Arquivo de setembro de 2005

êeeeeeeeee!!!

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

No final de um dia muito, muito difícil e cheio de pequenas frustrações, inclusive a de não conseguir, mais uma vez, falar com a médica pra finalmente pegar os pedidos da ressonância e dos outros exames pra enxaqueca, finalmente uma boa notícia:

A bolsa de estudos saiu! :))))

Claro que já meio que me arrependi de ter escolhido Comunicazione Internazionale. Apesar da maioria das matérias ser muito interessante, meu negócio mesmo é literatura e línguas, e a burra aqui poderia perfeitamente ter escolhido Lingue e Culture Straniere, que tem um monte de coisas maneiras no programa – tipo literatura eslava, língua russa, literatura portuguesa e brasileira e outras coisas legais. Mas vou me contentar.

Só que não vou conseguir acompanhar praticamente matéria nenhuma. Um horário mais ridiculamente pouco prático não poderia existir, e praticamente todas as aulas da universidade batem com as minhas aulas de inglês. Então vou ter que fazer tudo como não-freqüentante, o que é um porre, porque eu nunca fui C.D.F. nem tenho a força de vontade da Ane, e sempre passei de ano na escola e na faculdade porque nunca faltei aula nem um round na enfermaria e sempre prestei muita atenção no que as pessoas dizem ao meu redor, e sempre fui muito perguntadeira também. Agora fodeu, vamos ser eu e os livros, sozinhos. Vai ser duro.

Minhas matérias vão ser: marketing, informática geral, lingüística italiana, política econômica, comunicação política, estudos culturais e organização política européia. Inglês e espanhol só vão começar em novembro, mas se minha mãe achar meu certificado do Proficiency, que sumiu no vácuo, pelo menos inglês vou conseguir pular, já que o objetivo do curso é fazer com que os alunos consigam um diploma de nível C2, de acordo com o European Framework de línguas, e o CPE é exatamente isso. Aliás, só a título informativo, o CELI 5, de italiano, que tirei em junho, é o equivalente italiano e mais bobinho do CPE. A má notícia é que não só vou ter que estudar espanhol, que todo mundo sabe que eu abomino, mas vou ter que tirar o diploma também – o DSE, Diploma Superior de Español.

Aliás, esse negócio de European Framework me deixou me coçando toda de vontade de aprender línguas bizarras e sair me diplomando toda. Já pensaram, um diploma de Gaélico? Até o nome é lindo: Réamhtheastas Gaeilge, no nível mais baixo, e Bunteastas Gaeilge, no nível menos mais baixo (tá bom, Bunteastas não é lindo). E Suomi? Eu não sei que língua é, mas adoraria ter um diploma chamado Suomen kieli, ylin taso 7-8. Tem exames de luxemburguês também, acreditem se quiserem. Tem grego moderno, tem euskara, tem catalão, dinamarquês, holandês, norueguês, sueco, e, lógico, entre as mais difusas línguas ocidentais tem também espaço pro português. Cada vez que eu olho pra essa tabelinha me coço toda de curiosidade de aprender coisas.

Já arrumei meu material escolar todo: uma bolsa de juta escrito “Mi piacciono i libri, ma mi piace di più la gente che li legge” (gosto de livros, mas gosto mais ainda da gente que os lê), caderno novo, bloquinhos veeeeeelhos da época em que eu ainda freqüentava congressos de Medicina, post-it, liquid-paper em caneta e em fita, canetas coloridas (mil), borracha novinha imaculada, carimbos bubus de bichos que compramos em Honfleur em agosto (Newlands, minha filha, tu ia morrer várias vezes naquela loja foférrima) e que não servem pra nada a não ser me deixar contente, minha fiel lapiseira preta da Paper Mate que nunca me deu um desprazer na vida, apesar do uso contínuo por anos a fio, pastinhas com e sem elástico, minigrampeador, enfim, todas essas coisas absolutamente necessárias pro bem-estar de uma pobre paca manca. Estou feliz da vida, e só não estou mais feliz da vida ainda porque não vou conseguir assistir a todas as aulas.

