de dança

Pediram pra eu fazer um post sobre balé, mais especificamente sobre como é fazer balé em idade adulta.

Olha: fazer balé em idade adulta é, obviamente, muito engraçado (eu dou muita sorte na vida, porque estou sempre rodeada de pessoas que me divertem). Minha turma é de iniciantes, ou seja, ou gente que nunca fez dança na vida, ou que fez muito pouco há trocentos anos, tipo eu, então boa parte da aula é passada reclamando ou gemendo ou sacaneando alguém. Diversão garantida. O fato de estar fazendo balé depois de velha não me incomoda em absolutamente nada, pois nunca entendi o conceito de ter vergonha de estar envelhecendo. Todo mundo envelhece; quem não envelheceu é porque morreu antes, o que claramente é uma merda. A gente fica cheio de dores novas e problemas de saúde que nunca tinha tido antes? Sim. Mas, cara, até bactéria semeada na placa cheia de nutrientes, sem predadores, com casa, comida e roupa lavada vai ficando murcha ao longo do tempo e para de se reproduzir. Tem tanta coisa errada no mundo, caceta; eu vou ficar perdendo meu tempo lutando contra cabelo branco? Mas nem fodendo.

Estou terminando uma pós-graduação na qual quase todos os professores são BEM mais jovens que eu, e minhas colegas de turma todas têm vinte e poucos anos. Mas só parei pra pensar nisso agora, porque a leitora perguntou como é fazer balé depois de velha. Isso jamais foi um problema pra mim. Se amanhã eu decidir que quero fazer curso de amarelinha e só tiver turma de criança, vou fazer, sem drama. Não é esse o problema.

O problema é que eu tenho uma relação de amor e ódio com a dança. Se por um lado eu AMO ver pessoas dançando, qualquer coisa que seja, e tenho uma curiosidade quase mórbida de entender a biomecânica dos movimentos, ao ponto de não conseguir fazer nenhuma atividade física sem imediatamente pensar em quais grupos musculares estou usando, por outro eu tenho plena consciência do enorme volume que ocupo no espaço, e da maneira bestialmente desprovida de graciosidade que tenho de me mover no mundo. Sempre fui gorda, toda torta e desajeitada; não conheço outra forma de ser, e não houve um dia sequer na minha vida em que eu não tenha acordado e ido dormir pensando em como será que é ser bonita e graciosa. Adoro ver homens e mulheres dançando, de igual maneira, mas meu olhar sobre dançarinas mulheres é diferente: é uma análise muito clínica e detalhada, praticamente cirúrgica, do que eu gostaria de ser, mas nunca fui, nem nunca vou ser. De modo que eu AMO ver, mas é sempre, sempre uma experiência muito dolorosa também.

Eu não danço. Nada. Nunca. Não sou uma pessoa que dança; meu corpo não faz o que eu quero do jeito que eu quero, o resultado que ele me oferece não é o que eu quero, porque ele não é o que eu quero. O que eu faço definitivamente não é dançar balé, é fazer balé. É uma tentativa muito meia-boca de executar, na ordem mais correta possível e de preferência no ritmo certo, sequências de movimentos que o professor manda a gente fazer. Eu me expresso bem com palavras, obrigada; o resto não funciona. Aí você se pergunta, macacos me mordam, por que essa cretina faz balé então? Faço balé porque amo balé, amo demais, e não sei nem explicar bem o motivo, já que normalmente fujo de coisas delicadas como o diabo da cruz. Talvez seja recalque mesmo. Lembro que em um livro de inglês que eu usava pra dar aula tinha um texto sobre Toulouse Lautrec, que tinha as pernas curtas e todas tortas por um problema genético (inclusive essa síndrome, que só foi compreendida muitos anos depois, leva o nome dele. Se você acompanha Outlander, você já sabia disso, inclusive. Just sayin’. ). Segundo o autor do texto, rola uma teoria de que ele frequentemente pintava dançarinas porque elas eram tudo o que ele não era: proporcional, bonito, gracioso. Talvez seja por isso que eu amo tanto o balé clássico: porque ele é exatamente o oposto do que eu sou, em absolutamente TODOS os sentidos. Leve, delicado, atlético, belo, elegante, exibido, glorioso. Praticamente um não-eu.

Faço balé porque quero entender a técnica, tenho uma sanha de compreender a passagem gradual de movimentos simples pra outros complexos, quero compreender a lógica de uma coreografia e a sua relação com a sua trilha sonora. Não tenho pretensão de dançar; eu não danço, não sei como. Tenho plena consciência do ridículo que é uma mulher ogra desse tamanho, toda errada, desproporcional, o baricentro lá na puta que pariu, tentar fazer movimentos que são, por definição, necessariamente delicados e graciosos. Como eu respondi no comentário à leitora que motivou esse post, minha solução pro dilema é tríplice: não me olhar no espelho, jamais (obrigada, propriocepção linda da tia que permite que eu faça aula sem me olhar); não usar roupa de balé, porque eu não suportaria a humilhação; não me apresentar, jamais, porque, né.

Acontece com a zumba também. Na zumba é mais fácil, porque eu modifico (leia-se adapto) tudo. Movimentos sexy: só não. Sambadinha: passinho de grupo de pagode. (inserir meme da Bela Gil com os dizeres VOCÊ PODE SUBSTITUIR A REBOLADA POR UM AGACHAMENTO, POR EXEMPLO)

Tem dias em que eu chego em casa da aula e vou chorar debaixo do chuveiro? Ô, se tem. Pode ser que um dia eu não aguente mais o tranco, largue tudo e fique só na musculação? Pode, né. Não sei. Por enquanto, vou fazendo. Porque a alternativa é não ter balé nem zumba na minha vida, e, embora eu não saiba explicar o motivo exato, isso eu não quero.

