Devem ser as influências malignas dos Botenses, que só sabem falar berrando. Sei é que ultimamente quando chego em casa estou sempre com a garganta doendo, como se eu tivesse passado horas me esgoelando em um show de rock. Comecei a prestar mais atenção a como eu dou aula, e freqüentemente me pego literalmente berrando em sala, ainda que não seja absolutamente necessário, já que a única turma minha que tem mais de um aluno tem DOIS alunos, e que até onde eu sei não têm nenhum déficit auditivo. O que será isso?
exausta!
exausta!
buongiorno!
Existe um modo de tirar os malditos smileys do Messenger? ODEIO aqueles negócios. Hoje a ciência já sabe que smileys ridículos vêm da mesma família que as .gifs animadas. Ambas espécies que deveriam ser extintas na marra. Ô coisas chatas!
Matilda
E o livro do dia, e primeiro do ano, foi Matilda, de Roald Dahl. Já devo ter falado aqui de Roald Dahl umas trezentas vezes; adoro tudo o que ele escreve. Pena que só fui descobri-lo quando já era adolescente e estudava no Britannia. Não há livros melhores pra crianças espertas do que os seus. Um humor negro, uma sinceridade, umas analogias simplesmente geniais. Compartilho:
Capítulo 1 The Reader of Books
It’s a funny thing about mothers and fathers. Even when their own child is the most disgusting little blister you could ever imagine, they still think that he or she is wonderful.
Some parents go further. They become so blinded by adoration they manage to convince themselves their child has qualities of genius.
Well, there is nothing very wrong with all this. It’s the way of the world. It is only when the parents begin telling us about the brilliance of their own revolting offspring, that we start shouting, ‘Bring us a basin! Were going to be sick!’
School teachers suffer a good deal from having to listen to this sort of twaddle from proud parents, but they usually get their own back when the time comes to write the end-of-term reports. If I were a teacher I would cook up some real scorchers for the children of doting parents. ‘Your son Maximilian,’ I would write, ‘is a total wash-out. I hope you have a family business you can push him into when he leaves school because he sure as heck won’t get a job anywhere else.’ Or if I were feeling lyrical that day, I might write, ‘It is a curious truth that grasshopers have their hearing-organs in the sides of the abdomen. Your daughter Vanessa, judging by what she’s learnt this year, has no hearing-organs at all.’
I might even delve deeper into natural history and say, ‘The periodical cicada spends six years as a grub underground, and no more than six days as a free creature of sunlight and air. Your son Wilfred has spent six years as a grub in this school and we are still waiting for him to emerge from the chrysalis.’ A particularly poisonous little girl might sting me into saying, ‘Fiona has the same glacial beauty as an iceberg, but unlike the iceberg she has absolutely nothing below the surface.’ I think I might enjoy writing end-of-term reports for the stinkers in my class. But enough of that. We have to get on.
Matilda (Roald Dahl)
oi!
O primeiro dia do ano significa sempre almoçar na Arianna. O dia estava lindo, e depois do almoço (cappelletti feitos em casa, com molho de tomate; carne brasileira na brasa; chuchu refogado) fomos dar uma volta ali em torno da casa com os cachorros. Esquecemos de descer com a máquina fotográfica, mas eu também não tava no clima ando meio jururu esses dias. Descobrimos uma cachorra nova numa casa velha que hoje abriga uns cavalos de corrida e 24 gatos: é uma filhotona toda desengonçada, com patas gigantescas e orelhas muito longas. Linda, deliciosa! Infelizmente é arredia que só e não deixa ninguém chegar perto dela. Amanhã vou levar um pedaço de salame pra ver se ela cede.
reveilão
Quem não liga pro Natal dificilmente se empolga com o Ano-Novo. Acho que nunca passei um réveillon legal na minha vida provavelmente porque a minha concepção de “legal” é muito diferente daquela clássica festão + álcool na cabeça + beijos em bocas estranhas. Há anos adormeço antes da meia-noite chegar. Meu primeiro réveillon aqui foi passado na casa dos pais do Mirco. Acabamos dormindo no sofá muuuuito antes da meia-noite. Em 2002 estávamos em Catania, na Sicília, e também caímos no sono assistindo a algum Star Wars. Em 2003 estávamos numa festa estranhíssima na Sérvia, mas só por falta de coisa melhor pra fazer.
Esse ano passamos o dia inteiro na oficina. Nesse dia 31 a micro-empresa (da qual Ettore era o chefe) foi fechada, e reaberta no mesmo dia no nome do Mirco, por razões que eu levaria um dia inteiro pra explicar. Os dois passaram a manhã toda no tabelião registrando o negócio, e eu fiquei na oficina atendendo telefone, organizando tabelas e mandando por fax pro tabelião, que não tem Excel e não sabe fazer tabela, e principalmente preparando as faturas de dezembro, que é o trabalho mais chato do mundo. Depois do almoço voltamos pro escritório pra terminar as malditas faturas, e acabamos tudo às nove e meia da noite. Um frio do cacete, eu morrendo de fome e cansaço, doida pra voltar pra casa, e o Mirco, que tem o às vezes péssimo habito de não deixar nada pra depois, ainda pára no meio da estrada pra fotografar umas árvores trigêmeas que ele vê todos os dias há cinco anos mas só agora lembrou de fotografar.
