O engraçado é que não

O engraçado é que não sinto falta dele, mas do que eu sentia por ele. Tem cura isso?

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Sexta-feira à tarde Ettore passou pra pegar o Legolas. Depois veio Massimo, fomos tomar um Bailey’s no Suggestum, pub de Bastia. E depois fomos ao cinema ver aquele filme ridículo com George Clooney e Catherine Zeta-Jones. Fazia tempo que não via um filme tão horripilantemente idiota quanto esse. Depois demos uma rodadinha básica em Assis, mas quando comecei a bocejar ele entendeu e foi me deixar em casa. Dormi como um anjo.

Aproveitando que sábado de manhã não trabalhamos, fiz uma super faxina na casa, almocei risoto de abobrinha com salmão, dei uma dormidinha básica, e lá pras duas e meia fiz a costumeira caminhada a S. Maria pra pegar o ônibus. O trabalho na loja foi ridículo, ainda mais depois que começou a chover a cântaros. Ninguém na rua, poucos clientes, fechamos às oito, os pais da Carmen vieram nos pegar, fui pra casa, tomei meu banhinho e dormi.

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Mental note n. 1: salmão em lata Coop nunca mais. Já que é pra ser enlatado que custa menos e dá muito menos trabalho, que pelo menos seja de uma marca boa.
Mental note n. 2: uma xícara de arroz dá risoto pra uma semana. Menos de meia xícara tá mais que bom.

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Domingo acordei lépida e fagueira. Botei roupa pra lavar, estendi roupa lavada, passei creminho no cabelo ruim, troquei a roupa de cama, e quando já estava toda pronta vestida linda cheirosa sentada na cadeira da sala lendo Tolkien com o sol batendo nas costas (o dia tava lindo), me liga a Claudia da loja mandando eu ir trabalhar à uma em vez das quatro. Beleza, pra mim quebra dois galhos: ganho mais porque trabalho mais, e não fico em casa de bobeira me entediando. Lá fui eu pra S. Maria pegar o ônibus. Quem dirigia era o Moreno, amigo do lanterneiro. Tivemos uma longa conversa, muito produtiva e esclarecedora, e sobretudo fiquei muito aliviada depois, já que provavelmente nenhum dos amigos dele conhecia a MINHA versão da história. Fora que o Moreno é um cara muito legal e equilibrado (e provavelmente é por isso que o lanterneiro não sai mais com ele, preferindo amigos mais, digamos, testa di cazzo).

O trabalho na loja foi light, comparando com o 2 de novembro do ano passado, que foi uma canseira só. Quando fechamos, o fotógrafo da mostra em frente, que já me adotou e quer que eu vá pra Padova fazer uma especialização (a faculdade de Medicina deles é uma das melhores do país, e a cidade é famosa por isso; Padova é a cidade dos gran dottori) me convidou pra jantar frutos do mar, e lá fomos nás, jantar no restaurante La Lanterna. O dono do restaurante, que também é dono do maior nariz do mundo, é muito simpático e nos entupiu de comida. Menos mal que era tudo light, saladinhas, camarões grelhados, mariscos vários, etc.

Aí o Zuin me fez a seguinte proposta: vamos à Australia comigo? Eu tiro as fotos, você faz as vezes de intérprete e escreve um texto. Publicamos um livro, você tem o direito dos textos e eu das fotos. Topas? Respondi dizendo que não me chamasse duas vezes, que eu topava, hein?

Uhu!

Sexta-feira é dia de chocolate

Sexta-feira é dia de chocolate quente. O lindão tatuado que recarrega as vending machines vem sempre às sextas-feiras, e nos dá sempre uma bebida de cortesia. Chocolate quente pra mim, café pra menina da calça dourada, chá pra Martinha. Já sabe de cor o gosto de cada uma e toda sexta-feira é esse mimo.

Aí a menina da calça dourada foi RP de uma boate famosa aqui da zona e vive sempre cheia de panfleto pra entrar com desconto. Visto que a Martinha encalhou de novo, a menina foi lá sondar com o gatão tatuado, assim como quem não quer nada, perguntando se ele queria um panfleto a mais pra namorada, sei lá… Enfim, perguntinhas totalmente inocentes. Ele respondeu que não tem namorada, mas que amanhã provavelmente trabalha numa outra boate, como leão de chácara (que em italiano se chama buttafuori, literalmente bota-fora). Ui.

