Decidi não comentar o episódio das agências de viagens de Turim e Palermo que levavam turistas italianos ridículos pra comer menininhas pobres e feias, aprendizes de caça-gringo, em Fortaleza. Realmente não há o que dizer. Prefiro ficar quieta.
Decidi não comentar o episódio das agências de viagens de Turim e Palermo que levavam turistas italianos ridículos pra comer menininhas pobres e feias, aprendizes de caça-gringo, em Fortaleza. Realmente não há o que dizer. Prefiro ficar quieta.
uia
A neblina pesada não vai embora há 48 horas. O dia INTEIROOOO perdidos no meio da névoa.
Já falei aqui que o único fenômeno meteorológico que eu abomino é o vento. A neblina não me incomoda; fora um pouquinho de melancolia, não me irrita nem me dá medo. As roupas secam numa boa é só botar o varal pra dentro à noite, quando ligamos o aquecimento. Também não sou sensível à umidade, por isso não reclamo. Mas esses últimos dias realmente têm sido de matar. Não dá pra ver NADA lá fora! Nem os pinheiros imensos que crescem nos jardins aqui atrás, nada. Só os globos de luz dos postes, que parecem flutuar num mar de gotículas de água gelada.
Pra dirigir à noite é um parto. De dia ainda dou um jeito, porque bem ou mal dá pra ver pelo menos um pouco pra que lado a estrada curva, e além disso todo mundo está com a mesma deficiência visual que eu. À noite a coisa muda de figura: eu já sou naturalmente fotofóbica, e odeio dirigir à noite porque não vejo bulhufas. Com névoa, então, fico mais cega que uma toupeira, e sou obrigada a dirigir em velocidade velhinho-em-calhambeque porque realmente não sou capaz de distinguir nem mesmo se estou na pista certa. A sinalização horizontal nessas estradas di campagna recebe pouca manutenção e a maior parte já se apagou com o tempo. Sem as faixas no asfalto, não sei se estou indo na direção certa, ou na pista certa, ou se estou pra cair no barranco ou se estou entrando no quintal de alguém em vez de estar virando na rua onde eu tenho que virar. Cada carro que passa com os faróis acesos me cega momentaneamente, e reduzo a marcha, com medo de ir parar sei lá onde. Levei meia hora pra voltar pra casa da escola hoje o dobro do tempo regulamentar. Vim em terceira marcha, como uma velha gagá cuja carteira de habilitação não poderá mais ser renovada porque os reflexos já perderam a validade. Mesmo o percurso mais conhecido, que já virou instintivo, torna-se difícil nessas condições. Os faróis dos carros que passam na superstrada, paralela a essa estrada por onde passo sempre, não ajudam. Não sei onde estou nem quanto falta pra chegar em casa. Depois da Metro, última grande construção iluminada antes de chegar aqui, é escuridão total. Que parto!
Cheguei em casa com o coração batendo forte e a testa franzida de tanto me concentrar pra não voar pra fora da estrada.
E agora é sopinha de legumes e toca pra estrada de novo, pro cinema em Perugia, ver Closer (já me disseram que é uma merda, mas o Moreno cismou que quer ver, e ele está de tornozelo torcido, coitado, vamos fazer a vontade do menino).
Meu e-mail anda estranho e nao deixa eu enviar mensagens.
Meu e-mail anda estranho e nao deixa eu enviar mensagens.
