impressionante. Nunca tinha tido nenhuma experiência neblinal. Achei muito estranho correr em meio às brumas, com visibilidade baixa, uma umidade dolorida, um cheiro muito particular. Pra me sentir em Avalon só faltava a maluca da Viviane (e o lago, e os barquinhos, e os sinos do convento, e… não, não tinha NADA a ver com Avalon, mas enfim.).

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Mas o mais surreal mesmo foi o Fabrizio o Louco me presenteando com uma trufa negra, que custa tipo 500 dólares por quilo, ou mais. Não entendi, mas também não recusei. Repassei a bichinha pro Ettore e pra Arianna. Gosto de trufa, mas ultimamente tenho um eterno sabor de nada na boca, não sinto gostos, nada me agrada ou satisfaz, então em vez de desperdiçar a preciosidade, a dei a quem sabe apreciá-la. Fiz o mesmo com a porchetta que o Ettore me trouxe ontem: dei de presente à Carmen. Porchetta feita em casa é boa demais, mas não me sobrou serotonina nenhuma, estou incapaz de apreciar. Carmen ficou toda boba : )

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E ontem foi um outro dia estranho. Foi o dia da Marcha pela Paz; um monte de gente que veio a pé de Perugia até Assis, fazendo a maior bagunça e sujando tudo, como em toda manifestação boba que não leva a nada. A mala da mulher do Fabrizio veio nos pegar, a mim e a Carmen, lá pro meio-dia, porque de ônibus não rolava, já que os horários foram todos alterados e sozinhas não chegaríamos jamais a Assis. Fabrizio foi embora logo que chegamos, entao ficamos eu, Claudia e Carmen trabalhando sozinhas. Sem ele trabalhamos muito melhor, sem stress; e de fato o faturado do dia foi o mais alto dos últimos meses. Tinha muito americano passeando, e normalmente gastam muito, compram muito azeite e vinhos caros.

A loja fica na Piazza del Comune, e o prédio do lado oposto da praça é a Pinacoteca Comunale, onde de vez em quando rolam mostras, exposições, etc. No sábado tinha vindo à loja cumprimentar o Fabrizio o fotógrafo da mostra que está rolando agora na Pinacoteca. É um senhor que faz fotos bonitas, mas na minha opinião coloridas demais, em lugares como Burundi, Mali e outras coisas estranhas. Ontem ele passou na loja de novo, quando o patrão já tinha ido embora, e nos convidou a ir ver as fotografias. Fui eu só, e ele ficou horas me explicando tudo; grudou no meu pé e não largava mais. Fez questão de me fotografar, eu com cara de choro (minha prima já tinha me ligado e eu já tinha chorado rios), sem vontade de ajeitar nem a alça do sutiã, que provavelmente apareceu na foto, sempre gorda, embora ultimamente tenha perdido já uns 7 quilos, e ele me fotografando. Sábado vou ver como ficaram as fotos. Ainda me deu uns textos pra traduzir, umas explicações sobre as fotos que ele pretende distribuir aos turistas estrangeiros que entram pra ver a mostra, que tem entrada franca. No final das contas ainda me convidou pra jantar, a múmia. É mole? Tudo bem que depois da experiência lanterneirídica preciso de um homem maduro, mas não caído do galho já…

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Hoje pro almoço, já que estou precisando de uma carninha, vou fazer tagliatelle alla zingara, mas com linguiça em vez de bacon. Uso tagliatelle feitas de massa com ovo. Tiro a pele da linguiça, refogo com alho e pimeita-do-reino como se fosse carne moída, corto em tirinhas (ou em fiammiferi, palitos de fósforo, como se diz aqui) umas cenouras, e cozinho levemente as bichinhas com espinafre nesse refogado linguiçal. Massa al dente, saltata in padella, queijo parmesão por cima. Pronto.

Post cachorro-filosófico

A única parte da minha vida que não mudou nada aqui na Italia é o Legolas. Mesmo depois de tanto tempo na casa da Carol, lá no Rio, e depois de todos esses meses na casa da Arianna, aqui na roça em Santa Maria degli Angeli, ele não perdeu nenhuma das suas manias. Me acorda em torno das seis e meia sempre do mesmo jeito: senta ao lado da cama e fica me encarando. Eu me finjo de morta; ele começa a respirar forte, fazendo barulho. Eu continuo de olhos fechados, morrendo de vontade de rir, e ele começa a abanar o rabo. Continuo quieta, e ele finalmente me dá uma nada sutil patada no braço, e aí não tem jeito, tenho que levantar.