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FeRnanda e Fabiao vieram jantar ontem. Detonaram o arroz com feijão, sobrou só um tiquinho. Ainda trouxeram vinho (Santa Caterina e Poggio Belvedere Caprai), bistecas e biscoitinhos pra sobremesa. Comi também, e bastante, e hoje acordei com dor de barriga outra vez. Mula.

E estou morrendo de vontade de dançar, mas nesse domingo a boate onde rola música gay fecha porque no dia dos mortos não se dança, etc etc. Peguei uns panfletinhos com a garota da calça dourada, mas já fui a essa boate algumas vezes e não gostei. Mas pode ser que role, sei lá. Tô precisando me enfeitar um pouco e dar umas peruadas por aí.

uhuuu

O jantar foi um verdadeiro su (abreviação de sucesso). Comeram pra caramba, repetiram, Samuele trouxe 8 barras de chocolate Perugina compradas na Eurochocolate que terminou domingo passado*, a biruta da Bettina cantou e tocou violão (tem uma voz linda, pena que praticamente só canta música religiosa), tomamos champagne que o Massimo trouxe, a torta de limão foi embora que é uma beleza, todo mundo quis levar o Legolas pra passear, depois começou a chover forte, trovões e raios, Legolas no canto entre a máquina de lavar e a tábua de passar escondido com medo, muita conversa, Skank no CD player, meia-noite e meia foi todo mundo embora e fui dormir.

Adoro cozinhar assim pra um monte de gente. Mas confesso que depois de uma certa hora começo a me irritar. Durmo com as galinhas e ter gente batendo papo até tarde em casa vai me dando um nervoso, fico querendo que todo mundo vá embora logo pra eu poder tomar meu banhinho, tirar a maquiagem, passar meu creminho nos pés, botar minhas meinhas de lã e dormir.

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O tempo está uma bosta. Chove sem parar. Quem sofre é o coitado do Legolas, que mal pode botar o focinho pra fora de casa. Eu também sofro, porque como tenho que fazer tudo a pé, acabo sempre molhando os pezinhos, que ficam gelados. Pra não falar do cabelo, que com toda essa umidade fica uma porcaria.

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A menina da calça dourada agora também tem casaco prateado, no melhor estilo NASA. Ela tem o péssimo hábito de ler em voz alta tudo que chega via fax ou e-mail ou carta. Lê inclusive coisas que já sabemos, e continua lendo mesmo quando alguém diz que já leu, que já sabe o que é, que já resolveu, que pode até jogar fora. O que será que leva uma pessoa a ser assim?

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Estou me preparando psicologicamente pro próximo fim de semana. No ano passado 2 de novembro foi um feriadão, e a cidade lotou, quase enlouquecemos na loja de tanto fazer sanduíches e vender trufas. Esse ano não é feriado prolongado (que aqui se chama “ponte”) mas, considerando a importância que eles dão aqui a esse feriado, vai ser feia a coisa. Pra se ter uma idéia, não se casa em novembro, não se dao grandes festas, nem se pode escolher ou experimentar a roupa do casamento no mês de novembro (a Miss Almoxarifado e o Mister Toner aqui da empresa se casam no ano que vem e já estão vendo essas coisas, mas só vão poder experimentar as roupas em dezembro). Mas que atraso, vou te dizer…

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E a expressão italiana de hoje (embora mais adequada a ontem…) é:

Ma va a mori’ ammazzato! = literalmente, vai morrer de morte matada!

