Concordo pRenamente com a Fernanda. Há poucos dias morreu um piloto italiano que corria no Paris-Dakar de motocicleta. Pronto! Para-se o país, todo mundo só fala dele, como se fosse herói nacional. Entrevistam as velhinhas da cidadezinha dele, Castiglion Fiorentino, e todas dizendo que ele era uma pessoa fenomenal, que a cidade não vai ser a mesma sem ele, que sei lá o quê. Ora, façam-me o favor! A cidade é pequena mas não tanto; querem realmente que eu acredite que todo mundo que foi entrevistado realmente o conhecia a ponto de poder dizer que era uma pessoa maravilhosa? O que que ele fez por Castiglion Fiorentino? O que que ele fez de importante na vida? Ah, peraí, né. Pra começar que eu já não tenho o menor respeito por quem tem família (ele deixou dois filhos pequenos) e se aventura nessas coisas. Quer fazer esporte de risco? Faz enquanto ainda não tem ninguém dependendo de você, meu querido, senão vira egoísmo daqueles brabos. Sei que o cara foi enterrado numa cerimônia cheia de pompas, caixão coberto com a bandeira nacional e tudo. Palhaçada.
Eire
The Invasion Myths
Eire, or Ireland, is named after the Celtic goddess, Eriu. Irish mythology describes a series of invasions which led to the establishment of Celtic Ireland, summarized in the mediaevel Lebor Gabala Erenn (“Book of Invasions of Ireland”). The invading tribes were, in succession, the Cessair, the Partholon, the Nemed, the Fir Bolg, the Tuatha de Danann and, lastly, the sons of Mil Espane, or Milesians. Eriu was a goddess of the divine race of the Tuatha de Danann, or People of the Goddess Danu. She and two other goddesses, Banbha and Fodla, each extracted a promise from the conquering Milesians that Ireland would henceforth take its name from her and her alone. The fili (“poet” or “visionary”) Amhairghin (Amergin) reassured Eriu that Ireland would be named after her; in return, she promised that the sons of Mil Espane would rule Ireland for all time. The Tuatha de Danann retreated to the dark and secret places, caves, forests, burial chambers, under the waves of the sea, beneath the hillsides, under the streams, where they still live to this day as faery folk.
(…)
The Cessair were a tribe of Amazons, or goddess-women, who invaded Ireland before the time of the Great Flood. Their leader was Cessair, supposedly a great-granddaughter of the Biblical Noah. When the Flood came, the only member of the Cessair to survive was a male god, Fintan, who was Cessair’s consort. He survived because he had the power of shape-shifting: he became a salmon, an eagle and a hawk; he spent the first year of the Flood living under the waters in a cave called “Fintan’s Grave”. He lived to Christian times, was a witness to all the succeeding invasions, and was therefore the supreme authority for all questions of history or tradition.
After the Cessair came the Partholon, also named after an individual. (…) Nemed was the leader of the next group of invaders, the Nemed. After internal disputes, they abandoned the country. (…) The Fir Bolg (men of the Belgae) were descendants of the Nemed. They were still in possession of the land when the next wave, the Tuatha de Danann, arrived. The Fir Bolg were defeated at the First Battle of Mag Tuired and forced to flee to the islands, notably Islay, Arran, Man and Rathlin. During this battle, Nuadu, king of the Tuatha, had his arm severed. The blemish meant that he could no longer be king, and a prolonged contention over rights of sovereignty ensued.
The Tuatha de Danann were wizards and magicians who had learned their arts by living in the remotest northern islands of the world. They had four inestimable treasures: the Great Fal was a prophetic stone, which uttered a cry when, and only when, it was touched by the future king of Ireland (cf. the Arthurian legend of the sword in the stone); the spear of Lugh guaranteed victory to whoever held it; the sword of Nuadu could not be escaped, once it had been drawn from its scabbard; and the cauldron of the Dagda (“good god”) was inexhaustible, so that no company could ever leave a feast unsatisfied. All the other invasions had been sea-borne, but the Tuatha de Danann, using their magic, flew to Ireland in dark rain clouds and were literally rained on to the mountain of Conmaicne Rein in Connaught, where their falling obscured the sun for three full days. The greatest of the Tuatha de Danann became Ireland’s gods and goddesses: Danann herself, mother of the gods, and Lugh, Nuada and the Dagda, already mentioned; the Morrigan (“Great Queen”), goddess of battle and the Dagda’s consort; Brigit, goddess of light and fire, daughter of the Dagda; Manannan Mac Lir (“son of the sea”), who gave his name to the Isle of Man; Dian Cecht, the “sage of leechcraft” and god of healing; and many others.
