ganso

Ontem fomos jantar na festa de Bettona, a Sagra dell’Oca (festa do ganso). Bettona é uma cidade muito gostosinha, no alto de uma colina. Era uma das três cidades umbro-etruscas, juntamente com Todi e Civitella d’Arno, que foram cedidas à Etruria depois que etruscos e umbros entraram em acordo e usaram o rio Tevere pra marcar os limites entre os dois territórios.

No inverno Bettona é geladíssima, mas no verão é uma maravilha. Aqui embaixo, em S. Maria e em Bastia, tava um calor desgraçado, mas lá no alto soprava um vento fresco delicioso. Tive até que botar uma jaqueta. Enfim, fomos jantar na festa com Marco e Michela, nossos companheiros de sagra no domingo. Diferentemente da maioria das outras sagras, quando normalmente a festa é feita sob tendões armados em algum campo aberto na periferia da cidade, essa é na praça principal de Bettona, e totalmente a céu aberto. E eles também fazem um menu diferente a cada dia, enquanto que normalmente, nas outras sagras, o menu é praticamente fixo todos os dias, com um prato a menos ou a mais de vez em quando. Dá vontade de voltar todos os dias, pra experimentar pratos diferentes.

Claro que a estrela da festa é o ganso, presente nos primi (gnocchi e tagliatelle ao molho de carne de ganso, que eu ADORO) e nos secondi (ganso assado, ganso ensopado, espetinho de ganso), mas também tem as onipresentes torte al testo (a clássica com linguiça e verdura cozida, com presunto, com linguiça sozinha, com rúcola e queijo), carneiro em diversas preparações, javali, carne de porco, mil tipos de pasta. Ontem comi um risoto delicioso de radicchio e provolone, depois ensopadinho de javali acompanhado de torta al testo. Ficamos horas sentados à mesa, batendo papo e observando a gente que passava, as crianças que brincavam, os velhos que ajudam na cozinha, um ou outro turista, todo mundo aproveitando “il fresco”. Não tinha música alta, o barulho das conversas misturadas não era ensurdecedor porque se perdia no céu aberto, a comida estava ótima e os preços também eram bons, a piazza é lindinha, aaaaah… Una serata veramente piacevole.

chuveiro

Semana passada tive que comprar um chuveiro novo. Sempre culpa desse maldito calcário que está presente na água de toda a Itália central (tirando Roma, que tem fontes espalhadas pela cidade inteira, com água de ótima qualidade). Um porre, UM PORRE. Tudo que você lava fica manchado de branco: copos, talheres, a própria pia. Se você ferver água numa panela e depois deixar esfriar, se forma uma película branca na superfície da água, e a panela fica toda branca por dentro. Torneiras e canos entopem frequentemente. Há pastilhas anti-calcário no mercado pra proteger as partes e os encanamentos de máquinas de lavar louça e roupa. Pra limpar metais e louças do banheiro e da cozinha, tem que usar produtos anti-calcário que normalmente destroem as mãos se você não usar luvas de borracha.

A torneira do banheiro estava tão entupida de pedrinhas de calcário que a água saía em mil direções diferentes, e quando escovávamos os dentes ou lavávamos as mãos ficávamos todos molhados com a água que espirrava. Mirco trouxe da oficina um desincrostante superpower que ele usa pra limpar as pistolas de tinta, e que normalmente não ataca superfícies plásticas. Desaparafusei a torneira e deixei de molho no desincrostante. Mirco teve a idéia de aproveitar o ensejo pra botar o chuveiro de molho também, porque a situação já começava a ficar crítica. Deixamos tudo ali quietinho e fomos comer na Arianna. Quando voltamos, as partes de plástico preto do chuveiro tinham simplesmente dissolvido! No dia seguinte lá fui eu comprar o maldito chuveiro, que é ótimo. A água sai não diretamente dos furinhos, mas passa por minifunis de borracha, digamos assim. O cara da loja explicou que, em teoria, quando começar a acumular muito calcário basta passar a mão rapidamente sobre as borrachinhas que as pedrinhas saem. Vamos ver.

Fomos a Certaldo, na Toscana, pro casamento da Renata, irmã da FeRnanda, com o Stefano. Eles já tinham se casado no civil, no Brasil, e sábado fizeram a cerimônia religiosa e a festa. Foi tudo na casa de um primo do Stefano, em uma colina chamada Vico d’Elsa, e foi tudo lindo. Me diverti horrores, apesar do discman não ler os CDs que eu levei meses gravando. Se a Renata deixar eu boto umas fotos aqui.