* O chocolate vai ficar ali no alto da geladeira, do lado do Toblerone intocado que papai me deu e que não tenho a menor vontade de comer. Hoje vou ver se a FeRnanda vem jantar lá em casa, pra ajudar a matar o feijão que sobrou, porque não sou eu quem vai comer. Excrusive já entendi que não posso mais comer essas coisas. Me dá náusea, enjôo e diarréia. Tenho que ficar no macarrão sem molho com coisinhas light tipo cenoura e atum, ou então no filé de merluzo com abobrinha que eu vou almoçar hoje, se estiver com vontade de comer/cozinhar. Fiquei praticamente alérgica a comida. Que lindo.

janta

E hoje é a noite do grande jantar brasileiro! Vocês sabem que eu não sou modesta, então lá vai: meu feijão ficou su-pim-pa. Resta saber se o povo vai gostar ou vai achar temperado demais, como sempre.

Não estou nem um pouco animada, principalmente, mas não somente, porque meu nariz continua tapado, e ontem no final da tarde me veio uma dor de cabeça de matar, rapidamente eliminada com um sachet de Spidufen (ibuprofeno em pó, faz efeito rapidinho). Fui jantar na casa da Marta; tinha torta al testo, e a essa altura do campeonato todo mundo sabe que eu amo torta, e quando fazem, me chamam hehehe Foi ótimo, batemos muito papo, a família dela é ótima. Hoje de manhã fiz a torta de limão, que agora está na geladeira esperando o momento final do jantar. Só falta o arroz e a farofa, que obviamente são melhores feitos na hora. Os pães de queijo vou deixar pra Carmen e a biruta da Bettina fazerem pra mim, porque tenho que lavar os cabelos e limpar a casa antes dos meninos chegarem. Não necessariamente nessa ordem.

Chegando em casa ontem, peguei o Legolas e fui dar um pulo na praça comprar mais meias, dessa vez compridas, pra usar com os mil pares de botas que eu tenho. Agora sou a feliz proprietaria de um par laranja, verde e bordeaux com alces, um outro xadrez em tons de laranja, um listrado em tons de rosa com uma menininha no alto, uma com listras azuis e um pinguim saltitante, e a vermelha e amarela com patinhos, que estou usando hoje. Uhu.

Aí me deu crise de tédio depois que cheguei em casa me sentindo o cocô do cavalo do bandido, e fui passar roupa. Passei até as fronhas, coisa que eu nunca faço – passar roupa é a tarefa doméstica mais odiosa do mundo, e normalmente o faço uma vez a cada 15 dias, porque lençol eu nao passo nem que a vaca tussa, e a maioria das minhas roupas é wash and wear. Só que a minha máquina de lavar, cortesia da Arianna, tem uma centrífuga que é um detonador de roupas. Sai tudo lá de dentro como se tivesse saído da boca do cachorro (não o meu cachorro, que o Legolas não tem o hábito de destruir coisas). Não posso mais deixar a bicha funcionando enquanto estou fora de casa, porque tenho que estar perto dela pra desligar a centrífuga depois de umas duas rodadas. Levei HORAS pra esticar uma camisa de gola alta que eu amo, mas que, coitadinha, tava que nem papel alumínio re-esticado depois de ser amassado em forma de bolinha, saca? Pelo menos passou o tempo. Ainda levei o Legolas de novo no parque, voltei, nem jantei nada porque não tava nem com fome nem com vontade de comer, tomei meu banhinho e fui mimir.

E hoje já estou beeem melhor. Minha técnica de beber muita água pra fluidificar as odiosas secreções parece que funcionou. Dormi com dois travesseiros e nem morri sufocada durante a noite. Acordei outra!

O dia está lindo, já cozinhei o feijão pra amanhã, agora só falta temperar; já estendi a roupa no varal, já varri a casa e passei pano, já bebi muita água, já escutei Rita Lee, já li tudo que é blog que eu não conseguia ler porque tinha sempre algum mala aqui dentro do escritório me enchendo. Hoje me recuso a ensacar cartuchos. Hoje não quero fazer nada de útil. Vou ligar pra meia dúzia de clientes e o resto do dia vou passar respondendo a e-mails, pra aproveitar que os chefes estão de bobeira em Firenze. Hohoho.