Nada mudou na nossa rotina, mas mesmo assim ainda me espanto com a facilidade com a qual ele entende as coisas, memoriza percursos, assimila hábitos. Depois de um aquecimento rápido vamos caminhando através do parque, pegamos a rua Vietnam, e é só a gente virar na estrada transversal por onde corremos sempre, e ele já começa a acelerar, olhando pra minha cara, as orelhas saltitando. Quando nos aproximamos de casa ele começa a se agitar; quando chegamos se deita no capacho do lado de fora e fica quietinho lá no sol, enquanto eu dou uma varrida na casa. Quando volto do trabalho, na hora do almoço, ele vem com a cara toda amassada de sono e um tênis na boca (nem sapato nem chinelo, sempre tênis, sabe-se lá por quê). Quando cruzo os talheres ele sabe que eu acabei de comer e logo vou levá-lo pra sair, então é só ouvir o barulho do garfo e da faca sobre o prato que ele levanta todo animadinho, doido pra dar uma volta. Ou então se estou no telefone, é só ele ouvir um “então, tá…”, ou então “um beijo!”, ou ainda “allora ci sentiamo dopo”, que sabe que acabei a conversa e posso voltar a dar-lhe atenção, e já começa a se agitar.

A infantilidade dos cachorros me encanta : )

Mas aí entramos na questã principal dessa história: é impressionante a capacidade que algumas pessoas têm de passar batido pela vida, sem olhar pros lados, sem observar, sem aprender nada. Outro dia estava com Leguinho no parque em frente de casa quando passa a minha vizinha de cima, a que tem o jardim no final do edifício (o apartamento dela equivale a dois apartamentos do andar térreo, onde eu moro, e ela ainda tem o jardim no térreo ao final do lado esquerdo). Ela vai caminhar todo dia de manhã com a Nina, insuportável basset velha e chatíssima, infernal latidora que faz um escândalo quando passo com o Legolas em frente à grade do jardim. Leguinho foi lá cheirar a cachorra – normal, cachorros se saúdam. A mulher não só não me reconheceu (nem a mim, nem ao Legolas, e olha que nem eu nem ele costumamos passar inobservados em terras italianas), como ainda botou a cachorra, que a essas alturas já estava latindo como uma doida e avançando no Legolas com a petulância que só os microcães têm, protetivamente no colo. Isso porque o Legolas nem encostou nela; cachorros pequenos são, pra ele, mera curiosidade e pouco dignos de interesse. A vizinha pediu pra eu afastá-lo porque a Nina estava com medo dele. Tipo, hello? Você tem cachorro há anos (a Nina é bem velhinha) e mesmo assim não entende NADA do assunto? Não sabe que macho e fêmea não brigam, e quando brigam é a fêmea que bota o macho pra correr? Não conhece nada de raças, não sabe que labrador, depois do tatu-bola, é o bicho mais bobão do mundo? Nunca viu meu cachorro na rua comigo, brincando com as crianças que saem da creche na hora do almoço, com velhinhos que passam de bengala e param pra dar bom dia bem embaixo da janela dela?

Imediatamente lembrei de uma coisa que muito me surpreendeu, ano passado. Tudo bem, eu sempre fui espertinha, além da média; sempre tive o hábito de reparar em tudo, perguntar tudo, querer entender tudo, de ler tudo, de fazer comparações com coisas já vistas ou ouvidas, de extrapolar, de aprender. Mas hoje em dia entendo que eu não sou tãaaao acima da média assim, ou melhor, não sou tão fenomenal assim – é a média é que é baixa. Porque as pessoas simplesmente NÃO OLHAM o que há ao redor. São incapazes de assimilar, de comparar, de aprender. Ano passado, antes de voltar pra Itália, dei aula de Inglês pra uma turma muito, digamos, complicada. Todos adolescentes, sem saber uma palavra de Inglês (o que, sejamos sinceros, já é muito estranho. Não saber NENHUMA palavra de Inglês, nos dias de hoje? Meninos e meninas da classe média baixa? Mas nenhuminha mesmo, nem good morning?). Um dia boto no quadro, como introdução a vocabulário novo, a palavra hard. Entre os alunos, dois com camiseta do Hard Rock Cafe. Pois não é que me olharam TODOS como se nunca tivessem visto a palavra na vida? Ainda perguntei, mas vocês realmente nunca viram essa palavra escrita em lugar nenhum? Não. Fiquei chocada. Como é possível um ser humano passar tão incólume pela vida? Como é possivel ignorar coisas que nos são bombardeadas todo dia, o tempo todo? Como é possivel uma pessoa ter um cachorro e não entender NADA de cachorro? Como é possível uma pessoa ter um videocassete em casa e não saber nem ligá-lo? Como é possivel alguém comer um prato particularmente gostoso e não querer saber que ingredientes leva? Como é possivel alguém usar uma camiseta e não ter a mais longínqua idéia do que está escrito nela?

Sou eu que sou maluca?

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Coisas a incluir na lista de coisas que deveriam ser proibidas, junto com dente de ouro: malhar/correr/caminhar com tênis sem meia (sinto o chulé fúngico só de pensar, as micoses borbulhantes, todos os funguinhos fazendo festa no suor, aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah), malhar de cabelo solto, malhar maquiada, malhar de argolona nas orelhas. Muito dedo no olho pra essas criaturas.

freddo

Hoje estou dando uma de responsavel de RH, fazendo entrevista e analisando candidatos.