Fomos a Certaldo, na Toscana, pro casamento da Renata, irmã da FeRnanda, com o Stefano. Eles já tinham se casado no civil, no Brasil, e sábado fizeram a cerimônia religiosa e a festa. Foi tudo na casa de um primo do Stefano, em uma colina chamada Vico d’Elsa, e foi tudo lindo. Me diverti horrores, apesar do discman não ler os CDs que eu levei meses gravando. Se a Renata deixar eu boto umas fotos aqui.

autolavaggio

Sempre adorei observar gente trabalhando. Desde pequena. Quando tinha obra lá em casa eu ficava horas olhando os peões lixando, cobrindo buracos com massa, preparando tinta, forrando o chão com jornal, pintando. Quando vinha alguém consertar alguma coisa eu sempre ficava prestando atenção no que estavam fazendo. Pura curiosidade mesmo; gosto de saber como as coisas são feitas, como são por dentro, por qual motivo se quebram.

Também gosto de observar os movimentos das pessoas; os seguros e mecânicos de quem já tem uma certa experiência, os titubeantes de quem ainda está no começo da estrada. Fico analisando quem é lento e quem é dinâmico (vocês sabem perfeitamente bem em qual categoria me encaixo), quem é burrinho e quem é mais esperto, quem é distraído e quem não deixa passar nada (pra quem não sabe, estou na categoria dos distraídos). Sempre aprendo alguma coisa. Hoje, enquanto observava o garoto que lavava o carro do Mirco, aprendi que a quantidade de caraca preta que se acumula nas rodas do carro é uma coisa impressionante.

Tem um lava-carros bem do lado da oficina do Mirco, em Torgiano. Não é posto de gasolina, é só lavagem mesmo, e normalmente o Mirco deixa o carro com eles de manhã e na hora do almoço o pega limpinho e cheiroso pra voltar pra casa pra comer. Mas eles são super lentos e nem sempre conseguem cumprir o horário, e quando isso acontece eu sou a encarregada de levar o carro pra lavar. E levo ao posto ERG de Santa Maria, perto da saída pra Foligno.

Como é normal por aqui, devem ser todos parentes, primos, amigos, conhecidos. Os que eu vejo sempre são a Mini-Loura e seu provável marido, Altão Antipaticão, e o Russo, provavelmente filho deles, um jovem muito muito muito louro de cara muito muito muito vermelha. Ele é super bonitinho e tem uma cara de cafajeste que não combina muito com suas cores angelicais. Hoje de manhã não quiseram lavar o carro porque a fila tava comprida demais, e voltei à tarde, cumprindo as ordens de Mini-Loura. A fila continuava enorme, mas ela me reconheceu e disse que lavava sim, coitada de mim, já tinha vindo de manha à toa… Larguei o carro num canto do posto e sentei numa das cadeiras de jardim, de plástico, que ficam na calçada pros clientes esperarem sentadinhos enquanto o carro não sai do banho. Quem manobrou meu carro foi um rapaz alto que eu nunca tinha visto, cara de abobado, e corte de cabelo muito anos 80 – digamos o Footloose. Foi direto pro outro canto do posto, onde um menino também desconhecido, de cabelo comprido, óculos e a maior cara de jogador de RPG, pilotava o aspirador de pó. Da minha cadeira encardida fiquei tentando entender o esquema de trabalho deles, mas depois de um tempo acabei desistindo. O sistema “cadeia de montagem” não existe, ou chegou mas já foi suplantado pelo clássico caos organizado que só os italianos conseguem entender. O único que não sai da sua posição é o Russo, até porque se ele parar, trava tudo. Ele faz a pré-lavagem, com uma pistola de sabão líquido e depois um jato forte de água que tira toda a caraca das rodas, da parte interna das portas, do pára-lama. Dali o carro segue pra clássica lavagem automática, com aqueles rolões estilo pom-pom. O tempo que ele tem pra pré-lavar o meu carro é exatamente o tempo que a máquina leva pra lavar a Lancia Y tinindo de nova que chegou antes de mim. Enquanto a máquina passa com o secador, um outro funcionário vem com um pedaço de couro, próprio pra enxugar carros. Eles têm uma máquina rudimentar pra secar os panos, aquela coisa de desenho animado, o pano passando entre dois rolos muito próximos entre si, que espremem toda a água. Depois alguém leva o carro pra outro canto, onde outro alguém passa um produto cheiroso no painel e sprays hidrorepelentes no pára-brisas.