The Second Battle of Mag Tuired was fought by the Tuatha de Danann against the Fomoire or Fomori, a race of grotesque giants. They were led by Cichol Gricenchos Mac Goll, whose mother, Lot, had lips in her single breast and four eyes in the back of her head.
(…)
While the Tuatha de Danann and the Fomori were still at war, the last invasion came. This was led by Mil Espane (Milesius of Spain), so that the tribe he led is called either Sons of Mil Espane or, more simply, Milesians. The legends give the date of this invasion as a thousand years before Christ. It seems strange to think of most modern Irish people as being descended from Spaniards – we are reminded of Tacitus’s geographical error in placing Spain to the west of Ireland. However, the legendary accounts all agree that the Milesians were, indeed, the last race to conquer Ireland. Moreover, they were a mortal race, whereas the Tuatha de Danann and the Fomori, who were never entirely banished from the island, were gods and magicians.
Kingdoms of the Celts – a History and Guide, John King
Os negritos e sublinhados são meus. Não é uma coisa linda de morrer?
ui
Os dias têm andado corridíssimos. Ontem foi a última aula de Português pra Bicha Chata, o que significa cinco horas e meia a menos de aula por semana, até me arrumarem outros alunos. Quando não estou dando aula, estou rodando por aí, entregando faturas a clientes e levando cheques a fornecedores, pegando peças de caminhão ou latas de tinta e solvente com o meu carro, o do Mirco ou o Fiat Uno caquético da oficina, encarando a fila no banco ou nos correios. E o resto do tempo fico aqui na oficina, que por enquanto anda bem tranqüila, apesar de não faltar trabalho. Estamos numa fase interessante, de preparação pré-organizativa, por assim dizer. Oficialmente desde primeiro de janeiro a oficina está no nome do Mirco, e começamos tudo do zero. Arrumei todo o escritório, exilei lá pra cima do armário os arquivos e fichários com documentos de 99, 2000 e 2001 e trouxe os outros, mais recentes, pra dentro do armário. Tirei muita poeira e teia de aranha, botei tudo em ordem cronológica, remendei etiquetas caidas; fizemos novas etiquetas e divisores internos pros novos fichários, tudo mais simples e mais organizado. Dei uma geral no computador, que é entupido de coisas estranhas em lugares bizarros culpa da terrível falta de intimidade do italiano com eletrodomésticos em geral. A Elisabetta, secretária que saiu daqui no começo de dezembro, era um amor mas não particularmente brilhante. Assim como o Mirco, só sabia usar Excel, até pra escrever cartas, um hábito abominável que estou custando a remover do cérebro do lanterneiro. Além disso ela tinha mania de salvar documentos, muitas vezes enormes, no desktop não sabia criar atalhos. Há varios files chamados “fatura” de quê? De compra? De venda? De que ano? A quantidade de post-its colados pelo computador, ao redor do monitor, por cima das páginas do calendário de parede, é assustadora. Há uma quantidade impressionante de informação espalhada por todo o escritório, e aos poucos estou tentando botar ordem nas coisas, juntar anotações que falem do mesmo assunto, criar bancos de dados, atualizar os já existentes. Criei arquivos e tabelas pra tentar facilitar na hora de fazer as faturas, que devem fazer referência aos respectivos recibos fiscais e documentos de transporte; assim, em vez de ter que enlouquecer catando toda essa papelada na hora de faturar, basta copiar e colar a informação que já inseri na tabela.