Então meu conselho é: arrume uma turma tão legal quanto a minha, e faça o que bem entender. O máximo que pode acontecer é você não gostar da experiência e não querer mais fazer. Pode dar aquela deprezinha, mas se você tiver os colegas certos, isso fica em segundo plano. Se sua turma for chata, troque de turma, de escola, de bairro. Junte uns amigos e vão, abram uma turma só pra vocês. Arrume um professor maravilhoso, uma bicha má com um cabelo lyndo e analogias tão boas pra reclamar do aluno que tá fazendo errado que a sua filha fica imitando depois. Preencha a turma com uma amiga que reclama, com uma amiga que quando sobe no palco ilumina tudo sozinha de tanta felicidade, com um amigo fauno, com um amigo que fala de Platão no meio do alongamento, com uma amiga novata que ri de nervoso quando a valsinha não sai, com uma amiga que tem um dedão do pé fodido. Se não rolar, não rolou. Às vezes não rola mesmo, e faz parte da vida.

Faz. E depois me conta como foi.

14 ideias sobre “de dança

  1. Que texto maravilhoso!! Conheci seu blog há pouco tempo, mas acho que nunca comentei antes (não tenho certeza).

    De todo jeito, me RECONHEÇO no começo do texto porque cá estou eu, pós 30, cursando uma graduação pela primeira vez. Mais velha da turma, a mais cansada, mas tamos aí no meio da “xuventude”. :)

    E menina, meu sonho fazer balé! Nunca fiz quando criança (ou se fiz, nem me lembro) e gostaria mais pela fortalecimento dos músculos, melhora da postura, do que pela dança em si. Pilates (faço), Yoga, Musculação, Artes Marciais… Tudo que me fortaleceria, quero.

    E olha, vou levar seu texto no coraçãozinho.

    • Obrigada, Andrea :)

      Eu gosto muitíssimo de musculação e faço 5 dias por semana. Ajuda com a postura também, ao fortalecer os músculos do “core”. Recomendo muito mesmo.

      Que graduação você tá fazendo? :)

      Um abraço!

      • Mas eu acho musculação tão… blergh. Pode ser que se fizesse, adoraria (sou dessas), mas só de pensar em fazer já me dá um tédio…

        Eu faço Sistemas de Informação e sou a pessoa que menos gosta de TI, hahaha.

        (A gente ri pra não chorar. XD)

        :*

  2. Queria parabenizar a leitora que sugeriu o tema!

    Anônima e sem noção! Ninguém merece. :-D

    Não deixe mais de escrever, Letícia! A multidão clama! :-)

    Abraço,
    L.

  3. Meu Deeeeeeeus. Chorei. Queisso. To emocionado. Ai eu adoro essas coisas da vida, saudades conversar bastantão sobre varias coisas profundas. Nao sei nem o que dizer.
    Talvez o que eu quero dizer é que a treta da vida é fazer aquelas coisas materiais mais comuns transcenderem a matéria e se transformarem em coisas outras e repletas de significado. E o seu texto me fez transcender. Assim como as aulas de balé fazem.
    Não tenho nem palavras pra descrever como eu te adoro. De verdade.

  4. Que texto lindo! Vou ficar aqui pensando na autocrítica cruel do nosso próprio olhar. Acho que todo mundo é meio Toulouse Lautrec, e todo mundo chora no chuveiro. Ou não. Preciso de mais tempo pra articular isso direito e pensar no que você escreveu. Adorei :)

  5. Ah, Letícia, eu poderia escrever tantas coisas sobre esse post… conter-me-ei.

    Primeiramente, estou achando o máximo o DJ tocar a música que eu pedi! Se soubesse disso, já teria sugerido tema de post há muito tempo. ;-)

    Acho o máximo você ter tempo e energia para fazer, on top of everything, pós-graduação, musculação, zumba, balé etc. Já pode abrir a hotline da Mulher Maravilha.

    Acho que faz muito sentido uma pessoa exigente ser fissurada em balé e, por exemplo, esportes de alto rendimento.

    E acho também que precisaria de uma turma de balé como a sua. De colegas generosos, de um(a) professor(a) beesha baphônica cruela maravilhosa. Tenho muito medo do olhar alheio, mas a verdade é que o julgamento mais cruel é o meu. No limite, a autocrítica é a pior forma de crítica.

    Não sei, de verdade, de onde você tira tanta ogritude. Na minha humilde opinião de quem nem te conhece pessoalmente, acho que ela existe “só” na sua cabeça (o que, às vezes, já é muita coisa).

    Abraço,
    L.

    • Miga, o lance é todo esse mesmo, se o olhar do outro dói, o nosso é mil vezes pior. Até porque esse julgamento de terceiros é relativo: se tem uma coisa que eu já aprendi nessa vida é que a acachapante maioria das pessoas não olha pro vizinho, só pra si mesmo. Tenta fazer uma aula de zumba e observa as pessoas na sala. TODAS estão olhando pra si mesmas no espelho. Todas. Ninguém vai reparar na gente fazendo tudo errado, a não ser que você mesma rir da coisa (coisa que recomendo muito, por sinal). Eu só consegui fazer depois que entendi isso. Ainda tem dias muito ruins porque o problema é o MEU olhar, mas a carga pesada que era o medo dos outros pelo menos eu não sinto mais.

      Quanto à ogrice: ela é MUITO real, pergunta pra qualquer um que me conhece pessoalmente ;)

      Beijo

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