E no meio disso tudo, sempre gente chegando pra botar gasolina, gente em lambreta querendo a famosa “mistura” de combustível, que é ilegal e ninguém nunca me explica o que é, gente que passa buzinando pra cumprimentar um dos meninos, gente que encosta só pra falar com o Footloose, gente que pára pra perguntar como se faz pra chegar em Cannara. Um sósia do meu irmão quando era mais novo corria pra lá e pra cá, sem saber se botava gasolina no carro velho da senhora ou se ajudava o cabeludo a enxugar a Lancia Y preta. Uma polaca botou só 2 euros de gasolina no carro, porque “benzina in Italia molto caro”. Uma menina novinha num carro super velho teve um ataque de riso porque não conseguia manobrar pra ir embora – depois nos explicou que tinha acabado de tirar a carteira. Um turista holandês não conseguia explicar pra onde queria ir e por isso foi embora de tanque cheio, mas sem destino.

Meu carro ficou pronto às cinco e meia da tarde. Àquela hora Mini-Loura já não aceitava mais carros pra lavar, e todo mundo parou pra dar uma respirada (e uma fumada também. Fumam TODOS. Ao lado da bomba de gasolina). Paguei os 13 euros e vim embora, ouvindo Live.

curtas

Minha conta de e-mail anda me dando furo outra vez. Como ando meio atolada aqui, entre brigadeiros e CDs pro casamento da Renata, documentos do Mirco pra organizar e casa pra cuidar, é até melhor assim, pelo menos não perco tempo pensando no que responder.

Como sempre, o problema resolver-se-á sozinho (linda mesóclise) dentro de alguns dias.

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Eu adoro frutos do mar, mas é um saco isso da cozinha ficar fedendo a peixe! E olha que eu só fiz um mero prato de spaghetti alle vongole e um merluzzo (meu dicionário tabajara diz que é bacalhau, mas eu me recuso a acreditar) cozido no vinho branco. Agora a casa tá cheirando a casebre de pescador de novela das sete.

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Encontrei o Chefe Idiota no posto de gasolina agora há pouco. Barba por fazer, cabelos ruins sem o gel que é a única coisa capaz de mantê-los no lugar, montado na sua ridícula moto BMW que ele só usa uma semana por ano. Pareceu genuinamente contente de me ver e interessado no meu bem-estar. Tive que fazer um certo esforço mandibular pra não sair destilando veneno pelos caninos. Que homem odioso! Pior que agora que me viu vai lembrar que o Mirco existe e o perrengue vai começar todo de novo, querem ver?

comendo fora

No verão os pais do Mirco sempre comem na varanda, ou então no terraço que eles fizeram no lugar onde ficava a pequena horta, que agora virou um hortão, transferido pra um pedaço de terreno atrás da casa que pertence à irmã do Ettore (o terreno, não a casa). Quando a Arianna faz pizza ou torta al testo sempre telefona pra convidar a gente pra comer lá. Ontem ela fez torta e lá fomos nós.

É uma delícia comer assim, a céu aberto. Tudo bem que os insetos são uns pentelhos, mas a gente finge que não percebe. Uma brisa fresca, se tivermos sorte, o relativo silêncio, os galos que cantam na hora mais errada do mundo, os coelhos que fazem barulho quando bebem água, os malditos ciganos que acamparam no estacionamento ao lado da casa e fazem uma muvuca danada. O presunto do Ettore tinha uma cor linda, mas o cheiro era exatamente igual ao emanado pelos cadáveres que dissequei no anatômico da Uni-Rio. Deixei pra lá, comi torta com ricota fresca.

Legolas jantou pepino e casca de melancia. Don’t ask.

nome e cognome

O assunto da semana aqui em Tonga é a talvez futura possibilidade da mãe poder passar o sobrenome aos filhos. Pois é, vejam que país avançadão que eu fui escolher pra morar. Aqui só o sobrenome dos pais passa adiante. Todo mundo é filho de pai solteiro hohoho Não, sério, sempre achei muito esquisita essa história, pra não falar de discriminatória. Catálogo telefônico é um outro mundo aqui. Adoro catálogos telefônicos, me divirto horrores não só com os sobrenomes bizarros, mas também com as relações familiares facilmente detectáveis, principalmente aqui, nas cidades pequenas.