**

Ainda falando de cachorros. Outro dia a Carmen me dizia, muito espantada, como o Leguinho é educado, que nem me arrasta quando o levo pra passear. Espantada fico eu, quando alguém me diz uma asneira tipo “mas ele não me obedece!”. Ora bolas, só existe um dominado se existe um dominador. Se o cachorro não entende que o chefe não é ele, a culpa é do dono que se comporta como dominado. O Legolas é completamente alpha leader quando está com outros cachorros, mas dentro de casa o alpha leader sou eu, ora bolas. Quem manda no terreiro sou eu, e é ele que tem que me obedecer, ué. Muito simples o relacionamento. Eu digo, vai comer, ele vai. Vai dormir, vai, e ele vai, mesmo que a contragosto. Solta o tênis, e ele solta. Estamos no parque, eu estou congelando e decido voltar pra casa; basta chamar* e ele vem, enfia a cabeça sozinho na coleira, e vamos todos saltitantes pra casa. Só faltava essa, eu ter um cachorro tirânico! Tirana sou eu, eu, hein.

* Chamo assim: gatão, negão, cabrito, gostosão, maravilhosão, coisa preta, cachorrão, meu filho, garoto, menino, foca, zé mané, bestia nera, coisa linda, meu amor, filhinho, fedorentao. Sim, eu também canto pra ele enquanto andamos na rua, canto coisas muito profundas como “cachorro mais lindo do mundoooooo, você é fedorento mas é lindoooo, lalalalaaaaa, minha coisa preta gostosa e maravilhosaaaaaa”, e così via.

**

O mais chato de estar com o nariz entupido, além do óbvio desconforto causado pela dificuldade de respirar, é não sentir gosto de nada. Eu já andava meio sem paladar por conta da raiva constante e interminável, mas ontem realmente eu almocei macarrão sabor nada com molho de nada, queijo ralado sabor nada, e um copo de suco de nada. A parte boa foi que, pra não ir dormir de estômago vazio, comi uma maçã que o Fabrizio me deu no domingo (tinha uns stands da sociedade italiana contra a esclerose múltipla que vendiam sacos de maçãs, e ele obviamente comprou um saco, e deu um par de maçãs a cada uma de nós). Tenho a leve impressão de que a coitadinha tava azeda que só, até porque o Legolas cuspiu longe o pedaço que eu lhe dei. Ainda bem que não senti gosto de nada.

Chegando em casa ontem, peguei o Legolas e fui dar um pulo na praça comprar mais meias, dessa vez compridas, pra usar com os mil pares de botas que eu tenho. Agora sou a feliz proprietaria de um par laranja, verde e bordeaux com alces, um outro xadrez em tons de laranja, um listrado em tons de rosa com uma menininha no alto, uma com listras azuis e um pinguim saltitante, e a vermelha e amarela com patinhos, que estou usando hoje. Uhu.

Aí me deu crise de tédio depois que cheguei em casa me sentindo o cocô do cavalo do bandido, e fui passar roupa. Passei até as fronhas, coisa que eu nunca faço – passar roupa é a tarefa doméstica mais odiosa do mundo, e normalmente o faço uma vez a cada 15 dias, porque lençol eu nao passo nem que a vaca tussa, e a maioria das minhas roupas é wash and wear. Só que a minha máquina de lavar, cortesia da Arianna, tem uma centrífuga que é um detonador de roupas. Sai tudo lá de dentro como se tivesse saído da boca do cachorro (não o meu cachorro, que o Legolas não tem o hábito de destruir coisas). Não posso mais deixar a bicha funcionando enquanto estou fora de casa, porque tenho que estar perto dela pra desligar a centrífuga depois de umas duas rodadas. Levei HORAS pra esticar uma camisa de gola alta que eu amo, mas que, coitadinha, tava que nem papel alumínio re-esticado depois de ser amassado em forma de bolinha, saca? Pelo menos passou o tempo. Ainda levei o Legolas de novo no parque, voltei, nem jantei nada porque não tava nem com fome nem com vontade de comer, tomei meu banhinho e fui mimir.

E hoje já estou beeem melhor. Minha técnica de beber muita água pra fluidificar as odiosas secreções parece que funcionou. Dormi com dois travesseiros e nem morri sufocada durante a noite. Acordei outra!

