Hm, quanto tempo… Nem sei mais onde parei.
Bom, comecemos por hoje que estah mais fresco na memoria. Hoje eu acordo (com o barulho dos velhos cantores lah fora, ver explicaçao abaixo) morrendo de sede (negligenciei a retirada dos meus sisos, que cresceram e desajustaram minha boca toda, eu agora tenho dificuldade pra respirar e falar – tudo que eu sempre quis na vida foi ter uma dicçao pior do que a que eu jah tenho e dormir de boca aberta. Dormir de boca aberta dah uma sede do cacete.) e fui toda felizinha abrir meu armario pra tirar minha garrafa de agua, quando percebo que passei o cadeado na porta com o Ricky Martin (meu chaveiro) dentro da bolsa, dentro do armario. Nem descer pra recepçao pra pedir ajuda eu podia, nao de pijama de seda, eh claro. Lah se vai Valeria com o cabelo todo em peh, cheia de sono, pedir um treco pra quebrar o cadeado. Daqui a pouco me sobe ela com um alicatao daqueles enooooormes, pesaderrimos, de cabo vermelho, uma cena absolutamente ridicula. Mais ridiculo soh a gente fazendo força conjunta pra quebrar o cadeado.
A manha, que jah começara assim dantesca, prossegue com uma visita aos museus do Vaticano acompanhadas de uma italiana nanica absolutamente atolada e derrubadora de coisas e uma neozelandesa careteira, sendo que nenhuma das duas entendia chongas do que a outra dizia. Mas foi divertidissimo, e no final da visita (belissima, por sinal, os museus sao realmente o oh do borogodoh) comemos uma pizzinha basica (quem falou que a pizza italiana eh uma bosta nao tem papilas gustativas higidas!) e largamos as duas malucas cada uma pro seu lado. Iamos à Piazza Venezia ver o Palazzo Venezia, mas no meio do caminho descobrimos que nao tinha nada de interessante pra ver lah. Entao começamos nosso processo pedestrico – Valeria queria uma jaqueta de couro pra se sentir assim bem italiana, e batemos perna por algumas horas ateh achar algo que agradasse e fosse financeiramente compensador.
Hoje mais tarde vou jantar com Guido (boca livre eh otimo, ainda mais em liras). Soh espero que nao seja de lambreta de novo; ontem meu nariz ficou tao gelado que achei que eu fosse ficar desnarigada.
Ontem
Acordamos com os velhos cantores fedidos de lenço amarelo falando alto no corredor, uma delicia de despertar. Banho demorado, com lavagem de roupas, que culminou na perda do cafe da manha (nao que seja muito ruim perder o cafe da manha desse albergue, ainda mais que tinhamos paezinhos e croissants e danette light no quarto). Fomos à Villa Borghese. Custamos um pouco a chegar (as placas aqui sao algo enganadoras), mas tambem, a chegada foi o oh. Eh uma area enorrrrrrrrrrme, uns gramados deliciosos, um monte de gente com crianças e cachorros (como tem cachorro nessa terra! achei ateh um sosia do Legolas, apertei tanto as bochechas dele, hmmmmmm), bicicletas, aqueles quadriciclos ridiculos que nem na Lagoa Rodrigo de Freitas. Enfim, uma coisa de louco. O Museo Borghese tem coisas muito bonitas, mas eh meio pentelhinho, voce soh tem duas horas pra ficar dentro do museu, e na Galleria Borghese, que tem um acervo enorme, soh meia hora, depois disso a mulherzinha começa a gritar no microfone mandando a gente picar a mula. Mas no Museo propriamente dito tem um monte de estatuas do Bernini, que pra mim, honestamente, bota o Michelangelo razoavelmente no chinelo. Saimos de lah meio bebadas de beleza, sentamos na grama do parque pra ver os passarinhos voando e as pinhas caindo. Depois cansamos e fomos aproveitar a Galleria Nazionale di Arte Moderne, que ontem tinha entrada gratuita. Tinha uma exposiçao pobriiiiiiinha da Frida Khalo, de quem eu jah nao gosto muito, mas tem muitas outras coisas lindas tambem. E pra esperar o tram naquela friaca horrenda que tava? Creeeedo, um frio do cao, a gente toda encasacada mas com as maos narizes orelhas completamente dormentes. Mais pro centro nao tava tao frio, descemos meio longe do albergue pra poder passar na padaria no subsolo e fomos andando.
A padaria no subsolo
A padaria no subsolo eh um lugar escondido que voce normalmente nao notaria, se nao fosse o absurdo cheiro de pao que emana dela a qualquer hora do dia. Voce para na porta e olha lah pra baixo, e ve um balcao com zilhoes de coisas lindas de comer. Eu nao gosto de doce de padaria, mas acredito que qualquer formiga humana ficaria louco ali. A Valeria chega a ver estrelinhas. Eu como sempre um tipo de minitortinha com recheio de nutela (/morre sucessivamente repetidas vezes uma atras da outra sem parar/) que eh absolutamente divina. Nao sei o nome da bichinha, eu sempre pergunto pro balconista mas naquela confusao de gente (tem gente fazendo pedido da escada em caracol, porque fica tao cheio que nao eh sempre que se consegue descer) eu nunca consigo entender o que ele fala. Eu tava meio hipoglicemica – meu almoço tinha sido uma fatia de quiche de carne, ridiculamente pequena, por sinal, e um microcopo de suco de laranja (tinham acabado as latas de suco e a politica deles eh simplesmente substituir uma lata por um microcopo, e foda-se voce e o seu dinheiro suadinho) – entao a tortinha desceu assim limpando a serpentina.