Mas a culpa do antigo caos não era só da Elisabetta, coitada. Aqui ela tinha que lutar contra uma quantidade imensa de monstruosos inimigos da calma, da paciência e da organização: a ignorância, a voz alta, o stress, o dialeto e o semi-autismo do Ettore; a ignorância, a voz alta, o stress, os dialetos e a total falta de educação dos motoristas de caminhão, que entravam aqui como se fosse a casa da mãe Joana, falando alto, pegando no telefone, fumando, apoiando coisas em cima da escrivaninha; o barulho enlouquecedor de tornos, esmeris, prensas, máquina de cortar folhas de metal, pistolas de pintura a jato de ar comprimido, marteladas, marretadas, furadeiras, máquinas de soldar; a eterna poeira que se deposita imediatamente após a mais vigorosa faxina; a sirene de alerta das duas empilhadeiras quando dão marcha a ré; o cheiro de tinta, o fedor dos marroquinos, a fumaça dos caminhões, a umidade e o frio ártico do escritório, as blasfêmias de todos aqui outro hábito horrível que estou penando pra abolir da vida do Mirco. Difícil se concentrar e fazer alguma coisa direito com tudo isso acontecendo. Mas aparentemente agora a coisa se acalmou, porque o Ettore realmente parou de dar pitaco e só abre a boca quando lhe perguntam alguma coisa. Cliente que não paga não é mais atendido, fornecedor que erra muito nas faturas (sempre pra mais, obviamente) e/ou entrega o que lhe dá na telha, além do que foi pedido, deixa de ser fornecedor, e só isso já reduziu MOOOOITO o nível de stress. Também não se faz mais hora extra; chega-se meia hora mais cedo de manhã, tenta-se respeitar os orçamentos feitos aos clientes, vai-se embora na hora de ir embora. Mudamos de contador: deixamos pra lá o Furio, que é amigo da família mas um horror em termos de organização e pontualidade, e pegamos o Giuseppe, amigo do Moreno, um cara legal, jovem, formado em Economia e Comércio, que sabe o que está fazendo. Então começamos com o pé direito, com tudo novo, tudo organizado, todos os documentos em ordem e tirados no prazo certo, tudo devidamente carimbado, assinado, xerocado, arquivado, de modo que não vai mais ser preciso organizar uma caça ao tesouro pra achar uma xerox do documento do marroquino ou os documentos de smaltimento (como é isso em Português? Em Inglês seria algo como disposal) de tinta e outros materiais tóxicos que obviamente não podem ser simplesmente jogados no lixo. Agora sabe-se onde está tudo, criamos uma bela rotina de trabalho, o que reduz a probabilidade de erros e de esquecimentos; quem manda é só o Mirco, de verdade, nada mais de autoridade dividida; não tem mais briga com cliente chato que não paga, não tem mais aquelas loucuras de trabalhar sábado à tarde e domingo de manhã porque o cliente largou o caminhão aqui na sexta à noite e o quer pronto e pimpante na segunda de manhã cedo, não tem mais essas maluquices. Já consigo ficar aqui o dia inteiro sem querer chorar de irritação, como acontecia antes.