Hoje também estou dando adeus oficialmente aos meus dedos dos pés. De hoje em diante, até o proximo verao europeu ou até eu voltar pro Rio (o que vier primeiro), soh vamos nos ver no chuveiro. O frio chegou de vez; hoje foi um dia lindissimo, de céu muito azul e poucas nuvens flutuantes, mas aquele ar frio que nao engana: alegria de pobre dura pouco, o outono virou irmao gemeo do inverno, tah frio mesmo e o negocio é tirar as meias e as botas do armario. Tchau, dedinhos.

Essa noite sonhei que tinha ganho 20.000 dólares jogando paciência numa slot machine em uma casa de bingo. A coisa foi meio estranha porque, 1) eu estando na Itália deveria ganhar em euros, e não em dólares, 2) não sei se tem paciência em casa de bingo, e 3) eu jamaaaais frequentaria uma casa de bingo; acho jogos de azar a coisa mais ridícula já inventada pelo homem, depois da tanga fio-dental, e tenho pena de quem perde tempo com essas coisas. Mas foi um sonho bem legal. Acordei antes de decidir se ia pras ilhas Cayman abrir uma conta ou se enfrentava os pesados impostos italianos, que me comeriam 6.000 dos meus 20.000 dólares. Vou interpretar o sonho como um sinal do universo de que o carro do atum é meu e ninguém tasca.

Hoje vim sem maquiagem. Marcinha, padroeira dos brasileiros expatriados, me mandou umas revistas com umas fotos do Rio, que devem chegar hoje aqui no escritório. Como não consigo ficar olhando pra um pacote sem abrir, sei que vou abrir, olhar e chorar, e pra não incluir borrar nessa lista de verbos, vim com a cara limpa, acqua e sapone, como se diz aqui.

Essa noite sonhei que tinha ganho 20.000 dólares jogando paciência numa slot machine em uma casa de bingo. A coisa foi meio estranha porque, 1) eu estando na Itália deveria ganhar em euros, e não em dólares, 2) não sei se tem paciência em casa de bingo, e 3) eu jamaaaais frequentaria uma casa de bingo; acho jogos de azar a coisa mais ridícula já inventada pelo homem, depois da tanga fio-dental, e tenho pena de quem perde tempo com essas coisas. Mas foi um sonho bem legal. Acordei antes de decidir se ia pras ilhas Cayman abrir uma conta ou se enfrentava os pesados impostos italianos, que me comeriam 6.000 dos meus 20.000 dólares. Vou interpretar o sonho como um sinal do universo de que o carro do atum é meu e ninguém tasca.

Hoje vim sem maquiagem. Marcinha, padroeira dos brasileiros expatriados, me mandou umas revistas com umas fotos do Rio, que devem chegar hoje aqui no escritório. Como não consigo ficar olhando pra um pacote sem abrir, sei que vou abrir, olhar e chorar, e pra não incluir borrar nessa lista de verbos, vim com a cara limpa, acqua e sapone, como se diz aqui.

Ontem tinha tudo pra ser um dia chato. Chuva, vento gelado… Levei o Leguinho ao parque de manha bem cedo, mas voltamos pra casa quando começou a chover. Dormi de novo até umas dez, quando o Ettore telefonou dizendo que passava lah em casa pra visitar o meu furadissimo cachorro, que alias nao estah mais furado, jah se formou a casquinha sobre o machucado e ele estah otimo, lindo e espetacular como sempre. Ficamos batendo papo até uma e meia da tarde! Ele acabou levando o Leguinho pra casa, eu almocei rapidinho e FeRnanda, Fabiao, a irma da Fernanda e o namorado, e mais a tia solteirona do Fabiao com o cachorrinho mala dela passaram pra me pegar. Sabado foi dia de S. Francesco e ontem teve feirinha na praça em Assis. Demos algumas voltas, mas tava chovendo moooito e ventando mooooito frio, eu totalmente Jade protegendo meus cabelos da chuva com uma echarpe, e às quatro fui trabalhar. Fabrizio o Louco nao estava (ele diz que Deus o manda ficar em casa com a familia nos domingos e nos deixa em paz trabalhando sozinhas na loja); bati papo com a Claudia e a Carmen, demos muita risada, Claudia foi embora e ficamos nos duas ralando. Mais tarde chegaram Samuele e Massimo, duas figuras de Città di Castello (a uma meia hora daqui) que foram comer na loja uma vez e desde entao voltam todo domingo pra comer e paquerar a Carmen. Mais risadas; fechamos a loja às oito e meia e fomos tomar uma caipiroska num bar tabajara em Santa Maria. Rimos muito, brindamos muito ao meu carro do concurso do atum, tomamos sorvete. Cheguei em casa antes das onze, Ettore foi levar o Leguinho lah em casa, dormi, acordei à uma e meia pra dar antibiotico pro negao, dormi de novo, no friinho, embaixo do meu super edredom de pena de ganso. Sonhei com o Rio a noite toda.

E’ hora de cortar o cabelo de novo. E’ hora de voltar pra casa.

Nao estou bem.