Mas tudo bem, eu já tinha deixado o jantar engatilhado. Foi só botar o pedaço de carne argentina no forno, apoiada diretamente na grade pra gordura escorrer, e as abobrinhas já cortadas longitudinalmente e batatas-palito congeladas também no forno, em seus tabuleiros. Moreno veio jantar com a gente, e resolvemos sair de casa, eu muito a contragosto, umas quinze pra meia-noite. Fomos pra casa de um amigo do Moreno, e encontramos umas outras pessoas que já conhecíamos. Eles moram no pedaço de Bastia que fica aqui atrás de Cipresso, onde eu moro; até que tinha vida aqui em torno, a julgar pelos muitos diferentes pontos de modesta queima de fogos, a que assistimos do quintal. Depois voltamos pra dentro porque tava frio pacas, o pessoal jogou cartas enquanto eu, que estava totalmente anti-social, fiquei vendo The Blues Brothers na TV. Fomos dormir lá pras duas da manhã.
cachos
Finalmente chegou o pacote da mamãe, com artigos de jornal, uma blusa de tricô, o líquido pra escova progressiva, entre outras coisas.
Decidi que vou ser lisa só até o líquido que ela mandou acabar. Cabelo liso é ótimo mas não tem nada a ver comigo. E não é só porque à medida em que o tempo passa eu vou ficando com mais e mais cara de árabe (síria, no caso), mas porque não tem nada a ver mesmo. Fico engraçada de cabelo liso, e não bonita. Não é pra mim.
hm
Eu fico angustiada com essas catástrofes. Gostaria de ser capaz de fazer alguma coisa pra ajudar, mas não posso fazer nada além de mandar um SMS pra doar um euro. Dificilmente tenho esses arroubos concretos de solidariedade, porque meu instinto de auto-preservação fala mais alto, mas cada vez que vejo novas imagens dos alagamentos e das pessoas sofrendo de um modo que eu não consigo nem imaginar sinto que se eu estivesse lá, não pensaria nem remotamente em voltar pra casa. Ficaria por lá, ajudando, como estão fazendo muitos turistas. Bactérias e vírus não gostam de mim, eu também não gosto deles, e acho que o risco de adoecer diminui quando você não tem tempo pra ficar doente porque a vida de outras pessoas pode depender do seu estado de saúde. E com certeza voltaria pra casa certíssima de ter decidido virar ex-médica. A necessidade faz o ladrão, sim, mas não significa que essa transformação valha pro resto da vida.
puke
Hoje, na televisão, o repórter pergunta ao padre como é possível continuar sendo cristão depois de uma catástrofe desse nível. Onde está Deus?, perguntam as letras brancas na tela, enquanto no fundo correm as imagens surreais das tsunamis cobrindo tudo. O padre não responde, lógico, que ele não é bobo, e imediatamente puxa o assunto pra outro lado, o lado de sempre: ah, a igreja estará sempre ao lado dos necessitados (engraçado, então o que o senhor ainda está fazendo aqui na Itália? Em vez de ficar dando entrevista, vai pra Tailândia abraçar os órfãos caterrentos, vai!), faremos de tudo pra ajudá-los, e esperamos em breve começar a reconstruir as igrejas.
PÁRA TUDO. Como assim, Bial? Zilhões de mortos, vivos que em breve morrerão esvaindo-se em diarréias coléricas e infecções bizarras e delírios de dengue, gente que não tem água pra beber nem comida pra comer nem casa pra morar nem hospital pra se tratar, e você vem me falar de RECONSTRUIR IGREJAS? Nojo, nojo, nojo, nojo, essa gente me dá vontade de vomitar. Se eu acreditasse em reencarnação, na próxima gostaria de ser uma médica sem fronteiras daquelas fodonas, assexuadas, de olhos azuis e bochechas coradas e dignos pés-de-galinha ao redor dos olhos, e com certeza andaria armada, fuzilando gente que fuma onde não é pra fumar e padres idiotas que fazem declarações desse tipo.
O nojo maior é que aqui tem a história do otto per mille: basicamente uma doação compulsória (e não deixe que o paradoxo dessa expressão lhe escape) de oito milésimos da sua renda anual, que ou vai pro governo (se você não marcar nada) ou vai pra igreja católica (se você marcar o quadradinho indicado). A igreja, aliás, todo ano passa comerciais na TV e no rádio pedindo o seu otto per mille. Se eu fosse o Serjão, diria: otto per mille de cu é rola.