Claro que o ideal seria estar dando mais aulas e vir pra cá só nas horas livres, até porque agora ficou muito mais fácil e muito menos time-consuming manter tudo organizado, e não há necessidade de ter alguém aqui plantado no escritório oito horas por dia. O telefone toca menos, porque praticamente só cliente chato é que ligava pra torrar a paciência do Ettore; como agora já sabem que com o Mirco o buraco é mais embaixo, os mais chatos simplesmente deixam de vir, pra não ter que ficar chorando preço, prazo, sei lá mais o quê, ou explicando por que raios não pagou a última fatura, ou por que o cheque bateu e voltou. Depois de um certo horário já não tenho mais nada de concreto pra fazer, enquanto que em casa as coisas pra limpar, as roupas pra passar, a comida pra cozinhar, a louça pra lavar (ah, isso não, porque eu sou paranóica com louça e lavo tudo antes mesmo de terminar de mastigar a última garfada), os livros pra ler, as coisas pra escrever, o nada pra fazer, se acumulam. Não posso reclamar; gosto de me sentir útil, e menos culpada por não poder pagar exatamente a metade de todas as nossas contas, e também estou aprendendo muita coisa e tentando perder a mania de deixar tudo pra cima da hora, mas por outro lado preciso de tempo pra fazer as minhas coisinhas. Estou de dedinhos cruzados pra ver se me aparecem novos alunos e novas traduções. Já falei com a Bicha Pedagógica lá da escola pra me arrumar logo uns alunos, de preferência por ali mesmo, na sede, e não em Perugia, que eu não tenho dinheiro pra pagar toda essa gasolina. Vamos ver no que vai dar. Já apareceu uma proposta pra dar aula pra um casal “muito exigente”, o que quer que isso signifique, lá nos cafundós do Judas, sexta-feira, das sete às nove da noite. Falei pra Bicha Pedagógica, tá brincando, né, nega? A escola considera toda Perugia como sendo “in zona”, e por isso não me paga adicional, mas pra mim não é não! São trinta quilômetros da porta de casa até essa última saída de Perugia, e é melhor nem falar dos engarrafamentos. Inda mais sexta-feira à noite! Tá bom que o cinema fica ali pertinho, mas peraí, né, tudo tem seu limite. Ele ficou de me arrumar coisa melhor, mas insistiu muito pra eu pensar, porque esse casal “muito exigente” não quer qualquer um dando aula pra eles não, e eu sou ex-médica, limpinha, domino perfeitamente todas as línguas que falo, não blasfemo nem falo (muito) palavrão, sou viajada, estudada, cheirosa, tenho dentes estupendos e fisicamente tenho nacionalidade não-definida, o que, acreditem, é uma coisa ma-ra-vi-lho-sa. Bicha Pedagógica deixou bem claro que eu TENHO que ir dar aula pro Casal Exigente, porque não há mais ninguém na escola que tenhas as minhas características só ele, que morou 8 anos em Londres, coisa que ninguém diria já que ele não é exatamente muito esperto. Mas dar aula lá onde o vento faz a curva você não quer, né, bella? Bati o pezinho e disse pra ele jogar uma conversa em cima do Chefe Catanese (ah, esses sicilianos…) pra ver se ele me paga a gasolina. Senão não tem história. Ah, fafavoaêeee….
ai, meus sais gramaticais…
– A Rita está bem, graças à deus – disse Yolanda esta tarde, enquanto esperava novo contato do marido na Argentina.
N’O Grobo de hoje. Por que, ó céus, por que neguinho insiste na crase antes de palavra masculina?
na Bota
No último sábado houve um terrível acidente ferroviário mais pro norte. Um trem de passageiros, que fazia a movimentadíssima linha Verona Bologna e vinha em alta velocidade, bateu em cheio num trem de carga que estava parado no trilho único de uma estação de passagem. Os mortos são 17 e os feridos são muitos. As fotografias do local do acidente são de arrepiar; vagões praticamente na vertical, outros completamente destruídos.
A conta-gotas, começam a aparecer podres do sistema ferroviário, junto com as teorias sobre a causa do acidente que vão ser sempre teorias, já que os maquinistas de ambos os trens morreram na hora. Primeiro o maquinista do trem de passageiros teria avançado um sinal vermelho. A mulher do finado disse que era uma hipótese absurda, que o marido era muito preciso e cuidadoso e que jamais avançaria um sinal assim, na cara dura. Mais tarde disseram que o maquinista avançou foi o sinal amarelo, provavelmente porque não o viu, já que a neblina naquele dia estava uma coisa absurda. Quando notou que havia um trem parado nos trilhos, tentou frear, mas àquela altura do campeonato a distância não era mais suficiente. Depois saiu a notícia de que o chefe da tal mini-estação de passagem viu que o trem não parou e tentou avisar o maquinista pelo celular (!!!!!!!!), mas que ninguém respondeu à chamada ou o maquinista não ouviu, ou o telefone estava no vibracall, ou o acidente já havia acontecido. Mais depois ainda alguém deixou escapar que só no ano passado houve DOZE avanços de sinal vermelho em diversos pontos da Ferrovia dello Stato no país, mas nenhum desses casos foi denunciado ou oficialmente registrado. E só aí começou-se a discutir os sistemas de segurança das ferrovias. Parece que essa linha Verona Bologna, uma das mais movimentadas do país, é uma das poucas que restaram sem sistema de segurança automatizado. Olha o Zaire aí, gente!