O dia está lindo, já cozinhei o feijão pra amanhã, agora só falta temperar; já estendi a roupa no varal, já varri a casa e passei pano, já bebi muita água, já escutei Rita Lee, já li tudo que é blog que eu não conseguia ler porque tinha sempre algum mala aqui dentro do escritório me enchendo. Hoje me recuso a ensacar cartuchos. Hoje não quero fazer nada de útil. Vou ligar pra meia dúzia de clientes e o resto do dia vou passar respondendo a e-mails, pra aproveitar que os chefes estão de bobeira em Firenze. Hohoho.

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Ainda falando de cachorros. Outro dia a Carmen me dizia, muito espantada, como o Leguinho é educado, que nem me arrasta quando o levo pra passear. Espantada fico eu, quando alguém me diz uma asneira tipo “mas ele não me obedece!”. Ora bolas, só existe um dominado se existe um dominador. Se o cachorro não entende que o chefe não é ele, a culpa é do dono que se comporta como dominado. O Legolas é completamente alpha leader quando está com outros cachorros, mas dentro de casa o alpha leader sou eu, ora bolas. Quem manda no terreiro sou eu, e é ele que tem que me obedecer, ué. Muito simples o relacionamento. Eu digo, vai comer, ele vai. Vai dormir, vai, e ele vai, mesmo que a contragosto. Solta o tênis, e ele solta. Estamos no parque, eu estou congelando e decido voltar pra casa; basta chamar* e ele vem, enfia a cabeça sozinho na coleira, e vamos todos saltitantes pra casa. Só faltava essa, eu ter um cachorro tirânico! Tirana sou eu, eu, hein.

* Chamo assim: gatão, negão, cabrito, gostosão, maravilhosão, coisa preta, cachorrão, meu filho, garoto, menino, foca, zé mané, bestia nera, coisa linda, meu amor, filhinho, fedorentao. Sim, eu também canto pra ele enquanto andamos na rua, canto coisas muito profundas como “cachorro mais lindo do mundoooooo, você é fedorento mas é lindoooo, lalalalaaaaa, minha coisa preta gostosa e maravilhosaaaaaa”, e così via.

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O mais chato de estar com o nariz entupido, além do óbvio desconforto causado pela dificuldade de respirar, é não sentir gosto de nada. Eu já andava meio sem paladar por conta da raiva constante e interminável, mas ontem realmente eu almocei macarrão sabor nada com molho de nada, queijo ralado sabor nada, e um copo de suco de nada. A parte boa foi que, pra não ir dormir de estômago vazio, comi uma maçã que o Fabrizio me deu no domingo (tinha uns stands da sociedade italiana contra a esclerose múltipla que vendiam sacos de maçãs, e ele obviamente comprou um saco, e deu um par de maçãs a cada uma de nós). Tenho a leve impressão de que a coitadinha tava azeda que só, até porque o Legolas cuspiu longe o pedaço que eu lhe dei. Ainda bem que não senti gosto de nada.

Senta que o post é longo

O fim de semana foi OK. Sexta-feira o Ralph, o cão corso aqui do escritório, mordeu a batina de um padre que veio comprar cartuchos. Cachorro esperto! À noite fui jantar com o Samuele, que não conseguiu convencer a Carmen de nos acompanhar. Eu tava exausta e concordei em comer uma pizza, uma coisa rapidinha, mas o menino me chega de gravata pra me buscar! Eu semi-molamba, com jeans novos e suéter de lã normalzinho, mas não tive saco de mudar de roupa. Acabamos indo pro Bistrot, aquele do risoto ão (camarão, salmão e açafrão). Ainda comemos um secondo e a sobremesa, um tiramisù com creme de gianduia em vez de mascarpone. Nada de vinho porque ele é abstêmio. Conversamos, ele me explicou os detalhes da caça ao javali, eu falei pouco porque estava muito cansada e já sentia os primeiros sintomas do resfriado que agora chegou pra valer.