cabeça-de-porco
A escola de línguas onde eu dou aula fica em Ponte San Giovanni, que seria basicamente um subúrbio afastado da parte baixa de Perugia. É uma merda de cidade, feia, nova, sem centro histórico, e principalmente cheia de imigrantes feios, pobres e mal vestidos que não têm grana pra morar em Perugia, que é uma cidade cara, ou em outras cidadezinhas históricas ali em torno (como Bastia, Ospedalicchio, Santo Egidio, que são bonitinhas, tranqüilas e caras pouco atraentes pro imigrante) e se amontoam em apartamentos pequenos em cidades periféricas como Ponte San Giovanni. O prédio onde fica a escola é um pardieiro. Sabe aquele minhocão sobre o túnel Lagoa-Barra? É mais ou menos aquilo. No térreo há bares, lojas cafonas de roupas pra crianças, lojas de informática, papelarias, barbeiros. O complexo de prédios é imenso, espalhando-se por uma área considerável ao longo da centralíssima via della Scuola, e o número de apartamentos e salas por edifício é imenso. A escola de línguas fica no segundo andar do prédio mais badalado, porque embaixo fica o Roxy bar, ponto de referência básico em Ponte San Giovanni. No mesmo andar há escritórios de engenharia, de sindicatos, de administração de condomínios e de outras coisas estranhas, e muitos apartamentos residenciais. Não havendo espaço dentro pra colocar o varal, no verão a mulherada (marroquina, tunisiana, russa, colombiana, equatoriana, albanesa, romena) bota os varais no corredor externo mesmo, já que o prédio é um quadrado aberto no meio, onde deveria haver um jardim mas só tem mesmo um pedaço de gramado mal tratado e queimado pelo frio, e uns arbustos de plantas vira-latas. A gente sobe as escadas pra, sei lá, entregar um projeto pro engenheiro que aluga a sala onde damos aula e vê aqueles varais cheios de calcinhas coloridas penduradas. Lindo.
Há algumas semanas, quando cheguei pra dar aula de Português pra bichinha simpática (que cada vez fica menos simpática, a meu ver), vi uma motocicleta queimada, ainda fumegante, no corredor que leva a esse pseudojardim interno, por onde eu tenho que passar pra subir as escadas dos fundos. No chão, lajotas explodidas por causa do calor. O teto preto de fuligem até lá atrás, nas escadas. As janelas do bar, ao lado, e de um consultório médico, do outro lado do corredor, todas manchadas de preto. Elena, a secretária do curso, conta que iiiiih, vandalismo ali é coisa do dia-a-dia, volta e meia os Carabinieri tão lá na porta prendendo gente que fez coisa que não devia. Imagino que, à noite, quando os escritórios e lojas sérios fecham, o giro de prostituição e drogas por ali deve ser impressionante.
Não sei por quê, mas de repente me deu vontade de reler O Cortiço.
run, paca, run
Ontem, estranhamente, acordei com disposição e vontade de ir correr. Talvez porque o dia tenha amanhecido lindo, de céu azul, ar frio mas suportável (dez graus), seco. Eram nove e pouco quando desci, de calça de moletom, camisa de manga comprida e um moletom verde-escuro do Mickey. Virei à direita, passando em frente ao bar onde o Fabrizio o Louco vai passar o tempo depois do jantar, pra não ter que aturar a mulher insuportável e tão graciosa quanto um tanque de guerra. A minha rua, depois do bar, acaba na via Sofia (em Bastia, como em muitas outras cidades da Itália, muitas ruas têm nome de cidades ou países). Virando à esquerda caio na via Cipresso, que depois vira via Torgianese, porque vai a Torgiano. Virando à direita, vamos parar numa das muitas estradas di campagna que há por aqui estradinhas de roça mesmo, que passam por entre os campos, não são iluminadas nem têm acostamento e só exibem umas poucas casas, aqui e ali. Virando à direita vou na direção da fábrica de biscoitos Colussi, em Petrignano; à esquerda eventualmente vou parar numa paralela à superstrada que leva a Perugia. Faço sempre esse caminho pra ir trabalhar, porque essa paralela nunca tem engarrafamento, ao contrário da superstrada. Quando vou correr, em vez de pegar o pedaço de estrada que vai cair nessa paralela, vou pro outro lado, e quando a rua termina, em vez de virar à direita e ir subindo a colina onde fica Brufa, viro à esquerda, basicamente dando a volta no aglomerado de prédios baixos e casas onde moro e chegando em casa pelo lado oposto de onde eu parti.