E exatamente à meia-noite de domingo pra ontem entrou em vigor a bendita lei anti-fumo, que proíbe o fumo em TO-DOS os lugares públicos fechados e locais privados abertos ao público, a menos que tenham uma sala reservada pra fumantes, com sistema de depuração de ar aprovado pelo governo. Não é só o fumante fora-da-lei que está sujeito a multas, mas também o dono do estabelecimento que não mandá-lo tomar no cu e apagar o cigarro. Aliás, o dono do estabelecimento tem o dever, segundo a lei, olha que delíciaaaaaaaa, de chamar as autoridades (leia-se dedurar) se o fulano se recusar a apagar o cigarro. Os proprietários, obviamente, já se rebelaram, nós não somos X-9 não! Tem problema não, deduro eu mesma. Não vou ter o menor problema em ligar pros Carabinieri se alguém insistir em fumar do meu lado enquanto como minha pizza.
Como 1) A imeeeeeeeeeeensa maioria dos proprietários de bares, pubs, restaurantes, boates, pizzarias, etc etc etc alega que não teve tempo (só dois anos, coitados…) e/ou dinheiro pra botar em ação as reformas necessárias e a instalação do sistema de depuração, e 2) Há uma infinidade de locais desse tipo que funciona em prédios históricos que não podem ter sua estrutura modificada pra se adaptar a esse tipo de lei, a imeeeeeeeeeeeeeeeeensa maioria desses lugares tornar-se-á, definitivamente, smoke-free. Aleluia, irmãos! E que vão todos tomar no cu, os fumantes. Vão fumar lá fora quando o termômetro está lá embaixo, vão!
Needless to say, já aumentou a freqüência da publicidade de adesivos e chicletes de nicotina na TV e no rádio. E há rumores de que o governo financiará esse tipo de tratamento anti-vício pra quem quiser parar de fumar.
Também needless to say que a primeira multa, que rolou à meia-noite e um de ontem, foi aplicada em, tchan tchan tchan… Nápolis!
Enquanto isso… Meu irmão tenta estágio na Souza Cruz. Mas se for trabalhar lá de verdade eu corto relações. Juro.
tuatha de danaan
Eu juro que comecei a ler Delitto e Castigo, pra acompanhar o clube de leituras do maldito Alexandre, que fica botando minhocas literárias na minha cabeça. Mas não estou com muito saco pra ler em italiano ultimamente. Talvez porque eu esteja entrando em uma nova fase Irlanda da minha vida (já passei por várias). Desencavei uns livros que eu trouxe do Rio e que nem lembrava mais que tinha, e no momento estou lendo Kingdoms of the Celts A History and Guide, de John King. Não tenho a menor idéia de quem é John King, se tem cacife pra falar desse assunto, se o livro pode ser levado a sério, mas eu realmente adoro esse assunto e gosto muito desse livro. Em breve contarei a história de Queen Medb e King Ailil, uma das minhas preferidas. E esse ano pretendo, de verdade, ir à Irlanda.
Vao la’ ler o Allan de hoje, vao.
Vao la’ ler o Allan de hoje, vao.
pregui…
E hoje é feriado na Itália: Epifania. É o dia no qual a Befana, uma bruxa, traz doces e brinquedos pras crianças boas e carvão pras crianças que se comportaram mal.
Nós aproveitaremos o dia pra descansar, trabalhar e ir ao cinema, necessariamente nessa ordem. Descansar porque ontem foi um dia longo e depois ainda fomos comer pizza com Gianni e Chiara e ficamos programando viagens e olhando atlas até duas da manhã. Estamos saindo agora pra almoçar na Arianna, depois temos que dar um pulo na oficina pra resolver umas coisas, e dali vamos diretamente ao cinema ver The Grudge. Alguém já viu? Não sei nada sobre esse filme, se é bom, se é horrível, se dá medinho, se dá pena.