Sábado Martinha não trabalhou; vim pro escritório com o Stefano, que faz os cartuchos inkjet, e voltei com outro Stefano, o marido da microsarda. Só que em vez do horário costumeiro de sábado, das 9 ao meio-dia, trabalhamos das oito e meia à uma. E todo esse tempo passamos, todos nós, em pé, limpando, etiquetando, ensacando, encaixotando cartuchos. Minha hiperlordose agradece. Em casa almocei correndo, fui ao supermercado comprar a base da minha alimentação ultimamente (água mineral e leite desnatado), deixei o Legolas em casa e fui a pé até S. Maria pegar o ônibus pra Assis. No meio da tarde me liga a Ane, que estava comemorando um ano de casamento na Umbria, em Trevi, não muito longe daqui. Acabou vindo com o Alfredo me visitar na loja. Conheceu a figura que é o Fabrizio, viu a mostra do fotógrafo sem mão, batemos muito papo, compraram um molho de trufas e cogumelos, foi ótimo! É tão bom reencontrar gente legal e querida. Levantou meu astral. Depois trabalhei sozinha com o louco do Fabrizio das quatro às oito, fui pra casa, levei o Leguinho na rua, tomei banho e fui dormir.

Dormir uma vírgula! Passei a noite inteira no banheiro, vomitando sabe-se lá o quê, já que não tinha comido nada além do almoço (frango grelhado com abobrinha e cenoura) o dia inteiro. Uma dor de cabeça avassaladora, enjôo, dor nas costas, frio, tudo junto. Uma clássica noite de merda. E no domingo acordei, levei o Legolas no parquinho, botei roupa pra lavar, tomei banho e lavei os cabelinhos, varri a casa, liguei pro Ettore, que não podia vir pegar o Legolas porque ia colher cogumelos sabe-se lá onde, troquei de roupa e saímos, eu e Leguinho, em direção a S. Maria. Deixei-o na casa do Ettore com os outros cachorros, voltei pra Basilica pra pegar lugar pra sentar no ônibus e lá fui eu pra Assis de novo.

[Pausa para reflexão: na meia hora em que fiquei sentadinha no banco da praça esperando o buzão, contei cinco exemplares diferentes de Jaguar, 12 de Audi, 23 de BMW, 20 de Mercedes, vários modelos novos da Lancia. Entre outros.]

O problema é que as pessoas nao lêem, não olham, não observam, foi o que eu falei no post filosófico-cachorral. Se você quer ir pra estação e tem escrito outra coisa no ônibus, você não pega, certo? Pega o ônibus onde tem escrito “Stazione”, ou não? Não. Aí neguinho chega no meio do percurso, vê que o ônibus não está descendo o morro mas subindo, e entra em pânico pedindo pra descer porque senão perde o trem. Aí o motorista fica puto e pede pelamordedeus pro pessoal OLHAAAAAAARRRRRRRR as placas dos pontos de ônibus, e olhar o destino da linha, que fica piscando no alto do ônibus. O pessoal ainda erra o jeito de botar o bilhete na máquina pra “obliterar”. Tipo, se a maquininha tem que carimbar uma data e um horário no seu bilhete, e a maquininha engole o bilhete de todo mundo, faz trrrr-trrrr, depois cospe o bilhete com um beep!, e você bota o bilhete, a maquininha chupa o bichinho e o cospe com um biiiruuuubiiiruuuu, será que não dá pra perceber que você botou o bilhete do jeito errado? Não. E lá vai o motorista explicar pros passageiros mongos que o biiiiruuuuubiiiruuuu significa que a maquininha não carimbou o bilhete (coisa que dá pra saber simplesmente olhando o bilhete, lógico. Mas só vê quem olha, e a maioria não olha). Ontem o trânsito estava horrível, e o motorista estava particularmente irritado. Já chegou na Basilica di S. Maria com quase meia hora de atraso, de forma que quando chegou na parada principal, a de S. Francesco, já em Assis, o ônibus que vinha meia hora depois dele chegou praticamente junto. Aí dá-se a seguinte cena, impensável em qualquer outro pais mais sério e consequentemente menos divertido (leia-se Alemanha): o motorista desce do ônibus, e grita pro motorista do ônibus que vinha atrás:
– Andrea!!! Você tá subindo?
Deduz-se que o Andrea disse que sim, porque o nosso motorista subiu de novo no ônibus e gritou pra galera:
– Quem quiser ir pro ponto final desce e pega o outro ônibus, que esse aqui mudou de itinerário e vamos voltar pra estação!