O pepino que vou ter que descascar no ano que vem (esqueci o futuro do verbo dever, alguém me ajuda?) vai ser a provável impossibilidade de renovar a bolsa. Porque fiz um contrato melhor com a escola, sou a professora com mais turmas (e teoricamente com mais renda…), o que vai provavelmente me tirar da camada mais pobre da população. Como já sou formada, não tenho direito a bolsa por mérito, mesmo que conseguir vencer minha tendência à preguiça intelectual e tirar boas notas sem assistir às aulas. Mas como o interesse por cursos universitários anda baixo (nem teve prova de admissão esse ano, apesar da turma com número fechado – normalmente é a maior casa da mãe Joana e qualquer um entra, mas poucos saem…), pode ser que mesmo não sendo mais paupérrima eu consiga alguma coisa. Mas é cedo demais pra me preocupar com esse abacaxi. Segunda-feira acordo cedo pra não pegar trânsito excessivo indo pra Perugia, estaciono perto da casa do Aluno Endocrinologista, ando uns três quilômetros a pé até a faculdade, e se tudo der certo consigo até lugar pra sentar razoavelmente within hearing distance na Aula Magna. Quando estudei italiano na Stranieri nunca tínhamos aula lá, porque éramos poucos, mas entrei uma vez durante um concerto de alunos músicos. O teto é todo pintado com horrendos motivos mussolinescos, que ficaram ali como recordação daquele tenebroso período – que, cá pra nós, muitos não acham tão tenebroso assim. São horrendos por causa da história que têm por trás, não exatamente por motivos estéticos. Achei tudo muito parecido com Portinari, aqueles pezões, a força do peão de obra italiano, essas coisas.

Falei demais, vou dormir.

Da série coisas que a paca odeia

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Na sala de aula

. Gente que simplesmente não consegue escrever pequeno
. Gente que prefere rabiscar em vez de apagar
. Gente que escreve de caneta em livro
. Gente que não anota nada nunca e depois fica repetindo as mesmas perguntas idiotas
. Gente que usa lápis sem apontar nunca, nem mesmo quando nem a própria pessoa consegue ler o que escreveu com aquela ponta de lápis totalmente trolha
. Gente que não consegue copiar mais de uma palavra do quadro-negro de uma vez, tendo que levantar os olhos praticamente a cada sílaba

novos bárbaros

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Rodei mais quilômetros hoje que um caixeiro viajante.

De manhã dei uma ajeitada em casa e fui direto pra escola, pegar o celular que eu deixei lá ontem à noite. Depois diretamente pra Marsciano, a 26 quilômetros de distância, dar aula pros meus dois queridos – ele, o chefe, muito esperto e esforçado, ela, a secretária part-time, mais bobinha, do tipo que sai correndo da aula pra que a filha, que estuda em outra cidade e sai muito cedo de manhã, não precise botar a mesa. Porque botar a mesa é um esforço elooorme, vocês sabem.

De Marsciano (pronúncia Marshano), pra Foligno, pra um bate-papo naquela outra escola que anda me sondando há tempos. Só que a mula aqui, em vez de pegar a superstrada, pegou uma estrada interna. Pronto! Paisagem linda, casas maravilhosas no meio do nada, campos já colhidos e iniciando o repouso do inverno, várias placas com nomes estranhos, cidadezinhas de quatro casas – mas basta um caminhão na sua frente pra você perder meia hora de tempo, porque não dá pra ultrapassar com facilidade. Resultado: cheguei tardão em Foligno, com somente meia hora pra discutir um monte de coisas importantes. Claro que a pessoa com quem eu deveria falar estava ocupada com outra garota, e levou séculos pra se desenrolar. Conclusão: saí de Foligno na hora em que deveria estar começando a aula com o SuperSimpatia. Saí voando pela superstrada, nos limites dos limites de velocidade.