japa girls
Hoje chegou pelo correio um estojinho japonês lindo mandado pela minha amiga Hanae, de Osaka. Como de modo geral toda a Europa, a Itália está eternamente infestada de japoneses. A Università per Stranieri di Perugia, onde estudei em 2002 (que saudade! Que saudade da polacca pazza!), não é exceção. Na nossa turma havia duas que fizeram o curso completo de seis meses, Hanae e Ayako. Moravam juntas mas não conviviam harmoniosamente, coisa que eu obviamente só fiquei sabendo agora porque nenhuma das duas jamais deixou transparecer nada. Dois doces de meninas. Eu normalmente não gosto de gente docinha, e confesso que particularmente da Ayako (depois explico) tinha um pouco de pena, um sentimento que eu desprezo. Mas realmente gostava da companhia delas, de verdade. Meninas calmas, risonhas, esforçadas.
Além do Silvio, que é um santo, só eu tinha paciência com as meninas. Sei que pode parecer estranho, mas eu adoro ensinar, explicar, elucidar, esclarecer. ADORO. E tenho paciência com gente burrinha, afinal de contas a culpa não é deles. Só não tenho paciência com médico que escreve tuberculose à esclarecer, com engenheiro que vai almoçar no restaurante à kilo, com advogado que dá uma telefonema, com arquiteto que escreve se você quizer, com professor que estuda a calda do girino (essa eu vi, ninguém me contou. E adivinha como se chamava? Suely.), com tradutor que escreve encima. Com gente geneticamente burrinha, ou que simplesmente tem talentos diferentes dos meus, eu tenho paciência sim. E adorava explicar gramática italiana pras japinhas. Adorava estudar com elas.
São meninas completamente diferentes uma da outra. Ayako tem vitiligo e usa maquiagem pesada; é claramente envergonhada da sua aparência e é a típica japonesa de excursão na Europa, com cabelos tingidos e permanentados, roupas caras e bonitas quando analisadas separadamente mas um desastre quando combinadas, pernas tortas e passinhos de gueixa. É bobinha, não entende piadas, é infantil e sonhadora, tem bolsinha da Hello Kitty não porque é cool mas porque adora a Hello Kitty, os pais não querem que ela se case, nunca, pra ter alguém que cuide deles na velhice. Hanae é beeeeem mais inteligente e beeeeem mais esperta; menina safa, que mesmo não conseguindo sacar, de ouvido, a diferença entre R e L, é capaz de dar gargalhadas verdadeiras com uma piada engraçada ainda que leve um tempinho pra registrar a informação em língua estrangeira. Eu adorava as duas. Hanae foi embora assim que terminou o curso mas me escreve sempre, às vezes me manda presentinhos. Trabalhou numa padaria em Osaka e me escrevia reclamando que era muito chato. Agora voltou a estudar italiano. Ayako ainda ficou mais um tempo, refazendo pela terceira vez o curso de italiano no qual sempre levou bomba; trabalhou um tempinho numa agência de turismo em Perugia, namorou um croata que morava na Grécia mas só queria o dinheiro dela, sofreu com a desilusão, culpou o vitiligo, seu visto acabou e ela voltou pra casa. Agora dá aulas de italiano pra crianças. O e-mail que ela me mandou antes da primeira aula dizia que ela estava muito neruvosa mas confiante de que tudo daria certo. Torço muito por ela, de verdade.
As imagens mais significativas que tenho delas ocorreram no jantar brasileiro que fizemos na casa do Silvio. A Hanae raspou até o último grãozinho de farofa da panela. E a Ayako bebeu meio copo de vinho branco e entrou na sala dizendo: mi sento rivera! (mi sento libera), ou seja, me sinto livre coitada, se embebedou com meio copo de vinho branco vagabundo e já se sentia poderosíssima.
Adoro as duas, e essa semana pensei muito nelas, depois que chegou o cartão de Natal da Ayako. Mais ainda depois que o estojinho lindo da Hanae aterrissou aqui em casa.
Fui correndo enchê-lo de canetas coloridas. Eu tava mesmo precisando de um estojo! Fico que nem criança quando consigo organizar essas coisas: agenda nova, estojo novo, canetas coloridas, borracha nova, branquiiiiinha! Fico toda hora tirando tudo da bolsa, olhando, namorando, depois boto tudo de novo na bolsa.