Desce todo mundo do ônibus, um bando de senhoras inglesas distintíssimas que não estavam entendendo nada mas davam muita gargalhada, um outro bando de napolitanos mal educadíssimos, um monte de adolescentes, um punhado de freiras. Subimos no ônibus do Andrea, que aliás era um pedaço de mau caminho, e pronto, tutto a posto. No final das contas levei 50 minutos pra chegar em Assis, ao invés dos 15 minutos habituais. Chego na loja e tá rolando um furdúncio como nunca se viu! Claudia e Fabrizio desesperados fazendo uma média de 57,6 sanduíches por minuto, e ao mesmo tempo explicando pros clientes que o nosso molho de trufas é melhor porque no supermercado é misturado com pasta de anchova e de azeitona preta pra parecer que é trufa e o nosso é só trufa, e explicando que o salame coglione di mulo não é feito de colhão de mulo e sim de suíno, mas tem esse nome por causa do formato, e fazendo contas, e fazendo notas fiscais, e por aí vai. Resultado: trabalhamos feito loucas (porque depois o Fabrizio foi pra casa e nos deixou sozinhas, eu, Claudia e a louca da Bettina) até umas cinco, quando não havia mais uma migalha de pão de qualquer espécie, e eu e Claudinha almoçamos pão de hot-dog, que só sobrou porque eu separei, senão nem esse tinha sobrado, com capocollo e queijo – tuuuudo a ver. Capocollo, como todos os frios umbros, é muito temperado, e é mais gostoso com um pão mais simples, como o clássico pão umbro sem sal. Eu fui de presunto cozido mesmo e um queijinho básico, esquentei na chapa, virou um misto quente em pão fofinho, fiquei toda feliz.

E aí chegamos no ponto crucial: a louca da Bettina. Bettina é uma alemoa, que pra não fugir à regra é imensa, feia e super mal vestida, e graciosíssima como ela só, e só não é ranzinza porque é completamente biruta, e passa o tempo todo rindo sem motivo, como uma japonesa. É meio freira, tipo, não fez os votos mas os cumpre anyway, e vive em meio a rosários, beatificações e aparições de santos. E queria botar música religiosa no rádio da loja, a Claudia quase infartou quando soube, e cortou logo as asinhas da alemoa. Mas coitada, é biruta mas é um amor, muito bem intencionada, toda simpatiquinha. Largou um vida de pecado, segundo ela mesma diz, pra esposar-se com Jesus. Eu acho esse termo horrível, ser “noiva de Jesus”.

A coisa mais chata de gente que tem religião é a mania de catequisar. Essa é a diferença principal entre ateus e fiéis: ateu não perde tempo tentando convencer os outros de que Deus não existe, até porque, se pra ele não existe, qual é o sentido de discutir esse assunto? Mas os cristãos, nãaaaao, esses são todos meio jesuítas, uma encheção de saco. Bettina é assim; deve ter sido uma garota super interessante quando era pecadora, mas agora é só uma quarentona muito da chatinha. Ficou a tarde toda nos contando histórias da Bíblia, no seu jeito particular de falar, como se a história tivesse acontecido com amigos dela, ou como se fosse um filme muito maneiro ao qual ela tivesse assistido. E quando a história acabava, invariavelmente com final feliz, ela ficava toda empolgada, dando mil risadas, felicíssima. Deve ser ótimo ser bitolada assim. Pelo menos ela come de graça em tudo que é convento – e todo mundo sabe que em convento se come muitíssimo bem, primo, secondo, contorno, pane, dolce, frutta e caffè todo dia. Depois a Claudia foi embora e a Bettina ficou tentando me convencer a fazer um curso sobre amor humano (?!?!), ou então a ir à Iugoslávia (nesse frio!) num tal monte famoso onde N. Senhora teoricamente aparece todas as noites. Tô mais pra Paris, Bettina, respondi. É mole?