Chego no albergue, ligo pro Guido, e de repente eu olho e vejo uma cabeçada entrando no albergue e cantando – sao os velhinhos cantores fedidos de lenço amarelo no pescoço. Muito bem, tomo meu banhinho basico e lah vamos eu e Guido de lambreta pro cinema.
O cinema
Aqui os filmes sao todos dublados. Ver a Nicole Kidman falando italiano eh a coisa mais hilaria do mundo. Alem desse fator hilariante, temos tambem os seguintes: os lugares sao marcados, e tem intervalooooooooooooooooooooooooooo
Depois do cinema fomos à taverna do Tom Bombadil (uma gracinha!). Tinha caipirinha, caipiroska e caipivodka, um espetaculo ;)
Chego no albergue meia-noite e um (a gente tem que entrar meia-noite senao fica na rua), subo correndo e vou mimir.
Anteontem
Anteontem Valeria me acorda meia-noite e meia com a seguinte frase:
– Tem uma mala aqui dizendo que eh dona da minha cama, o que eu faço?
Como tinha duas camas livres no quarto, a resposta pra mim era totalmente obvia:
– Uai, manda ela dormir numa das camas livres.
A tal da mala, uma chilena de cara achatada, começa a ladainha:
– Yo tengo lo bolleto, tu tienes lo bolleto? Hm?
Eu (jah totalmente sem a pouca paciencia que meus cromossomos me permitem):
– Que mane boleto, isso eh hora de pedir boleto? Vai pra outra cama, que diferença faz? Amanha voces se entendem, pelamordedeus.
[O lance foi o seguinte: no dia em que chegamos, a cama que deram pra Valeria, ou seja, o numero da cama que aparece no tal boleto, estava ocupada. Descemos pra perguntar na recepçao e o cara disse pra pegar uma vazia, que foi o que ela fez. Esta tal cama, entao, estava marcada como vazia no computador, que, obviamente, nao sabia que a Valeria estava nela. Quando a chilena chegou, o computador a botou nessa tal cama – onde nossa cara Valeria jah tinha se aboletado hah dias. O que aconteceu foi que a Valeria tinha saido pra jantar, e eu pra variar fui dormir cedo e nao vi a mala chilena chegar. Ela chegou, viu as coisas todas de outra pessoa na cama, e em vez de ter o bom senso de simplesmente mudar de cama, tirou tudo do lugar, inclusive a roupa de cama, jogar tudo no chao, ajeitar as coisas dela e sair pra comer. Quando Valeria volta, nao percebe a mudança (nao dava pra acender a luz) e vai dormir, lepida e fagueira. A chilena volta do jantar e encontra Valeria na cama que ela cismou que era dela, e acorda a Valeria, que vem me acordar, devido ao grau de esdruxilidade da situaçao.]
– Yo tengo lo bolleto, quiero que tu saia (jah estou inventando no espanhol aqui, mas tudo bem).
Eu, no auge da impaciencia:
– Cara, vou te contar, voce deve ser argentina, neh, chata assim soh pode ser argentina. Vai dormir, garota, isso eh hora de acordar os outros?
Ela (suuuuuuper cinica):
– No comprendo.
Eu:
– Que maneh nao comprende, sua chata fingida, vai dormir, nao enche o saco, tu tah acordando todo mundo, resolve isso de manha, filhinha… Continua educada e legal assim e voce vai ver como vai ser otima sua vida em albergue. Vao te roubar todo dia.
Acabou que a garota fez a Valeria mudar de cama e soh fomos dormir uma hora da manha. Ainda mandei um ‘tomara que voce caia dai de cima, tenham que chamar um medico, ele seja lindo e me chame pra sair’ antes de dormir.
Resultado: acordamos num mau humor impar. Eh obvio que a garota deve ter ficado com medo de mim e mudou de quarto hahahahahahaha
Pegamos onibus com um pessoal de um coral de uma escola inglesa (eu, obviamente, fui perguntar onde eles iam cantar), uma gracinha os meninos de terno e gravata :) Fomos às Termas de Caracalla (lindas), o Foro Romano (lindo), a Bocca della Verità (uma igreja do inicio da Idade Media DIVINA, simplerrima, sem a ostentaçao enojante porem bela dos seculos posteriores), e de la pra igreja de Santa Maria Maggiore, onde as crianças jah estavam na metade do recital. Chorei o tempo inteiro. Ter um talento cantante assim deve realmente ser uma coisa espetacular, que coisa linda!
Depois do almoço (que eu tambem nao lembro onde foi) fomos buscar os novos oculos revolucionarios de titanio da Valeria, depois tomar um sorvetinho de chocolate negao e gianduia na Piazza Navona, onde ficamos sentadas um tempo vendo os artistas de rua. Passou uma banda alema, tentamos seguir (esse negocio de recital de graça eh otimo), mas eles desapareceram no espaço-tempo, entao acabamos voltando pro albergue.
Se eu lembrar de mais alguma coisa, eu aviso, tah, amores? :)
Beijos
Le