Qual não foi a minha surpresa quando, ao chegar na via Sofia, dei de cara com uma cabeçada que corria na direção da via Cipresso. Eu tinha visto as faixas anunciando a competição de podistica non competitiva (leia-se corrida) nas ruas de Bastia, mas não tinha ligado o nome à pessoa, por assim dizer. Pois então; em frente a uma casa onde mora um yorkshire pentelho que sempre late quando eu passo foi montada uma mesa, onde três aposentados enchiam copinhos de plástico com água mineral ou chá gelado, e cortavam laranjas em fatias finas pra distribuir aos corredores que passavam. O chão estava cheio de copinhos vazios, o que dava um ar levemente sério à corrida, tipo, o corredor está disputando uma prova séria, por isso não pode parar pra jogar o copo vazio na lata de lixo. Ha ha ha. Tinha de tudo nessa corrida: gente velha, adolescente, gente com roupa coladinha, gente de touca de lã, gente de bermuda, gente que corre quase andando, gente que acha que tá correndo a maratona de NY. No final de toda essa gente, um barrigudo com um labrador amarelo, com dezoito metros de língua de fora. Passam dois caras de faixa na testa (existe coisa mais anos 80 do que faixa na testa?) e óculos escuros, e brincam comigo, dizendo que a corrida é na outra direção. Eu dou uma risada, boto os headphones nos zovidos e vou em frente.
Meu fôlego, não é de surpreender, foi pras cucuias. O percurso que antes eu fazia com o pé nas costas agora peno pra fazer até a metade. O ar gelado queimando as vias aéreas não ajuda, devo admitir. Acho que não tenho pêlos suficientes no nariz pra aquecer o ar, então sinto dor mesmo, de verdade, quando o ar gelado entra com força na traquéia e desce pros pulmões. Sinto os alvéolos gritando, mamãe, mamãe, que porra de ar gelado é esse que você tá mandando pra cá? Tá de sacanagem, né? Os olhos lacrimejam, o nariz escorre. Lembro-me de que ODEIO correr no frio.
Outro problema é que deixei meu par de tênis mais novos no Rio. Anta. Esses que ficaram já estão velhos, as solas estão praticamente lisas, e pegaram tanto a forma do pés que esses afundam, as laterais ficam altas demais, e machucam os maléolos, principalmente o direito, onde ganhei um quelóide depois do tombo com o scooter.
Outro problema é que, recém-saída de uma crise enxaquecal, resolvi não sentir frio na cabeça e taquei um gorro horripilante do Mirco, cor de diarréia. Só que com o volume do gorro de lã os headphones não páram na cabeça, e toda hora desciam, indo parar em volta do meu pescoço.
Mas no final das contas vale sempre a pena; chego em casa com esperança de um dia deixar de ser gorda, e me sentindo cheia de energia.
hmpf
Fomos ver National Treasure, aquele com Nicholas Cage. Cara, na boa, há anos eu não via um filme tão idiota. O filme chato! Fora os cliches interminaveis, a história é idiota, o roteiro trata o espectador como retardado mental, e o elenco é uma bela bosta. Odiei.
Já tava tarde pra jantar fora quando voltamos de Foligno, então pegamos Spiderman 2 pra ver em casa. Gostei, mas não achei isso tudo que falavam não. Achei meio assim… Meio mais ou menos, sei lá. Faltou alguma coisa que não sei o que é.
ai, ai…
E como o assunto é Berlusca e esse país estranho onde eu moro, dêem uma lida nisso aqui.
uhuuu
Tem outra: a grande expectativa do fim de semana é sobre a saída do número 53 na loteria. O diabo do número não sai há um ano e meio e de repente deu esse tremelique no pessoal e todo mundo anda torcendo pro 53 sair. Até eu, que ganho sempre porque não jogo nunca, estou curiosa. Vai sair ou não vai?