E foi aí que eu quase morri, porque falar latim nunca esteve tão longe de significar civilização do que nos últimos tempos, e os italianos são definitivamente as pessoas mais mal educadas do planeta Terra.

Eu vinha pela esquerda na superstrada porque 1) não tinha ninguém atrás de mim, 2) eu estava indo bem rapidinho, e 3) a cem metros de onde eu me encontrava, a estrada bifurcava: à esquerda pra Perugia, à direita pra Cesena, e depois Ravenna etc. Já havia inclusive a sinalização horizontal, com a estrada pintada com setas elormes indicando Perugia e Ravenna. Nisso surge atrás de mim um idiota piscando o farol. Pra onde ele queria que eu fosse, eu não sei, porque se eu me deslocasse pra direita, seus amigos de má educação não me deixariam voltar pra esquerda em tempo de pegar a estrada pra Perugia, e eu iria acabar parando em Cesena. Como eu não estava morrinhando, muito pelo contrário, fiquei onde estava. Alcancei um caminhão, já no viaduto onde não é possível ultrapassar, e o chato continuava piscando o farol. O viaduto desemboca na outra parte da superstrada; o caminhão deu a seta, entrou e ficou na direita; eu dei a seta, entrei e ultrapassei o caminhão. Não tive tempo de voltar pra direita, porque o chato lampejante me ultrapassou PELA DIREITA, e METEU O PÉ NO FREIO na minha frente – íamos a 120 quilômetros por hora. Meteu o pé no freio por puro despeito. Não sei como a Uno, que não só está caindo aos pedaços mas também é levinha, com pneus estreitos e por isso pouco estável, não saiu rodando pela pista matando não só a mim mas mais um monte de gente. Sambou bastante e segurei o volante com força pra não perder o controle, mas sinceramente foi muita, muita sorte. O cara ainda teve o topete de me dar the finger, acreditam?

Vou te dizer, a cada dia que passa mais eu tenho nojo desse país. Ou melhor, da gente que vive nele.

piante

terça-feira, 27 de setembro de 2005

O tempo já está estranho, neblina de manhã, noites frias, mas um sol que ainda racha a cabeça se você der mole. O manjericão, plantinha mais sensível, não está entendendo nada e já anda amarelando. As outras são guerreiras e não estão nem aí. Os cravos dão flores feito doidos, as plantas suculentas já viraram praticamente moitas há muito tempo, e as plantas aromáticas estão cada vez mais lindas, depois que eu tomei coragem de podar a galera. Estou secando várias delas pra fazer um mix de temperos que depois vou mandar por aí, pra muita gente a quem eu quero muito bem e está espalhada pelo mundo. Por enquanto a produção ainda é em baixa escala por pura falta de tempo, mas eu chego lá.

putz

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Não sei como vou fazer pra agüentar até sexta-feira, quando finalmente sai o resultado das bolsas de estudos.

O mais ridículo é que as aulas começam logo na segunda-feira seguinte, e que não tem NENHUM material informativo pronto pros alunos. Ninguém sabe qual nem onde vai ser a aula inaugural, quais livros vão entrar no programa, quem vai dar aula do quê. Muito organizado. Se eu conseguir mesmo voltar a estudar, nem vou ter tempo de descansar, porque vou engatar essa última semana na oficina treinando o Stefano e a Elena diretamente com a faculdade – if, if. Ô país miseravelmente desorganizado!!!

findi

domingo, 25 de setembro de 2005

Nada de cinema nesse fim de semana. Finalmente saiu o Charlie and the Chocolate Factory, cuja versão antiga aliás passou na TV hoje à tarde, mas não tivemos paciência. Exaustos, teríamos certamente dormido no cinema, coisa que pelo menos pra mim não tem sentido nenhum (o Mirco capota mesmo, com direito a ronco e tudo, e não tá nem aí). Então nem dormimos depois do almoço porque senão iríamos toda vida, até a hora do jantar, e fomos direto fazer compras em Santa Maria ontem. Hoje lavamos os cachorros, que estavam horrendamente fedorentos, consegui bater papo com a minha mãe no Skype, e fomos jantar com Marco e Michela na festa em Bastia.