Cheguei em casa destruída. Passei uma outra noite do cão, aliás, sem cão, porque o Ettore só me trouxe o Leguinho de volta hoje de manhã. Passei a manhã toda ensacando cartuchos no almoxarifado, mas agora realmente não estou me aguentando em pé; já caminhei até a agência dos Correios pra depositar meu salário e pra mandar meus currículos, mal deu tempo de comer, tá um frio do cacete. Precisaria de uma semana de coma induzido pra descansar direito, sem falar língua nenhuma, sem falar com ninguém, sem mastigar, sem pensar, sem cachorro, sem influências externas, nada. Assim pra zerar totalmente o céLebro.

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Quarta-feira, jantar brasileiro em casa. Fiquei com pena da Bettina e chamei-a também. Vêm os castelanos (o engravatado Samuele já me trouxe o feijão preto e os limões verdes), Carmen, que acaba de terminar com o namorado e já está fazendo sua carteirinha do Clube das Infelizes no Amor, Claudia, vice-presidente do Clube. Menu: pão de queijo, arroz com feijão preto e farofa, nada de carne porque senão neguinho vai morrer de tanto comer. E de sobremesa a torta de limão da vovó. Os meninos estao curiosíssimos pra saber se além de linda e interessante, eu também sei cozinhar bem (palavras deles. Não tenho culpa de ser interessantíssima, o que me torna automaticamente bonita, mesmo que eu não seja bonita de verdade). Na geladeira tem duas cervejas que o finado lanterneiro deixou e eles vão ter que me ajudar a desencalhar, porque estão me incomodando ali, ocupando espaço. O Massimo me emprestou um aparelho de som, assim pelo menos tenho companhia durante o almoço, e vamos ouvir muita Marisa Monte e Rita Lee no jantar de quarta. Mas ele me fez um super favorzão: escuto meus CDs velhos que há séculos não ouvia, e escuto com calma os dois CDs que a Marcinha me mandou, eras atrás. Considerando a qualidade da TV italiana, acho que estou melhor com a música do que com a TV…

E a palavra italiana de hoje é…

Imbranato = burrinho. Exemplo: alguém a quem eu mando um formulario em 4 vias, com uma carta explicando DETALHADAMENTE que so precisa firmar em um campo, e que nos devem enviar a pagina rosa e a pagina azul, e esse alguém que me devolve todas as quatro paginas, sendo que so uma esta assinada, esse alguém é uma mula, ou seja, completamente imbranato.

blah

Que tempinho bunda! Uma chuva chata, um vento gelado, um saco!

Ontem eu e os meninos de Castello fomos tomar um vinho do Porto num barzinho de Bastia antes de ir ver a Claudia dançar música latino-americana no Country, boate in da metrópole bastiola. Falei tanto e dei tanta risada que hoje acordei com dor de garganta. Hoje eu e o Samuele, o grandão, vamos comer uma pizza em S. Maria (Massimo, o outro, que aliás anda dando umas zoidas aqui no blog, tem um jantar da torcida do Milan hoje e não pode vir). O Samuele tem um escritório de contabilidade com o pai, coisa que por aqui é muito comum e dá muito dinheiro; já lutou judô mas parou por causa do joelho que deu tilt, e faz um monte de strikes no boliche, as garrafas saem voando. Já eu, needless to say, perdi todas as partidas de boliche quarta-feira hehehe. O Massimo tem uma filial de um supermercado lá em Città di Castello. São dois amores! Pena que a monga da Carmem anda em crise de agitação porque amanhã parte pra Salerno rever o namorado, e em momentos assim pré-viagem fica insociável, e não foi nem ao boliche, nem hoje quer ir comer pizza. Chata.

Momento diarinho over.

Hoje preparei 40 currículos pra mandar pra escritórios de tradução no norte da Itália, mas como rolou greve geral (já comentei aqui o quanto os italianos adoram uma greve?) não deu pra botar as bichinhas no correio (e não vou mandar do fax do escritório que não sou boba). Amanhã elas partem pra Torino, Bologna, Milano, Varese, Bolzano, Udine, Genova, Roma é claaaaaro, entre outras. Vamos ver se rola alguma coisa. Acendam velinhas, plísi.