Por exemplo: se eu procuro uma Tizia Rossi (traduzindo literalmente, Fulana da Silva) no Comune di Assisi, só vou achar o nome dela se ela morar sozinha, coisa pouco provável. Normalmente telefone, como todas os outros bens, ficam no nome do marido. Nesse caso é mais fácil perguntar a alguém do lugar com quem ela é casada, e procurar pelo sobrenome do marido. Ou então procurar outro Rossi que more na mesma rua. Muito provavelmente vai ser o pai ou um irmão, já que familiares tendem a arrumar casa pra morar na mesma rua do resto da família, e de preferência no mesmo terreno. É incrivelmente comum por aqui um filho construir um andar a mais na casa dos pais pra ir morar depois que casar. Ou então construir outra casa no mesmo terreno. Ou construir casas chamadas “plurifamiliari”, ou seja, que abrigam várias famílias – como se fosse um edifício de apartamentos de dimensões reduzidas, com no máximo quatro famílias. Dá pros pais, pros dois filhos depois que casarem, e pra família de um dos irmãos dos pais.

Mas então, o assunto da semana é o projeto de lei, ainda não aprovado, que fala da possibilidade da mãe poder, finalmente, passar seu sobrenome aos filhos. Os debates são animadíssimos, o que me faz dar altas gargalhadas. A vida aqui na Itália meio que se resume à frase rir pra não chorar. Acho tristíssimo que um país relativamente desenvolvido tenha chegado aos anos 2000 com essa discriminação ridícula, não importa a antiguidade desse costume. Os tempos mudam e o fato de que eles levem taaaaanto tempo pra assimilar novos costumes, mesmo que melhores do que os velhos costumes, às vezes me entristece, às vezes me diverte. Acho engraçadíssimo é que todo mundo esteja levando tão a sério a coisa da tradição, dos hábitos milenares, etcetera e tal. Eu sou a primeira a levantar o bracinho quando perguntam, tradição é uma coisa legal? Eu acho superlegal, acho que tem mais é que preservar mesmo, mas, por favor, né, só quando tem sentido. Tem sentido um sobrenome desaparecer se todas as filhas de uma geração forem mulheres? É o caso da Martinha, por exemplo, que trabalhou comigo no escritório do Chefe Idiota, lembram? Ela e a irmã são as únicas filhas dos pais delas. Quando casarem, os filhos delas terão só os sobrenomes dos maridos delas. O pai delas é filho único. Ou seja, o sobrenome delas vai deixar de existir. Não é só ridículo, é uma falta de respeito também. Pô, a mulher tem metade da culpa da criança existir, aturou aquela barriga por nove meses, pariu – pariu, gente, parto não é uma coisinha à toa não, né – e não tem direito a pôr a assinatura dela na obra-prima? Poupem-me.

Quero só ver quanto tempo vão levar pra aprovar essa lei.

socorro

Arrumando o escritório aqui de casa desencavei, de modo totalmente involuntário, umas velhas fitas dos Scorpions que o Mirco ouvia quando era adolescente magrelo e rebelde. Sim, Scorpions.

Pra quê. Agora sou obrigada a ficar ouvindo aquela mala do vocalista berrando, toda vez que saímos de carro. Maldita nostalgia.

ODEIO cantores homens que têm voz de mulher. Homem tem que ter voz de homem e mulher tem que ter voz de mulher, pô. Axl Rose talvez seja uma exceção.

hihihi

Tô atrasada com os e-mails, foi mal. Pior é que não posso nem inventar desculpa nenhuma, porque vocês tão carecas de saber que eu não tenho nada pra fazer da vida.

**

Pfaender, amigão de faculdade, futuro superurologista, que usou bigode falso de português na colação de grau e que ano que vem casa com a bendita Raquel, futura superginecologista, me mandou essa piada besta que eu adorei, exatamente porque é besta:

O cara se sentia muito sozinho e foi a um pet shop comprar um bichinho de estimação. Mas ele queria uma coisa diferente, original, em vez do beagle nosso de cada dia. Então ele vai e compra uma centopéia. Leva a centopéia pra casa na sua caixinha, felizão, e fica tão contente de ter uma nova amiga que resolve dar um pulo no bar pra tomar um choppinho básico. Claro que, sendo muito bem educado, ele convida a centopéia pra dar uns rolés com ele.

– Centopéia, quer ir tomar um choppinho comigo?

A centopéia nada.

– Ô Centopéia, vamo dar um pulo ali no boteco pra tomar um chopp, jogar uma conversa fora, hein?

A centopéia nem tchum.

– Centopéia, na boa, vamo, cara! Ô CENTOPÉIA! VAMO LÁ!

A centopéia responde, muito pau da vida:

– Eu já ouvi, porra, tô calçando os sapatos!