O rione, ou parte da cidade, mais famoso pela boa comida é o Sant’Angelo, que seria o rione ao qual pertencemos, morando em Cipresso. É o mais democrático, porque pega as partes periféricas da cidade. Só que essa fama já rola há tanto tempo que a taverna do Sant’Angelo vive entupida. A fila estava gigantesca, e com a Michela grávida e cheia de fome e de dores e de chatices não dava pra perder horas esperando pra comer. Então fomos pra taverna do Moncioveta, o rione que pega a parte do Borgo Primo Maggio, onde vivem os napolitanos todos. Não tinha fila nenhuma (também, a comida não tava lá essas coisas) e depois fomos dar um pulo na praça. Fiquei com muita pena do grupo que estava tocando, muito bem por sinal, Joe Cocker, Commitments e Creedence Clearwater. NINGUÉM assistindo, até porque ninguém aqui sabe o que são isso. Tipo KaRla que nunca tinha ouvido falar do Queen, saca, Huňka? O vocalista tinha cara de tudo, menos de vocalista: camisa e calça social, careca, cintinho, sapato social, óculos, barriga precoce. Mas cantava bem direitinho. Arrastados pelo Marco, que só gosta de música italiana e é fanático pelo Vasco Rossi, não tivemos outra escolha. Joguei um sorrisão e um joinha pros meninos no palco, senti vergonha por eles e fiquei com vontade de chorar, e fomos embora.

E só fui dormir às três da manhã, porque queria me livrar do Paul Burke de qualquer jeito. Mula.

the man who fell in love with his wife

sábado, 24 de setembro de 2005

Pois então. Grande decepção, o Paul Burke. Muito assim mais ou menos. Não sei bem o que eu esperava, talvez um livro que realmente me fizesse gargalhar, mas longe disso. Tá mais praquele horror do Hitchhiker’s etc. Tô gostando não, mas agora já comecei e vou teimar até acabar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

cansadéeeeerrima.

será?

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Parece – PARECE – que finalmente arrumamos um secretário. É o Stefano, um menino gigantesco de 19 anos que acabou de terminar a escola técnica de contabilidade. Quem mandou a criança pra nós foi uma das meninas da contabilidade do nosso maior cliente na oficina. A garota é esperta e por isso achamos que seu primão tem boas chances de funcionar bem com a gente.

Além de ser imenso, ele é engraçado, e quando começa a rir a gente acaba rindo junto mesmo sem saber do que se trata. Coisa mais engraçada é vê-lo junto da Elena, que é miudiiiiinha.

Eu não agüento mais pisar naquela oficina. Todas as manhãs bato ponto por lá, e não agüento maaaaaaaais. Odeio caminhões, odeio caminhonistas, odeio ferramentas, odeio prensas, odeio furadeiras, odeio gente mal educada. A coisa tá ficando tão chata que eu já tô até vendo o dia em que vou acordar com o pescoço duro, que nem no ano passado, durante aquele abominável estágio na agência de seguros. Só Stefano pode me salvar. Torçamos, torçamos.

hm

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Então eu li Oracle Night, do Paul Auster, e achei que ficou faltando alguma coisa.

A história é interessante mas há alguns elementos que se perdem no caminho e ficam sem muita função. Mas o problema nem é esse, o problema é a falta de estilo, a graça, os jogos de palavras, a invenção. Todos os escritores americanos da atualidade que eu já li soam exatamente iguais. TO-DOS. Pular de Hemingway (mesmo sendo A Moveable Feast, que não é um romance) pra qualquer outro pode ser altamente traumatizante.

Vamos ver se o outro Paul, o Burke, se sai melhor.